S
uzana desligou o celular. Já não agüentava mais receber as ligações de Caio. Às vezes era mais fácil atender do que inventar uma desculpa qualquer depois. Mas não naquele dia. Não depois da chuva que estragara seu cabelo e toda a sua semana desde aquela segunda. "A culpa é sempre dos outros", ela se repetia. E agora a vida era aquela, aquele momento. O carro na oficina e a tarde já lhe transbordando pela boca. Reuniões, trabalhos, tenho encontro com o orientador, ah, meu deus, a tese... Tudo se torna um pouco pior às seis da tarde. Táxi ou ônibus? Não importa, o engarrafamento é o mesmo. O metrô, nem pensar. E de repente, saindo da Confeitaria Pasión, guardando a alegria pra duas horas mais tarde, teve um relance, uma visão simples, três fraçoes de quase um segundo. Não podia ser... Era ela, Rita, do outro lado da rua.A primeira reação de Suzana foi negar. Detestava memória. O importante é o presente, aprendera em livros de auto-ajuda após oito anos de terapia. Nostalgia lhe chateava, lugar de coisa velha é baú. Mas era mesmo Rita, sua melhor amiga dos 8 aos 18. E após 15 anos, estava ali, a poucos metros, do outro lado da avenida engarrafada. Suzana até que tentou chamar a atenção da outra mulher. Está bonita, a diaba, pensou ela. Os cabelos encaracolados e escuros da adolescente Rita eram agora lisos e claros. Será que é ela mesmo?
E então Rita entrou no táxi. O sinal abriu e o trânsito correu. O passado foi todo embora junto com aquele Golf branco. Não era isso que ela queria? PEnsar no presente? Mas que droga de vida, hem, dona Suzana... Pra que pensar no presente quando o presente é de grego?
E a chance tinha se esvaído tão rápido... A chance de voltar aos 18 anos. A um tempo de músicas, de festas, de namoros bobos, de romances impossíveis e crônicos. Tudo isso tinha sido antes de ela aprender que nada é pra sempre. Nem a melhor amiga.
Nem a Rita que lhe tinha sido tão dedicada durante seu primeiro ano na escola nova. A Rita que lhe ajudara com o primeiro amor, que estava lá no primeiro beijo, que soube primeiro da primeira menstruação. A Rita com quem brigara aos 12 anos por causa de cartas de amor não-enviadas para o Ricardinho. A mesma que a acompanhara no enterro de sua avó e que lhe apresentara o Guga. A Rita que tinha ciúmes de seus namorados e pegava suas roupas emprestadas. Aquela com quem compartilhava dietas que nunca davam certo, simpatias criativas, testes de revista. A que tinha chorado ao seu lado ao saber da separação dos pais, ao saber que ia ter que usar óculos, ao saber da nota da prova de química. A que grava fitas cassete com as músicas preferidas para dar a ela no aniversário. Aquela com quem uma vez tinha assistido um filme pornô roubado do irmão mais velho. A que sempre sabia tudo sobre o que ia acontecer na novela, a que chorou quando o Lauro Corona morreu e que amava a música dele com a Glória Pires.Como é que deixara escapar a oportunidade de reencontrar a menina que chorava em seu ombro ao ser rejeitada várias vezes pelo mesmo homem? A melhor amiga, para a qual contou sua primeira, segunda e terceira vez? Aquela que era quase uma irmã, uma filha para sua mãe. A que mudara de colégio e voltara no ano seguinte só para continuarem sentando uma na frente da outra? A Rita com quem fora em tantos shows, para quem confidenciara tantos segredos? A Ritinha, Ritoca, Risonha, Rizuda, Irrita, Ritardada, Rita Cadillac, Rita Frita, Rirrrí, Ri, amiiiiiigaaaaaa...
Entre botas, papéis de carta, figurinhas de balas com mensagens românticas, entre fotografias de galãs de novelas, livros, conselhos, entre um namoro e outro, entre uma noite e outra... A Rita que vivia nesses momentos era sim, a única melhor amiga que ela já tinha tido na vida... A Rita que nunca mais tinha visto depois que passou numa universidade de outro estado. A Rita para quem escrevera cartas freqüentes, esparsas, raras, ausentes... A Rita de quem nunca imaginaria que pudesse viver longe. Já não tinha graça viver alegrias se não era possível contar no dia seguinte para Rita e vê-la sorrir e lhe chamar "Vagabunda safada do meu coraçãããão!!!". A Rita que já nem conhecia mais.
Depois, conhecera a Pri, a Vanessa, a Rose, a Renata Castanheira, a Renata Vargas, a Letícia, a Xuxa, a Pati, a Kaká, a Silvinha, a Eduarda... Depois, viera José Carlos por um ano, Matheus por três, Pedro entre um e outro e algumas outras vezes, e finalmente Rogério. E o pequeno Thiago. E o cachorro. E o hamster. E outro cachorro. E o dinheiro, a casa, o carro. E nunca mais de Rita...
- Rizoca, que roupa que você vai usar no dia do meu casamento?
- Sei lá, Suzi!
- Tem que saber! Você vai tirar foto comigo, mulher!
- Isso se você me convidar né!
- Até parece, Rita! Você só não vai se não quiser. E se não for, pode se desconsiderar minha melhor amiga.
- Se você casar com aquele Augusto eu não vou mesmo.
- Tá loca?
- Então veremos...
- ...
- ...
- Rita.
- Que foi, Suzana.
- Me empresta sua saia amanhã?
- Ah, não, Su... eu ia usar ela...
- Você nunca usa... Só porque eu pedi...
- Que droga, Suzana! Só porque você fica melhor com ela né...
- Sua vaca!
- Vadia!
- Cadela!
- Piranha!
- Elefanta gorda!
- Girafa assassina!
Agora eu era o herói
e o meu cavalo só falava inglês
A noiva do caubói era você
além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
os alemães e os seus canhões
Guardava o meu bodoque,
ensaiava um rock para as matinês
Agora eu era o rei
era o bedel e era também juíz
e pela minha lei,
a gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
era tão linda de se admirar
que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu peão
o seu bicho preferido
Vem, me dê a mãe
e a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade, acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
que o faz de conta terminasse assim
Pra lá desse quinta,
em uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu do mundo sem me avisar
e agora eu era um louco a perguntar
"O que é que a vida vai fazer de mim?"
Bonus: http://br.youtube.com/watch?v=gCk3Txe7I8s
3 comentários:
nossa mesmo assim desencontrando...e se encontrando por aqui. Desde de mto tempo eu já adquiri essa rotina de visitar seu blog num vício que não tem fim. E hj esta postagem tá sensá. Sae como? E quando vc for o famoso Otávio, num esquece que estarei entre as fãs mais assíduas e antigas...
O texto tá mtooo bom mesmo!
Rsrs!
Otávio, como é que você consegue saber dessas coisas?!
Nem eu sei. Nunca fui de ter melhores amigas, de trocar roupas e chamar de piranha!
No máximo de Vaqueiras!!hehe
Mas acho incrível como você conseguiu traduzir esse universo em seu texto e fazer os anos passarem numa única frase.
E ainda colocou o Chico...
Eu não tive uma melhor amiga de infância (a gente se mudava tanto!), mas tive um irmão amigo de infância que cresceu em mais de uma frase e agora virou um poeta. Porque pode até ser que sejam contos, crônicas, posts... Mas sem poesia, seriam apenas palavras...
Beijo.Saudades.
Adorei, pra variar.
Muito bom, mesmo.
Não dá para fazer uma trilogia, como sua irmã fez?
Vc é muito bom!!!
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