O
mundo dele era um quarto bagunçado. As roupas que usara nos últimos dias estavam espalhados pelo chão, escorrendo pelas gavetas do armário aberta. A cama nunca estava feita, não importava a hora. A poeira insistia em dominar a superfície de cada objeto, como sua coleção de carrinhos em miniatura expostos na pequena escrivaninha, cheia de papéis sem uso. Num canto, o computador sempre ligado dentro do qual uma cachoeira de bits se transformava nos seus filmes preferidos, nos documentos de uma pasta com atalho no desktop, e nas centenas de músicas que trilha-sonoravam sua existência. Era de lá que saía o jazz das tardes chuvosas, o country romântico das manhãs de domingo, o indie-rock do dia-a-dia e principalmente as baladas anos 50 das madrugadas que passava acordado.
O mundo dele era uma janela aberta, uma vista de milhares de outras casas, cujos telhados por vezes refletiam um brilho tímido e enevoado da lua cheia. No frio, ele gostava de sentir o vento entrar, só para poder se cobrir um pouquinho mais. O que seria do frio se não houvesse ninguém para senti-lo? Do alto do décimo-terceiro andar do prédio de apartamentos, ele já pensara muitas vezes em se jogar. Mas não por causa de algum desejo de morte. Cair, voar, segundos de liberdade.
O mundo dele era solitário. Livros que lia até a metade, textos e teorias, provas,
estágios, códigos, leis. Piloto automático todos os dias. Era assim que ele vivia. De almoços rápidos, conversas vazias, há muito tempo já não sabia o que era sentir nas costas o sol das 4 da tarde. Nos últimos 5 anos vivera todas as 4-da-tardes dentro de salas de aula, escritórios, quartos, engarrafamentos, quando muito.
O mundo dele era um carro, que só existia e
m planos e sonhos. Um carro que conseguiria comprar quem sabe em um ano? Seria vermelho? Ou preto? Marchas, válvulas, rodas e volante. Eram planos feitos para os próximos dez anos, que sabia de cor, como letras das músicas do Cazuza e do Marcelo Camelo. Eram acordes de violão, chocolate branco, embalagens de biscoito recheado espalhadas, contas grampeadas em recibos.O mundo dele era o poster do filme do Billy Wilder que pregara no teto do quarto, bem acima de sua cama. Era a academia na esquina, que ele sempre prometia se matricular no mês seguinte. Era uma vodka no fim de semana, amigos superficiais, algumas risadas, piscina. Era também o vício em amendoins confeitados. Era tudo o que ele podia conseguir em doces com o troco do ônibus.
O mundo dele era meio chato, sem graça, durante o dia. Mas era um pouquinho mais colorido quando ela aparecia, madrugada ou outra, na internet.
O mundo dela era desorganizado. Sempre perdia suas meias, deixando pares incompletos nas gavetas. Tudo era limpo, por causa das manias de sua mãe. Os vidros sempre polidos, os vestidos sempre comportados. O espelho às vezes lhe convencia de que devia perder peso e ela fazia dietas que duravam três dias. O hábito de perder canetas a fizera comprar, no inicio do ano, uma caixa cheia delas. Pretas, azuis e vermelhas. De tanto que escrevia, sempre ficava com as mãos sujas de tintas. Evitava o computador para escrever textos, memórias e poesias.
O mundo dela era cor-de-rosa, desde a caixa de música que conservara nos últimos doze anos até as nuvens que, vem em quando, coloria mentalmente. Diante dos problemas, ela sorria, jogava o jogo do contente bem antes de ter lido Pollyanna. Eram as coisas simples e boas da vida que lhe agradavam, as fotografias dos livros, Havaí, Bali, Taiti, Fiji. Fazia planos loucos de fugir para Fortaleza pedindo carona na estrada, ou ir até o Chile pisar no Oceano Pacífico.
O mundo dela eram revistas. Quadrinhos, celebridades, cabelos, tinturas, propagandas. Ela até gostava de querer coisas que não precisava e qua nunca iria comprar com o dinheiro que nunca ia ter. Porque os sonhos que possuem alguma chance concreta de se realizarem possuem as mesmas chances concretas de desmoronarem. Então era folhear e imaginar, sem a menor obrigação de acontecer.
O mundo dela eram luzes. Baladas, músicas, violões, luaus, ritmo, dança, magia, fumaça. Ouvia cantadas só pra se convencer que era bonita, ou ao menos que as longas horas de produção, cabelo e maquiagem a faziam se destacar. Não que gostasse tanto assim do holofote, a superioridade nunca havia sido sua ambição. Mas ela bem que precisava de gente lhe dizendo que ela era linda.
O mundo de
la eram passagens. Ida e volta para uns lugares. Só de ida para outros. Ritos de passagem, escova no cabelo, roupas passadas, passeios despretensiosos pela chuva. Passeio riscado com lasca de tijolo, infância que ainda permanecia, mesmo que em detalhes, apesar dos dezesseis anos que completara. Para a garota, não era preciso muito pra ser feliz. No ano anterior, trocara a festa de quinze anos por uma viagem de fim de ano. Fizera bonecos de neve e caíra do esqui. Nunca dormia de madrugada nas viagens de carro, observava as árvores, montanhas, o mundo amanhecendo. Fazia pegadas na areia porque gostava de ver como eram levadas pelas ondas.O mundo dela eram memórias. Diários, adesivos, melhores amigas, brigas bobas, provas de geografia. CDs de ídolos da infância que de vez em quando rodavam em seu microsystem. Coreografias em frente ao espelho, confissões, choros e amores imensuravelmente platônicos. Professores problemáticos, grafites e aquela calça jeans maravilhosa que já não lhe servia. Já é uma mocinha, segundo os avós do interior. Mocinha-menina. Menina travessa, menina despenteada, menina inocente, menina atrevida, menina magrela, menina-moça, menina linda, menina insinuante.
O mundo dela girava numa rotina agradável, como o sol das 4 da tarde na volta da aula de inglês. Mas quando conversava escondido com ele, quem girava era o seu coração, que ela não costumava usar muito. Racional, ela já tinha esquecido como é pensar com o coração...
Era sobre nada que conversavam. Vez ou outra sobre o tempo. Chovia aqui, calor ali. Trocavam links, músicas, blogs. Um dia até trocaram telefone, mas nunca tiveram coragem de quebrar o encanto virtual daquela relação. Ela falava dos amigos, amores, ficadas, ele brincava insinuando um ciúme. Ele chorava ainda as cicatrizes de uma ex-namorada que só agora estavam se fechando. Eram, além de tudo, amigos, embora nunca houvessem se identificado assim. Eram diferentes, opostos. Ele, humano, artista, emotivo, metafísico, sensível. Ela, pragmática, científica, correta, sistemática, racional. Discutiam sobre a vida, o universo e tudo mais. Discutiam sobre os dois também. Como se casariam, criariam filhos e cachorros. Brincar de inventar amores e famílias, passatempo. Uma vez escreveram cartas, que encheram de alegrias os olhos dos dois ao ler a letra do outro entre as correspondências e contas. Já tinha um ano que se conheciam. Até mais um pouco. Por uns dois meses no último semestre se afastaram sabe-se-lá por que. É o dia-a-dia. Como era estranho ter saudade de uma fonte. De uma letra simples de computador. De uma cor, de uma janela virtual piscando. Como era bom passar madrugadas discutindo culinária e moda. Despretensiosamente, apaixonaram-se. Ele antes, como de costume. Ela, sem querer.
You already waited up for hours
Just to spend a little time alone with me,
And I can say I've never bought you flowers
I can't work out what they mean,
I never thought that I'd love someone,
That was someone else's dream.
'Cause you give me something
That makes me scared, alright,
This could be nothing
But I'm willing to give it a try,
Please give me something,
'Cause someday I might call you from my heart,
But it might be a second too late,
And the words I could never say
Gonna come out anyway.
5 comentários:
Ontem mesmo eu estava falando de como seus textos são fluidos, de como cada palavra amarra a próxima num ritmo que segue em todod decorrer...Vc conta histórias como ninguém...e com uma sensibilidade caractereística às vezes triste, mas sempre leve de uma beleza incrível!
sabe quando vc não tem nada pra fazer e vai clicando de link em link para ver se acha alguma coisa interessante? E de repente vc não só acha uma coisa interessante, com é também exatamente o que vc queria (e precisava) ler naquele momento? Pois é...
Oi Otávio,
Não sabe como fiquei feliz com sua visita. Sou sua fã; sério, mesmo.
Acho seus textos uma verdadeira delícia de ler. Cada detalhe, a delicadeza, uma verdade cotidiana, identificação. Vc é um artista!
Falamos sobre coisas similares nos textos, sim. Espelhos, carros, o tempo - a falta e o excesso dele- analogias, paradoxos e ficção ("Vc dirige um automóvel e eu lhe dirijo argumentos"). Mas acima de tudo, o encanto pelas relações. O fator humano mais genuinamente ímpar.
Pena, apenas, (aliteração forçadíssima, rs) que vc demora muito entre um docinho dos deuses e outro.
Um beijo e obrigada pelas palavras.
Elga
Eu acho que te odeio, Tatá!!!
Com a mais incomensurável admiração!
OBS: De vez em quando a minha vida é a dele. De vez em quando a minha vida é a dela.
Olha Otávio, ainda não conhecia seu blog, estou impressionada em como você escreve bem.
Irei pousar por aqui mais e mais vezes....
"Despretensiosamente, apaixonaram-se. Ele antes, como de costume. Ela, sem querer."
E quando uma pessoa sempre se apaixona sem querer como de costume...rsrs.. eu!!!
Adorei!!!
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