26 de jun. de 2010

060: Conto Vinte e Sete - 26-06-10

As nossas próprias constelações

Entre eles, um oceano inteiro. Ainda assim, para Francisco, ela estava ao alcance de um pensamento. Quando viu os ponteiros em ângulo quase reto, madrugada a dentro, olhou para a pilha de textos que se espalhava pelo chão do quarto. Nenhuma leitura de códigos, processos e estudos de caso poderia ser produtiva depois das três da manhã. Não naquele dia de correria, atrasos, ônibus lotados. Não naquele dia em que todos os tempos e espaços haviam se enchido da ausência de Mariana. Não naquele dia, em que Francisco começava uma contagem regressiva mental para a volta dela.

Francisco esticou as pernas, saboreando a dorzinha nas articulações que a maturidade - ou a iminência da velhice? - lhe proporcionara. Caminhou até a varanda e observou o céu. Limpo, sem nuvens. No alto, a lua não tinha nada de excepcional, apenas o mesmo brilho artificial de sempre. O corpo de Francisco pesava e implorava por descanso, mas seus olhos insistiam em ficar abertos, como se fosse impossível dormir na presença daquela lua. Ela sabia. Ela era testemunha de como o mundo havia ficado deserto sem Mariana, durante todos aqueles meses. Preparou um capuccino e voltou para a mesma varanda sob o luar, onde gostava de sentir o vento varrer seus cabelos. Se tivesse alguma sorte, o vento levaria seu pensamento até onde ela estivesse.

Ela mal havia acreditado que conseguira aquele mestrado na França. A empolgação fizera os olhos da moça brilharem quando recebeu a notícia de que havia sido indicada para o curso. Era tudo o que ela sempre sonhara. Dias antes de Mariana partir, Francisco notou os olhos dela se entristecerem, embora ela disesse que estava tudo bem e que só estava com um pouquinho de medo. "É o meu sotaque, e se não gostarem do meu sotaque?", ela repetia, camuflando sentimentos e inseguranças. Francisco imaginou que ela pudesse estar desesperada, como se quisesse que ele implorasse logo que ela ficasse, e acabasse de uma vez com aquele tormento.

Ele não pediu, não tinha o direito. Nem namorados eram. Nem eram nada, apenas colegas de faculdade. Apenas dois jovens que tinham sonhos parecidos de viajar o mundo de balão. Como é que podia pedir para que ela deixasse de lado a chance de sua vida? No fundo, sabia que Mariana compreendia seu dilema. Foram sofrendo os dois, definhando até o dia da partida. Após ver o avião desaparecer no ar, Francisco distribuiu sorrisos que escondiam o trapo que havia se tornado, por dentro. Era nem metade de um homem qualquer. Era menos que nada sem ela. No caminho de volta do aeroporto, chorou tanto que teve que encostar o carro em um canto qualquer da estrada para transformar em lágrima a desolação que sentia.


Com o tempo, havia se acostumado com a ausência dela. Os sonhos de Francisco eram embalados pela doce possibilidade de que ela também pudesse pensar nele, entre uma aula e outra, entre uma visita ao Louvre e um fim de semana em Barcelona. Era o mundo que ela queria. Só faltava o balão, mas isso a gente guarda pras histórias de contar pros filhos. França. Francisco. Mais de uma vez ele se flagrou rindo daquela ironia. Da grande ironia de nunca ter conseguido dizer que, se pudesse, se tivesse dinheiro, se não tivesse medo, largaria tudo e ia pra lá, só pra ficar perto dela, sem se importar com mais nada.

Mas ela tinha o mestrado. E ele, o concurso. No final, tudo vale a pena. A gente se acostuma mesmo a não ter aquilo que nunca tivemos coragem de buscar. Conformado, ele a ouvia contar suas aventuras pela Europa, procurando brechas, procurando sinais de que ela também sentia falta dele. Às vezes, era o bastante saber que ela tinha lembrado dele em uma visita a Roma. Ou ao contar-lhe sobre as constelações que se vê no hemisfério norte.

Eram assim, os dois. Desde sempre, para sempre. Lado a lado, contando estrelas e adivinhando com quais lápis de cor reproduzir a cor da lua. Lado a lado, dividindo o mesmo fone de ouvido, ao som de alguma balada de algum tempo que fale de uma manhã de domingo ou de uma história de amor daquelas que se vê nos filmes. Eram assim, quando conversavam sobre as famílias que queriam ter, os filhos, os cachorros, os livros na estante, os filmes na prateleira, a câmera fotográfica que registrava o encontro das almas gêmeas. Um dia, ele havia contado a ela sobre o seu sonho, sobre a vida perfeita que pretendia ter dentro de 15 anos. "E você, não sonha com essas coisas não?", ele perguntara. Ela, concentrada em amarrar os cadarços do tênis, havia respondido, distraída: "Tá bom desse jeito que você sonhou.". Ele tinha sentido vontade de abraçá-la e ali mesmo confessar o que sentia, aquela coisa sem nome que lhe havia tomado por completo. Mas foi impedido pela timidez e pela sensação apavorante de vê-la se afastar, caso se sentisse ameaçada pelos sentimentos malucos dele.

Francisco acordou do devaneio queimando a língua com o capuccino quente. Pegou-se tremendo de frio e percebeu que não podia mais lutar contra o sono. Deitou, dormiu e sonhou com balões coloridos e cachorros dourados peludos.

The light was leaving in the west, it was blue
The children's laughter sang
And skipping just like the stones they threw
Their voices echoed across the way
It's getting late

It was just another night
With a sunset and a moonrise 

not so far behind
To give us just enough light
To lay down underneath the stars
Listen to Papa's translations
Of the stories across the sky
We drew our own constellations

The west winds often last too long
The wind may calm down
Nothing ever feels the same
Sheltered under the Kamani tree
Waiting for the passing rain
Clouds keep moving to uncover the scene
Stars above us chasing the day away
To find the stories that we sometimes need
Listen close enough
All else fades
Fades away




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