ou Como foi difícil escolher uma música da setlist para ser o título desse texto!
Sou escritor. Menos pela produtividade literária e mais pelo impulso inevitável de traduzir tudo o que eu vejo em parágrafos, ainda que eles nunca sejam escritos. Procuro variar adjetivos, evitar clichês, experimentar construções, misturar estilos literários, ate mesmo quando preciso escrever uma reportagem. Amo as palavras quase tanto quanto as sensações que elas tentam demonstrar. Nos últimos anos, me acostumei a escrever sobre quase tudo, desde notas policiais até críticas elaboradas de um filme obscuro do diretor filipino. Mas, pela primeira vez em muito, muito tempo, não encontrei adjetivos que descrevessem o que foi assistir, durante três horas, à performance de Sir Paul McCartney em São Paulo.
Como é que se comporta diante de uma lenda? Já defendi os Beatles em discussões históricas. Respeito quem não é fã e quem acha uma banda superestimada, mas advogo pela universalidade das músicas do quarteto - de Please Please Me a Let it Be. Perdi a conta de quantas vezes ouvi cada música da banda. Mas nada tinha me preparado para Paul McCartney. Conviver no mesmo espaço ideológico de Sir Paul foi experimentar uma tremedeira incurável nas pernas que quase me fez cair. Foi ir do choro em Here Today à euforia da risada em Dance Tonight em questão de minutos. Foi ser um dos 64 mil loucos que cantavam "na, na, na" em Hey Jude. Foi ficar sem ação diante dos soluços dos amigos em I've just seen a face ou Blackbird. Ou simplesmente ficar parado, babando, olhando para o palco, sem ação e sem forças nem para cruzar os braços durante a maior parte do tempo.
No dia 21 de novembro, domingo, acordei antes das 5h. Um avião, um táxi, dois ônibus, quatro linhas do metrô e dez quarteirões a pé. Mais tarde, uma van e uma fila quilométrica. Espera. Quando o moço do paletó azul entrou no palco, custei a acreditar. A voz, o rosto e a pose, por trás do contrabaixo, eram conhecidos, mas meu transe me impedia de ligar o nome à pessoa. Só 15 minutos depois consegui parar de tremer e me firmar nas pernas. Diante do inexplicável, só consigo dizer que eu não estava no Morumbi.
Eu estava no quarto da minha casa no interior de Minas, experimentando ficções infantis brincando de Lego, escrevendo aventuras na mente e nas folhas de papel. Minha mãe cantava na sala, dedicada a deixar a sala impecável. Enquanto eu inventava histórias, a voz da minha mãe deu lugar ao chiado de um disco de vinil no toca-discos.
- Baaaand on the ruuuun.
Eu ainda não sabia o que aquilo queria dizer, só ouvia os fonemas. Mas entendia que estava completamente seguro naquele momento, distante dos problemas da família que só fui descobrir que existiam anos depois. Larguei meus brinquedos e minhas pré-ficções e caminhei até a sala. Abri o armário onde meus pais guardavam os discos e peguei a capa vazia do que minha mãe ouvia. Gostava do contraste entre o preto e o sépia, das posições dos músicos e de suas expressões, como pegos em flagrante. Larguei as ficções de Lego e formulei teorias sobre o motivo da fuga daquele grupo. Do que será que fugiam? O que será que eles haviam feito? Hoje, só sei sentir o que eles fizeram com a minha infância e com a minha vida.
Descobri que um dos moços na capa do disco era um cara respeitado, que havia feito parte da maior banda de todos os tempos. A mesma que cantava "She loves you yeeeah, yeaaah, yeaaah". A mesma que levou menos de dez anos para ficar para sempre nos muros, nas prateleiras, nos fones de ouvido, nas telonas, nas telinhas, nas camisas, nas faixas de pedestres em cada esquina, nas mentes e nos corações da civilização ocidental. Os Beatles mudaram o mundo. E eu cresci me aproximando cada vez mais dessa lenda até não haver mais para onde ir. Como quem não se cansa da discografia dos Wings ou dos Beatles e que insiste no repeat nas canções preferidas, aceito que o viverei o resto dos meus dias em busca de ver de novo Paul McCartney. Aceito o destino de que, mesmo para os escritores mais criativos, palavras são só palavras. Diante das lendas, não há outra saída senão se render à insuficiência do idioma.
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| Something in the way he plays... |
Como é que se comporta diante de uma lenda? Já defendi os Beatles em discussões históricas. Respeito quem não é fã e quem acha uma banda superestimada, mas advogo pela universalidade das músicas do quarteto - de Please Please Me a Let it Be. Perdi a conta de quantas vezes ouvi cada música da banda. Mas nada tinha me preparado para Paul McCartney. Conviver no mesmo espaço ideológico de Sir Paul foi experimentar uma tremedeira incurável nas pernas que quase me fez cair. Foi ir do choro em Here Today à euforia da risada em Dance Tonight em questão de minutos. Foi ser um dos 64 mil loucos que cantavam "na, na, na" em Hey Jude. Foi ficar sem ação diante dos soluços dos amigos em I've just seen a face ou Blackbird. Ou simplesmente ficar parado, babando, olhando para o palco, sem ação e sem forças nem para cruzar os braços durante a maior parte do tempo.
No dia 21 de novembro, domingo, acordei antes das 5h. Um avião, um táxi, dois ônibus, quatro linhas do metrô e dez quarteirões a pé. Mais tarde, uma van e uma fila quilométrica. Espera. Quando o moço do paletó azul entrou no palco, custei a acreditar. A voz, o rosto e a pose, por trás do contrabaixo, eram conhecidos, mas meu transe me impedia de ligar o nome à pessoa. Só 15 minutos depois consegui parar de tremer e me firmar nas pernas. Diante do inexplicável, só consigo dizer que eu não estava no Morumbi.
Eu estava no quarto da minha casa no interior de Minas, experimentando ficções infantis brincando de Lego, escrevendo aventuras na mente e nas folhas de papel. Minha mãe cantava na sala, dedicada a deixar a sala impecável. Enquanto eu inventava histórias, a voz da minha mãe deu lugar ao chiado de um disco de vinil no toca-discos.
- Baaaand on the ruuuun.
Eu ainda não sabia o que aquilo queria dizer, só ouvia os fonemas. Mas entendia que estava completamente seguro naquele momento, distante dos problemas da família que só fui descobrir que existiam anos depois. Larguei meus brinquedos e minhas pré-ficções e caminhei até a sala. Abri o armário onde meus pais guardavam os discos e peguei a capa vazia do que minha mãe ouvia. Gostava do contraste entre o preto e o sépia, das posições dos músicos e de suas expressões, como pegos em flagrante. Larguei as ficções de Lego e formulei teorias sobre o motivo da fuga daquele grupo. Do que será que fugiam? O que será que eles haviam feito? Hoje, só sei sentir o que eles fizeram com a minha infância e com a minha vida.
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| "Let me roll it..." |


5 comentários:
Foi, sem dúvida, o show da minha vida. Ainda não encontrei palavras pra escrever sobre isso, mas vou escrever.
É, eu não sei como vou superar esse show. E não sei o que ainda estou fazendo sentada aqui na minha cadeira ao invés de ir atrás do outro show dele. Acho que também se tornou meu motivo de vida
Sempre falta falar tanto né?
Esse show foi o pedra no sapato de tudo quanto é escritor. A dificuldade em conseguir escrever qualquer coisa - resenhas musicais babacas não contam - é impressionante.
Desde o show conferi várias críticas em blogs. Todas com a mesma ideia central: é impossível colocar em palavras o que aconteceu no Morumbi. Lamento não ter ido, você sabe. Mas espero estar no próximo show, esse que você faz questão de também ir.
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