19 de nov. de 2010

069: Conto Trinta e Dois: 19-11-10

Chocolate branco - um conto em três atos
Parte 3: Cobertura
Dona Jamile fez a chamada para garantir que não faltava ninguém da sexta série dentro do ônibus. Meia hora depois, o grupo de meninos emendava canções e piadas, trocando risos altos pelo ar, de um jeito de impedir qualquer segundo de silêncio que só uma turma de pessoas de 12 anos consegue, como se a ausência de som fosse atestar a derrota na batalha contra a diversão. Se dependesse daquela turma, em especial, a batalha já estava ganha e, nem por isso próxima do fim. Mas toda a falação era só ruído de fundo para Camila, concentrada em sua seleção de músicas no fone de ouvido, no volume máximo.

Três bancos atrás estava Bernardo, concentrado no último capítulo do livro que contava a história de feiticeiros. Apesar de movimentar os olhos pelas palavras em uma ordem razoável, ele era incapaz de absorver o significado de qualquer uma, quanto mais de frases completas ou capítulos inteiros. Não tinha importância. Era exatamente por isso que ele escolhera aquele livro: já tinha lido antes.

Não demorou muito até que a turma se aquietou e pôs-se a conversar entre cochichos e olhares furtivos, em que borbulhavam estratégias de ataque e defesa próprias dos que teorizam as conquistas mas pouco sabem do movimento ilógico da prática. Bernardo percebeu, ao seu lado, que Pedro planejava agir em muito breve, antes mesmo da primeira parada do ônibus. Ouviu catatônico o que o amigo pretendia dizer, enquanto um conselho formado por Felipe e Gilmarzinho avaliava quais palavras poderiam funcionar e quais colocariam tudo a perder.

- Vocês não pensam em outra coisa não? – perguntou Bernardo, em pânico, sem pensar duas vezes, mas controlando o volume da voz. No segundo seguinte, arrependeu-se da censura e aceitou que não poderia evitar o rumo que a conversa tomaria em seguida.
- Como assim, Bernardo? Tem coisa melhor pra pensar? – soltou Gilmarzinho, considerando-se o último mestre da sedução do Colégio Santa Inês.
- Você fala isso porque não tá afim de ninguém agora, mas eu lembro quando você gostava da Jéssica – Pedro lembrou, forçando o constrangimento.
- Eu nem gostava dela! – Bernardo tentou se esquivar. Era mentira. Gostava. Mas isso era na quinta série, uns quatrocentos dias atrás, o que equivale a um milênio na linguagem dos meninos dessa idade, quando se trata de gostar de alguém.

Metros a frente, as meninas reuniram-se em volta de Camila disfarçando a plena consciência de que os garotos falavam sobre elas. Garotas sempre sabem ou pelo menos desconfiam quando um menino se interessa por ela, e isso eles só aprenderiam muito tempo depois. Alguns nunca. Esses, coitados, estavam fadados a viver pela eternidade sem decifrar alguns dos mais óbvios segredos femininos, embora possam chegar a acreditar, dependendo da sorte, que entendem de mulher.

- Eu acho o Felipe até bonitinho – disse Renata Ribeiro, despertando todo tipo de reações em formas de ruídos de aprovação ou desprezo das outras garotas.
- Mas o mais gato de todos é o Pedro, né? E aí, Carol? O que você acha do Pedro? – Letícia perguntou, sem medo de ser impertinente, enquanto o intestino de Camila dava um nó de marinheiro, repuxando sua existência para uma queda em espiral num poço sem fundo.
- Ah – respondeu Carol sem a menor inibição, certamente se controlando para não deixar enrubescerem suas bochechas – ele é gente boa né!

As garotas todas riram satisfeitas, compreendendo o eufemismo da mocinha. Camila fingiu um sorriso tão amarelo que, se pudesse ver o próprio rosto, diria que mais parecia uma careta do que uma expressão qualquer de felicidade. Letícia e Renata Ribeiro foram se sentar em suas poltronas, dispersando o bando de garotas. Minutos depois, Renata Botelho também terminou de comentar o capítulo anterior do seriado com Jéssica, na poltrona a frente da que Camila dividia com Carol e se afastou, deixando o corredor livre e incrivelmente calmo. A viagem ficou tão silenciosa que Dona Jamile até resolveu desviar os olhos de seu livreco para dar uma observada na calmaria da turma. Ela até achou que eles estivessem cansados. Tolinha.

Naquele momento, Pedro tomava fôlego para por em prática seu plano, enquanto Bernardo se encolhia, em pânico. Na poltrona ao lado, Gilmarzinho e Felipe faziam apostas sobre o destino do amigo, por entre risadas maliciosas e piadinhas que Bernardo preferia não ter entendido, antes de ser tarde demais para criar imagens mentais que lhe atormentariam para toda a eternidade, feito fantasmas entrando pela janela durante a noite. A cada segundo que passava, Bernardo encontrava menos sentido naquilo tudo. Chegou a considerar pular da janela do ônibus em movimento, mas era inteligente demais para colocar um plano desses em prática. Tentou distrair-se com o movimento das árvores na beira da estrada, mas não conseguia se desligar do mundo como poderia querer. Quando Pedro se levantou e começou a andar pelo corredor do ônibus rumo à poltrona de Camila e Carol, Bernardo reconsiderou a ideia de se jogar da janela.

Pedro precisou de sete passos para chegar até a poltrona das garotas. Camila se levantou. Bernardo observou ele aproximar a boca do ouvido dela, mas nem se prestasse atenção conseguiria ler os lábios do garoto. Que espécie de história maluca ele inventaria para convencê-la a beijá-lo? Se ele conseguisse ouvir, talvez aprenderia e talvez tivesse coragem de usar com outra pessoa. Por que é que Pedro sempre sabia o que dizer? Mas que droga de vida? Bernardo desistiu da ideia de não enxergar a conversa – todo o ônibus observava silenciosamente a mesma cena – e forçou os olhos e os ouvidos para ouvir. Infelizmente, setecentas cigarras barulhentas e quarenta e dois grilos reclamões resolveram cantar canções desafinadas dentro de seu cérebro.

Pedro falava e Camila parecia surpresa, aterrorizada, desconcertada, confusa e novamente surpresa com suas palavras. Ela olhou para trás e seus olhos de medo encontraram os de Bernardo. Se eles pudessem falar, gritariam para que ele a salvasse daquela situação que nem ele nem ela puderam prever. Se os deles pudessem responder, confessariam a ela que eram completamente viciados nas ondas dos cabelos dela e que a enxergariam para sempre, se fossem obrigados a escolher apenas uma paisagem por toda a eternidade. A agonia durou três segundos, o que equivale a toda uma era geológica na linguagem dos meninos dessa idade, quando se trata de gostar de alguém e ser correspondido, embora nenhuma ação possível pareça sensata o bastante para dar fim ao suplício.

Bernardo considerou a batalha perdida e ensaiou olhar pela janela em busca de qualquer paisagem que lhe arrancasse da mente a vontade desesperada e irremediável de transformar a angústia em lágrima. Quando nem bem havia se recuperado da dor que lhe causou o nó na garganta, desistiu de vez de entender que vida sem sentido é essa quando viu Camila constrangida caminhando em sua direção com a cabeça baixa e em passos tímidos.

Dona Jamile se assustou e quase deixou cair o livreco quando ouviu recomeçar a gritaria generalizada dos trinta e poucos alunos da sexta série que vibravam em reação à cena que viam. Pedro estava sentado na poltrona antes ocupada por Camila envolvendo o corpo de Carol com os braços e beijando a menina de uma maneira desajeitada, do alto de toda a sua experiência com o sexo oposto. Bernardo olhou para Gilmarzinho e Felipe, que comemoravam a vitória do amigo.

E tudo começou a fazer sentido. Se não tivesse ocupado demais comparando-se a um pedaço de nada, teria ouvido que Pedro tinha mudado os planos. Assim, Bernardo não teria se surpreendido com o beijo que toda a sexta série esperava que fosse acontecer antes mesmo da primeira parada do ônibus na excursão. Felipe e Carol. Era Carol o tempo todo.

Bernardo acordou de devaneios epifânicos instantâneos ao sentir o velho conhecido suave perfume doce de Camila sentando-se ao seu lado, na poltrona que era de Pedro.

- Então era pra isso que o Pedro me pediu pra trocar de lugar com ele, né? – perguntou Camila, no que nem era bem uma pergunta, e que foi acompanhada do mesmo sorriso sem-jeito-quase-careta.
- Pois é – Bernardo respondeu, sem ter muita opção disponível no extenso vocabulário que tinha guardado na mente.

Ficaram em silêncio por alguns segundos, o que, pela primeira vez em muito tempo, não lhes causou dores. Estavam livres de pelo menos um dos grandes pânicos da idade: o medo de perderem-se de vista nos caminhos dos amores da sexta série. Mas restava-lhes um problema sem solução. O burburinho em volta dos dois, típico dos recreios, alimentado pela mais nova fofoca do mês, não lhes ajudava muito, mas lhes preservava de serem, os dois, protagonistas das conversas frívolas do corredor do ônibus.

Diante dos inevitáveis minutos que ainda teriam que percorrer, dividindo os lados da poltrona do ônibus, viraram-se cada um para o ladro e tentaram se distrair. Mas não puderam negar nem por cinco segundos o que significava aquele compartilhamento de espaço que tentaram evitar por muito tempo. Olharam-se, mais uma vez, entendendo o sentido daquilo tudo. Agradeceram e amaldiçoaram a travessura do destino por colocá-los, de novo, frente a frente, como se a situação de terem sido traídos pelos próprios sentidos ao julgarem as intenções de Pedro e Carol não fosse desconfortável o bastante.

Para esconder a tremedeira e o suor nas mãos, Bernardo experimentou colocá-las no bolso do moletom que vestia, tentando não parecer esquisito e desengonçado demais em seus movimentos.

Camila enrolou uma mecha do cabelo em uma mão e assoviou algumas notas aleatórias até encontrar em uma delas uma melodia conhecida que a salvasse.

No fundo do bolso, Bernardo encontrou alguma coisa, e se lembrou do momento abençoado em que havia guardado aquilo ali, antes de sair de casa naquela manhã.

Camila desistiu do assovio e apertou os olhos, desesperada, enquanto lutava contra a própria vontade e controlava seus movimentos.

Bernardo tirou do bolso o que havia encontrado. Lentamente e com uma certa dificuldade, rasgou o pedaço de papel cintilante em um movimento circular.

Camila não resistiu ao barulho e teve que olhar na sua direção.

Bernardo mordeu um pedaço do chocolate branco e ofereceu o outro pedaço do tablete à menina, que sorriu, enquanto aumentava sem querer o ritmo da respiração.

Apesar de todo o nervosismo, a cegueira, o atordoamento da situação, o reconhecimento das próprias fraquezas, a aceitação da inabilidade para lidar com as coisas do coração, a incapacidade de verbalizar os sentimentos pelo puro receio de trocar os pés pelas mãos, apesar da inexistência completa de um termo em toda a Língua para colocar um nome naquilo, apesar da sensação de que nem era preciso colocar um nome naquilo, os dois souberam exatamente o que fazer.

Guardei sem ter porquê
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar
Achei, vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar


3 comentários:

Natalia Máximo disse...

Saudades desses tempos. O conto em três atos deu muito certo, você deveria fazer mais desse ;)

Ana disse...

Ai Otávio, que lindo!

Marina disse...

Que foooofo! Adorei todos os três atos. Adoro essas histórias infanto-juvenis.