Chocolate Branco - um conto em três atos
Parte 1: Raspas
Parte 1: Raspas
Bernardo segurava displicentemente o pedaço de galho enquanto desenhava círculos desconexos na areia entre as pedras que cobriam o solo do pátio. Fingiu prestar atenção na joaninha roxa que pousou sobre a tampinha de garrafa de refrigerante esquecida no chão enquanto tentava fisgar com o escanteio dos olhos os movimentos desinteressados de Camila.
Ela, do outro lado do banco branco, empenhava-se em parecer natural diante da presença do menino, embora pudesse notar o desconforto dele. Em sua mente, confundiam-se os sentimentos com as razões. Sentia-se constrangida de dividir o banco com ele, embora não fosse a primeira vez que sentassem lado a lado nos longos dois anos em que já se conheciam, da escola. Queria fugir, levantar logo, mas também queria ficar. Talvez só um pouquinho mais perto.
Os dois aguardavam a carona de volta para casa. Viviam no subúrbio, no mesmo bairro emergente, e moravam no mesmo prédio. Ela no segundo andar, ele no terceiro. Bernardo nascera lá e nunca havia saído. Camila tinha se mudado há um par de anos, após a separação dos pais. Encontraram-se pela primeira vez no elevador: ele ao lado do pai distraído, levando o cachorro pela coleira, ela sozinha, independente como podia ser uma menina de 10 anos que aprendia a se acostumar com a vida longe da mãe.
Não trocaram mais do que os olhares desencontrados que costumam compartilhar crianças da mesma idade. Ela logo fez amigos entre as crianças do prédio, que em 10 anos nunca haviam interessado muito a ele. Bernardo tinha inveja da desenvoltura dela, do jeito de falar, como se fosse já uma moça crescida, da empatia imediata que despertava nos porteiros e nas babás. Ele ousou achá-la metida e arrogante, embora nem soubesse ainda o significado do insulto, mas desistiu depois.
Camila achou estranho quando o flagrou conversando com o cachorro num momento em que o menino acreditava estar sozinho no hall de entrada do prédio, mas achou bonita a maneira dele de criar o próprio mundo, sem precisar (ou recusar) a ajuda de ninguém. Era criativo, ela sabia, ao observar como ele brincava e ao ver de relance um desenho dele pregado na geladeira durante uma visita cordial de um pai ao outro.
Conviveram assim, com palavras pequenas que nunca disseram nada, até encontrarem nas entrelinhas os relances de afinidades. Quando Camila mudou para o colégio dele, no início do ano, Bernardo ficou apavorado pela obrigação iminente de ter que servir de guia para ela, como esperavam os pais em conversas simpáticas. No primeiro dia de aula juntos, foi cada um para um lado, compreendendo que a coexistência dos dois mundos estava ameaçada pela interseção.
No banco de trás dos carros (nas segundas, quartas e sextas, da mãe de Bernardo, nas terças e quintas, do pai de Camila), não trocavam muitas palavras. Certa vez, flagraram-se cantando baixinho acompanhando a música que saía dos alto-falantes do carro e riram da coincidência. Como é que ele/ela sabe essa música tão velha da época da minha avó?
Depois disso, os encontros casuais nos corredores, no elevador ou na fila da lanchonete do colégio eram menos dolorosos. Vez ou outra, brotavam sorrisos.
- Sua mãe melhorou?
- Já tá melhor, foi só uma gripe.
Acostumaram-se a fazer parte da vida um do outro que mal conseguiam suportar a distância de três ou quatro fileiras de carteiras que os separavam durante as aulas na sexta série. Aguentavam os recreios em turmas separadas, embora procurassem o olhar um do outro em pontos opostos do pátio entre conversas sobre desenhos animados e penteados. Reconheciam-se em multidões, respiravam aliviados ao se encontrarem em cada segunda-feira, apesar de parecerem convencidos de que era natural passarem o fim de semana todo sem se verem. Descobriram o gosto em comum por um certo chocolate branco quando se viram disputando o último exemplar do doce na padaria da esquina. Dividiram igualmente e foram, ela para a aula de inglês, ele para a natação, com sorrisos estampados nas caras. É o chocolate fazendo efeito, diriam.
Bem no meio do caminho, entretanto, havia aparecido uma pedra inoportuna. Um pedregulho, um rochedo, um asteroide, do tamanho de Plutão. Foi na festa da Paulinha que se viram compartilhando uma inocência quase incomum ao descobrirem sobre Pedro e Carol. O melhor amigo dele e a melhor amiga dela, juntos, por intermináveis minutos durante a maior parte da noite, no lado menos iluminado do salão de festas do prédio da Paulinha. Foi o primeiro sinal. O segundo veio quando o iPod da dona da festa começou a tocar a mesma música velha que um dia Bernardo e Camila haviam cantarolado juntos no carro. Dessa vez, cantaram, se olharam, mas não sorriram. Disfarçaram e afastaram o olhar, aterrorizados pela conclusão de que não conseguiriam mais viver um sem o outro.
No domingo, Bernardo não quis descer para jogar futebol. Preferiu jogar videogame e ler um livro. Da janela, viu que Camila também não estava no pátio do prédio. Em casa, a menina assistiu a todas as novelas da TV, embora não conseguisse pensar em uma solução para o problema que havia aparecido. Quando a noite tomou-lhes o ócio e os obrigou a encarar a iminência da segunda-feira, entraram em pânico, pois sabiam que era inevitável o encontro, logo de manhã, no banco de trás do carro.

Ele, fones nos ouvidos. Ela, celular na mão. Disfarçaram tão mal que despertaram o olhar desconfiado da mãe de Bernardo pelo espelho retrovisor. Desceram do carro em passos rápidos, pegaram atalhos diferentes até chegar à sala de aula, evitaram-se no recreio e tremeram ao sinal final. Sentaram-se em polos opostos do velho banco branco e deixaram-se torturar pelo silêncio que invadia todos os espaços entre os dois, enquanto passavam despercebidos entre a multidão de jovens estudantes uniformizados entrando em carros e vans escolares. Distribuíram sorrisos e acenos tímidos a quem quer que ousasse chamar-lhes a atenção com despedidas inofensivas e amaldiçoaram a sina de esperarem, sozinhos, durante dez minutos, até que pudessem ver aparecer na esquina o carro da família de Bernardo.
Naquela tarde sem sentido, Bernardo não conseguiu passar da primeira fase no videogame e Camila errou equações simples nos problemas de matemática. Daquele chocolate branco, não podiam mais comer.
Why do birds suddenly appear everytime you are near
just like me, they long to be close to you
Why do stars fall down from the sky everytime you walk by
just like me, they long to be close to you
On the day that you were born, the angels got together
and decided to create a dream come true
So they sprinkled moondust in your hair of gold
and starlight in your eyes of blue...
4 comentários:
produção em série, Otávio?
E depois o meu ritmo que é frenético!
Ahah. fz o q, né? O texto veio em 3 partes, fiz foi um favor ao postar em série pra não ficar um trem gigante.
e sim, seu ritmo é mais frenético rafa
Que lindo texto (:
Lindo, Otávio ;)
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