Entre o verde-água e o mousse de maracujáSuspensa em pensamentos coloridos feito desenhos de criança, Júlia demorou alguns segundos para perceber que o sinal já havia tocado. Todo o interesse que ela parecia ter num ponto infinito no meio da parede da sala de aula, ao lado da lousa, se transformou em pressa para juntar logo todas as suas coisas e não perder a van escolar. No caminho, cumprimentou, distribuiu sorrisos e saudações, 'até segunda-feira', dizia indiscriminadamente pra qualquer um. O sorriso bobo e amarelo que ainda carregava quando passou pelos portões do colégio não eram de felicidade ou constrangimento: eram da consciência súbita da própria capacidade de devanear.
Tropeçou uma ou duas vezes, introversa em qualquer solfejo musical. No caminho para casa, observou o movimento da cidade. Concentrou-se com tal facilidade em uma folha de nogueira que entrou pela janela da van durante uma parada no semáforo que se assustou quando o veículo arrancou, virando a esquina e passando rápido pela lombada da avenida que entrava em seu bairro. Caminhou distraída por alguns metros, divertindo-se com o movimento do gramado, vulnerável e conformado, sob seus pés.
Passou pela mãe sem responder. Diante da insistência, monossilabou.
- Quê te deu hoje? Tá distraída - perguntou dona Carmela depois que a filha derramou suco para fora do copo, quase inundando o prato de risoto.
- To pensando na prova de biologia - Júlia respondeu fingindo atenção, quase certa de que sua mãe, assim como qualquer outra, saberia muito bem que sua preocupação ia bem além dos ribossomos e mitocôndrias.
- Sua tia ligou de novo te procurando, ela sempre esquece que você só chega de tarde da aula. Dá uma ligada pra ela depois, você sabe como ela fica quando você não dá notícia, fica toda preocupada, achando que está sendo chata e que você não gosta mais dela e...
Concentrada na sombra amarelada que o jarro translúcido de suco atravessado pela luz do sol fazia na toalha de mesa branca, Júlia perdeu as últimas frases da frase da mãe. Sentindo-se culpada, tentou recuperar o discurso pelo contexto e, a julgar pela cara de dona Carmela, que expressava algo entre o espanto e a surpresa, deve ter falado alguma bobagem. Surpreendida pela incapacidade de manter a mente focada em alguma coisa, terminou logo a comida e, sem dizer nada, foi para o quarto.
O emaranhado de números da equação de segundo grau era vítima fácil para seus pensamentos contornados. Júlia não pôde evitar em desenhar arabescos por entre os elementos da fórmula de Báskara. Quando o resultado daquela equação simples deu um número imaginário, ela se convencida da impossibilidade de resolver qualquer coisa com o cérebro naqueles dias. Não viu borboletas na janela, não brincou de decifrar os desenhos metamórficos das nuvens e não sonhou com pôneis e unicórnios nas terras paradisíacas dos papéis de carta com cheiro de melancia. Mas quebrou três vezes o grafite da lapiseira e passou quase dez minutos procurando a borracha que havia escorregado para baixo da cama.
Não ouviu sininhos quando bateu com a cabeça de cara na grande porta de vidro que dava para a varanda de casa. Do lado de lá, o céu havia escurecido e preparava uma tempestade. Do lado de cá, Júlia zapeava pelos canais da televisão sem nem sequer ter notado que seu filme preferido era repetido pela décima oitava vez no ano. Não houve anjos tocando harpas quando Júlia se descobriu atrasada para começar a se arrumar para a festa na casa de Bia.
Atrapalhou-se com o chuveiro, desencontrou a blusa vermelha, deixou pra trás o celular descarregado. A distração que lhe tomara os sentidos durante o dia inteiro havia ido embora e dado lugar a uma velha conhecida: a ansiedade. Perdeu o fôlego três vezes no caminho da festa e agradeceu aos céus o fato do pai-motorista estar distraído demais com o solo do Roger Waters que saía do alto-falante do carro. Júlia respirou um pouco mais acelerado e quase esqueceu no carro a bolsa com os documentos. Olhou-se uma última vez no espelho, tomando conta dos próprios gestos para evitar excessos. Não podia se desapegar do autocontrole. Segundos antes de entrar no salão de festas do prédio de Bia, percebeu o esmalte descascado nas pontas das unhas. Apertou os olhos em desaprovação e considerou ir embora.
- Idiota! Retardada! Tinha que esquecer disso?
Perdeu mais tempo na entrada do salão, fingindo retocar a maquiagem. Olhou de novo a maquiagem mal feita e a roupa desleixada que estava usando. Por que é que não tinha vestido a saia preta? Que ideia imbecil substituir pelo shortinho xadrez! Pela primeira vez no dia, Júlia teve vontade de chorar de raiva de si mesma. Àquela altura, nem controlava mais os solavancos do ombro, que demonstravam seu nervosismo. Era como se sua mente, que passara o dia todo desocupada com o movimento das asas das abelhas, tivesse voltado para o seu cérebro, incomodada com a iminência de qualquer tragédia emocional. Era como caminhar em campo minado, mesmo estando parada ali, de frente para o espelho. Um sentimento esquisito lhe subiu pelo estômago e tirou, de súbito, um resquício de respiração ritmada. Era raiva, ou agonia, ou angústia, ou tristeza, ou simplesmente desespero.
Júlia deixou escapar um grito agudo quando alguém lhe tocou o braço. Na fração de segundos que demorou até que ela pudesse virar o rosto para enxergar a pessoa que a tinha flagrado naquele turbilhão de pensamentos, esvaziou depressa a mente. Era ele.
- Não vai entrar não?
Era um azul descarregado, quase cinza, cor de tempestade. Os raios circulavam tão harmoniosamente aquelas pupilas que Júlia podia jurar que aqueles olhos enxergavam o mundo de uma maneira diferente, mais plácida, mais vibrante, mais azul.
- Júlia?
Ela queria falar. Não conseguiu. O maior esforço de formular uma ideia transformou-se num ruído ininteligível do qual ela se arrependeria para sempre, imediatamente. Conformada com a incapacidade de proferir uma palavra sequer diante dele, Júlia fez uma pequena careta. Era o fim de qualquer possibilidade de interação social com ele. Ou com qualquer outra pessoa na escola. No planeta. No universo. Desastrada, estúpida, tinha que estragar tudo mesmo. Era uma sentença irrevogável: nunca mais poderia colocar os pés para fora de seu quarto. Queria sumir, desaparecer, teletransportar-se para debaixo da própria cama, ou para os confins do Quirguistão. A menos que...
Antes que Hugo pudesse compreender o significado daquele momento de silêncio da menina, seus lábios foram invadidos pelos dela. Júlia sentiu uma chuva de sensações fluorescentes e piscantes que desenharam respostas abstratas e repletas de sentido para todas as perguntas que ele não havia respondido durante a distração das últimas 72 horas. Perdidas nas aventuras dos próprios braços e acometida pelo próprio torpor daquele ato repentino de coragem e desejo, a menina nem desconfiava que o dia dele havia sido bem parecido com o dela. Hugo também sentia aquela coisa engraçada entre o verde-água e o mousse de maracujá nos pequenos intervalos entre as batidas de seu coração. Cúmplice, o espelho suspirou, aliviado.
Se me acaba el argumento y la metodología
cada vez que se aparece frente a mí tu anatomia
Porque ese amor ya no entende de consejos ni razones
se alimenta de pretextos y le faltan pantalones
Este amor no me permite estar en pie
porque ya hasta me ha quebrado los talones
y aunque me levante volveré a caer
si te acercas nada es útil para esta inútil
Bruta, ciega, sordomuda,
torpe, traste, testaruda,
es todo lo que he sido
por ti me he convertido
en una cosa que no hace
otra cosa más que amarte
pienso en ti día y noche
y no sé cómo olvidarte
Ay, ay, ay ay ay ay...
Um comentário:
Parece que todo mundo já viveu algo parecido, essa paixão adolescente. Era tudo tão simples, na sua própria complexidade.
Belíssimo texto.
Postar um comentário