CampeãoA multidão distribuída pela arquibancada do estádio havia se afogado em um silêncio tenso, quase lúgubre, que em nada lembrava o barulho desordenado que até poucos segundos invadia os sentidos de quem fizesse parte daquela bagunça enfeitada pelas cores das bandeiras de muitos países. Todas as atenções estavam voltadas para os oito atletas, que se sustentavam pelos músculos fortes das pernas usando cada milésimo para levar a concentração ao limite, até que não houvesse mais nada que não fosse a iminência do minuto mais importante de toda a eternidade. No patamar na extremidade da terceira raia estava o jovem atleta. A esperança do país, a promessa das águas, o tubarão brasileiro. O jovem esportista que havia excedido todas as expectativas e agora carregava nos ombros largos e tensos todo o peso de representar o país nos Jogos Olímpicos.
Guilherme apertou os olhos como que para enxergar através do azul profundo da raia de 100 metros, que se tornaria extensão de seu corpo em instantes. À sua frente, mais um desafio, talvez o maior que já havia enfrentado. Num equilíbrio entre pulmões e neurônios, pretendia ir além. Concentração. Foco, campeão! Você consegue! Você é um campeão brasileiro. O jovem retesou os músculos do corpo e calculou todos os movimentos que faria para mergulhar da melhor maneira possível na piscina. O primeiro pulo era decisivo e poderia colocá-lo em vantagem em relação ao francês, que não era bom de largada, e do italiano, que tinha uma resistência incrível e poderia dar trabalho mais à frente. Daí em diante, era só instinto, força, coragem, superação, vitória.
Ao sinal, os oito atletas desafiaram as leis da física e desapareceram diante da multidão, que foi novamente tomada pelos gritos de incentivo, como se o som também ocupasse cada espaço do ginásio faraônico. Cada milésimo era essencial, cada milímetro avançado na piscina faria diferença. No Brasil, um incontável número de pessoas acompanhava com os olhos grudados na tela da televisão os movimentos decididos do jovem, aguardando com ansiedade o resultado da prova e ansiando pela vitória quase incontestável do brasileiro, o recordista. No sobrado cor-de-rosa na esquina da rua Paracatu, numa certa cidade do interior, dona Nilce sentia as fibras do coração sendo substituídas, uma a uma, em velocidade de cavalgada, por uma britadeira barulhenta e impiedosa, enquanto percebia o mundo através dos olhos cheios molhados. Naqueles infinitos e dolorosos pedacinhos de tempo, dividia-se entre a certeza da vitória do neto e o sofrimento causado pelo tempo imenso que se transcorria entre a largada dos atletas e a chegada deles, no outro lado da piscina. No estádio, a torcida brasileira sacudia firmemente a bandeira nacional enquanto deixava escapar expressões tensas em rostos pintados de verde e amarelo, capturados pela câmera da emissora de televisão.
12,28s
Os pensamentos de invencibilidade haviam voltado a brilhar nas idéias de Guilherme, naquele espaço do pensamento em que nada e tudo faz sentido, cujos lampejos de imagens ou ideias não podem ser controlados. Dentro da piscina, ele era um herói e conseguia compreender que era muito maior e mais rápido do que seu corpo podia demonstrar. Naquele momento, não dava tanta importância assim para a competição. Deixara de lado a estratégia e os cálculos, transformara-se em máquina. Títulos, troféus e medalhas, ele já tinha de sobra. O que lhe motivava a lutar contra os milésimos que se encurtavam em sua performance quase perfeita era aquele sentimento inexplicável, que lhe invadia o estômago e, em seguida, os dedos, narinas, joelhos, até que ele deixasse de sentir os limites das medidas físicas do corpo e atingisse o tamanho dos pensamentos, das ideias e, principalmente, das emoções. Por 48 segundos, ele era uma vontade. Invencível, perfeito, rápido, campeão. Força, campeão. Rápido, campeão!
27,10s
Guilherme esqueceu a agilidade do francês e a flexibilidade do italiano, que haviam tirado da competição tantos nadadores talentosos nas eliminatórias... Que haviam dado trabalho a ele próprio, nas semifinais. Sua avó preocupada havia desaparecido de sua mente. Seu pai e seu treinador, que deviam estar se consumindo de ansiedade, preocupação e expectativa, à beira da piscina, também sumiram. Não havia espaço e nem tempo para pensamento racionalizado, para qualquer coisa que não fosse só o simples desejo. Só havia lugar para a força, só para os braços, músculos, tendões, ligamentos. Força nas pernas, no pulmão. Força, força, força, campeão! Só mais alguns segundos.
40,04s
Finalmentes. É agora ou nunca, Guilherme.
43,48s
Força, campeão!
45,37s
Força!
47,04s
Guilherme tocou a parede da piscina, num ato de desespero e obstinação. Ouviu o silêncio dilacerante penetrando-lhe os tímpanos e danificando sua concentração, como quem acorda de um sonho assustado por uma coisa tão mundana quanto um toque de telefone ou um alarme de carro na esquina. Ele não tinha noção de quanto tempo havia durado aquela eternidade. Sempre demorava até recobrar os sentidos humanos. Não sabia se o italiano ou o francês já estavam fora da piscina, comemorando o pódio, ou se ainda estariam dando braçadas desesperadas rumo ao fim da prova. Na vida dele, tudo era assim. As grandes decisões, os momentos mais importantes, tudo parecia acontecer em um tempo mais longo do que o natural. Guilherme percebia o universo em um tempo diferente, esticado, próprio dos que lidam com a velocidade. Os detalhes estavam nos milímetros. As escolhas, nos milésimos. Ele havia aprendido como aproveitar cada fração de eternidade, mas era, por vezes, tomado por um desespero gigante ao perceber que o resto do mundo não o acompanhava. Quando acordava do estado etéreo da vontade, o mundo parecia girar em câmera lenta. E ele, impossibilitado de entender o que havia acabado de acontecer. Não reconhecia idiomas, nem bandeiras, muito menos sentia o frio das gotas d´água que escorriam sobre seus ombros para as costas. Havia voltado a ser gente. Havia deixado de ser ideia e voltado a ser Guilherme. O brasileiro demorou mais alguns centésimos de segundo até compreender o que via e, aos poucos, sua memória reativava as lembranças que tinha das formas e cores do mundo real, desse lugar que lhe parecia, agora, completamente inóspito e ameaçador, em contraste ao conforto do transe da vontade.
No centésimo seguinte, o mundo como nós conhecemos fez sentido para ele. A festa era verde-amarela. Ele era o mais novo campeão olímpico dos 100 metros livres. Ele, Guilherme Cavalcanti, medalhista olímpico. Dono da medalha de ouro com a qual sonhara nos últimos quatro anos de treinamentos. Ele, recordista mundial. Ídolo de uma geração, orgulho da nação. Força, campeão! Campeão!
- Acorda, campeão!
Guilherme demorou para abrir os olhos, relutante em acreditar que o ouro olímpico havia sido, uma vez mais, apenas um sonho e aprisionado pela latência da possibilidade de continuar a ser, para a eternidade. Quanto tempo demorava essa eternidade! Acostumando-se com a luz que entrava pela janela através da cortina aberta, o garoto esticou os músculos longos dos braços e soltou sons preguiçosos, enquanto fingia animação em um sorriso quase sincero.
- Acho que o seu despertador não tocou hoje, né? - disse vó Nilce, abrindo ainda mais as cortinas escuras e cobrindo de vez o quarto daquela luz clara e limpa das manhãs. Vindo da janela, o insistente cheiro das flores de laranjeira que cobriam as centenárias árvores plantadas em frente à casa da família.
- Que horas são? - quis saber Guilherme, enquanto tateava a cômoda ao lado da cama em busca do celular. Quando encontrou o aparelho, descobriu que ele não havia despertado por falta de bateria, o que era extremamente conveniente em noites de sonhos gloriosos como aquela. Traiçoeiro, mas conveniente.
- Hora do café da manhã - respondeu a avó, tirando do armário o uniforme passado do colégio e colocando-o ao pé da cama de Guilherme - Já para o banho, menino.
Nilce saiu do quarto enquanto Guilherme endireitou o corpo para se sentar na cama. Olhou da janela e viu o céu azul, no tom exato das águas profundas da piscina olímpica que servia de cenário para os seus sonhos. Riu da sorte torta de não poder controlar o tempo e viver refém das leis universais que garantem que depois de um segundo sempre virá outro, em uma ordem nem sempre satisfatória para os que sonham. Mas não havia motivo para entristecer-se. O que havia acabado de nascer era um dia a menos na eterna espera que o separava da maior glória que um jovem nadador pode almejar. Com pressa, o jovem se preparou para o que seria o dia mais importante da vida: o hoje, sem o qual não pode haver amanhã. (Guilherme sabia bem que era tudo a mesma coisa).
Um comentário:
"Riu da sorte torta de não poder controlar o tempo e viver refém das leis universais que garantem que depois de um segundo sempre virá outro, em uma ordem nem sempre satisfatória para os que sonham."
Não quero ser campeão olímpico (me falta talento pra tanto)mas sei exatamente o que é isso. Como sempre, ótimo texto!
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