Chocolate branco - um conto em três atos
Parte 2: Barras
Parte 2: Barras
- Sabia que o Pedro ficou com a Tamires? – disse Felipe em um dos raros intervalos entre um jogo e outro, sem largar a mão da manete do videogame e os olhos da televisão do quarto de Bernardo.
- Outra? Na festa da Paulinha ele tava com a Carol – respondeu Bernardo, desinteressado, preparado para mais uma batalha mágica contra o orc cinzento.
- Mas o Bruno falou que ele só ficou com ela para fazer ciúmes na Camila – Felipe contou, sem ter ouvido o estrondo que a notícia-bomba causou em algum lugar perto do estômago de Bernardo, alçando para o ar um trilhão de borboletas que ele nem sabia que estavam pousadas lá.
Bernardo disfarçou o desespero da recém-descoberta e possivelmente imaginária concorrência até a próxima pausa e esperou até Felipe ir embora, duas horas depois, para avaliar o tamanho de sua própria desgraça. Despreparado e desprotegido para a possibilidade de seu melhor amigo estar interessado em o que quer que a Camila significasse – e que ele jamais ousaria transformar em palavras àquela altura da história.
Duas semanas haviam se passado desde a festa da Paulinha e agora, mal se olhavam. Colecionavam defeitos um no outro e pensavam um no outro com certa hostilidade ofensiva, mas cada vez mais conscientes do irremediável sentimento que tomava conta de seus pensamentos e não os deixava quietos durante as aulas de ciência. Tornaram-se tão impacientes para os trejeitos um do outro que até os pais já percebiam o clima de uma tonelada que pairava sobre o banco de trás nas viagens entre o prédio e o colégio. Era pior na volta para a casa, quando o trânsito era turbulento e os compelia ao confinamento por mais tempo do que podiam aguentar.
- Menina metida – Bernardo cochichou com Pedro, depois de ouvirem Camila apresentar um trabalho de geografia diante da sala.
- Eu acho ela gata – Pedro devolveu, estapeando com as palavras o rosto de Bernardo e obrigando-o a aceitar a própria covardia. Como se não fosse o bastante, Pedro transformou a existência do amigo em uma bolinha de papel rabiscado que cai do lado de fora da lixeira ao continuar o cortejo unilateral – Vou chegar nela amanhã na excursão.
Ao olhar da professora Lúcia, Pedro e Bernardo concentraram-se nas lições de topografia da apostila. Pedro sorria diante do próprio devaneio enquanto Bernardo tentava controlar a tremedeira da mão ao copiar a lapiseira a matéria do quadro. Pobre grafite.
Na hora do recreio, Camila caminhou pela parte costumeira do pátio, próximo ao pequeno palco, onde costumavam ficar os alunos mais estrelados da escola, sob o centro das atenções e dos julgamentos invejosos do resto da comunidade plebeia da sexta série. Fingindo empolgação com as conversas frívolas que as meninas gostam de ter nessa idade, Camila respirou aliviada quando Renata Botelho se aproximou do bando. Era sua amiga preferida desde que Carol empenhara-se na arte das conquistas e deixara de lado os papos superficiais das 9h30. Naquela manhã, porém, Renata tinha uma ansiedade medrosa no olhar que não lhe era típica.
- Acabei de descobrir, você nem imagina! – Renata sussurrou, deixando claro que o assunto tinha certa gravidade e que não merecia entrar na pauta das discussões do grupinho de meninas que futricava pertinho dali.
- Que foi? – Camila perguntou, apavorada, antevendo qualquer tragédia dessas que acontecem na vida de quem tem 12 anos.
- O Felipe tá afim de você. Tipo, eu desconfiava já, você lembra que eu te falei, mas agora é certo! Tá confirmado! – Renata tagarelou mais meia dúzia de frases, mas Camila perdeu o controle sobre os olhos, que passaram a movimentar-se randomicamente em busca de Felipe no pátio. Não que tivesse ficado animada com a ideia (muito menos desanimada), mas entrava em pânico toda vez que pensava na possibilidade de aderir à moda implacável de ficar. Evitava a ideia, adiava o momento por pura inexperiência, apesar de fingir tratar com naturalidade mais aquele sinal de que estava tudo mudando o tempo todo e rápido demais. Só que, havia alguns dias, uma coisa tinha complicado tudo e ela já nem lembrava mais do que era. Até que seus olhos acidentalmente encontraram os de Bernardo. O menino estava escorado no corrimão da escada, observando-a, distraído. Ele disfarçou, como se tivesse sido flagrado bem no meio de um crime. Camila também afastou os olhos e, quando voltou a olhar, ele já não estava mais lá. E ela se lembrou do motivo de tudo ser tão complicado.- Camila, você tá escutando? – perguntou Renata.
- To, Rê – ela respondeu, mas não estava.
- E o que você vai fazer? – Renata insistiu.
- Sei lá, não tenho que fazer nada! Ele não falou nada comigo – Camila escolheu bem as palavras para não demonstrar para a amiga que seu cérebro havia executado uma operação errada e estava prestes a travar.
- Mas você vai ficar com ele se ele pedir? – Renata escorregou na beirada do abismo da inconveniência.
- Não sei, ele já ficou com a Carol, ela vai achar ruim comigo né – Camila encontrou a desculpa perfeita para adiar a resposta definitiva, depois de pensar uns três segundos.
Camila foi salva da conversa pelo resto do grupo de meninas, que falavam alto sobre o novo clipe da cantora pop que uma delas havia acabado de baixar pela wireless da escola no celular. E, para a sorte da moça, o assunto dos próximos longos três minutos do intervalo era só o figurino e a coreografia da loira na tela de oito centímetros. Só mesmo aquela música-chiclete para despistar o ritmo descompassado e completamente aleatório do coração de Camila, que saltava pelos ouvidos dela enquanto se desesperava com o que lhe reservaria o cruel – e desastrosamente travesso – destino.
Don't tell me what it's all about
Cause I've been there, and I'm glad I'm out
outta those chains, the chains that bind you
That is why I'm here to remind you!
What do you get when you fall in love?
you only get lies and pain and sorrow
so, for, at least, until tomorrow
I'll never fall in love again...
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