O navio sobre a estante
Desdobravam-se em mil para pagar as contas em dia, mas não se deseperaram quando não sobrava Era assim há quarenta anos, desde que se casaram numa noite de julho de um ano incomum. Criaram um, dois, três, quatro, cinco, entre um aperto e outro, colecionando fases difíceis, alegrias e lutas. Muitas vezes, os pães eram contados nas moedas achadas pela casa. Mas eram incontáveis as marcas deixadas em quem cruzava o caminho daquela família.
Foram centenas de vidas especialmente tocadas por aqueles que sempre haviam sido o exemplo. Dela, a atenção, a palavra, o amparo, a atitude sempre solícita, preocupada, artística e bondosa. Dele, as soluções, a criatividade, a carona e o senso prático peculiar. Nunca deixaram de discutir, mas jamais ignoraram o fato de que se completavam. E sabiam, acima de tudo, que só poderiam ser família se estivessem juntos, ainda que espalhados pelo mapa.
Nas vilas, ruas, e prédios, fizeram milagres iluminados em enfeites de natal. Nas gavetas, contavam história em discos de vinil nas manhãs de sábado, nos álbuns de fotografias de gente que a gente nem se lembra mais, nos casos da meia-noite quando faltava luz, nas cantigas que viraram nostalgia, no cheiro das flores e do lustra-móveis na madeira da sala, no navio empoeirado sobre a estante que enfrentava mares imaginários e nas longas viagens de carro de madrugada.
Não mandaram nenhum filho para o exterior, mas lhe ofereceram estantes cheias de livros para que eles pudessem criar seus próprios roteiros de viagem e sonhar com o que havia além do portão. Não tiraram férias na praia, mas conheceram grutas iluminadas e manhãs de sol nascente na beira da estrada. Não frequentaram clubes, mas inventavam motivos para festas que ninguém mais poderia compreender. Arrependeram-se por ignorar o que poderia ter sido, mas sabem que o que importa é que foi, o que é e o que será.
Em qualquer cidade, a qualquer distância, sempre seriam, ele e ela, capitães do navio sobre a estante. Nessa viagem, não há tempo ou espaço para o medo do oceano turvo da pintura na parede. Desdobravam-se em mil para pagar as contas em dia, com a consciência tranquila e o sentimento de que não há dinheiro que compre uma família.
Post dedicado aos meus pais pelo apoio e amor incondicionais na eterna viagem da vida.
Então o vento lá dentro da serra,
onde apenas havia o barulho insensato
das coisas sem nome
começou a bater (a bater, a bater)
a bater rataplã (rataplã, rataplã)
no tambor da manhã.
Então os ecos saíram das grutas
levando a notícia por todos os lados.
Então as palmeiras ao fogo do dia,
em verde tumulto, pareciam marchar
carregando bandeiras.
Depois veio a Noite
e os morros soturnos
levavam estrelas
por vales e rochas
como uma silente
corrida de tochas...
onde apenas havia o barulho insensato
das coisas sem nome
começou a bater (a bater, a bater)
a bater rataplã (rataplã, rataplã)
no tambor da manhã.
Então os ecos saíram das grutas
levando a notícia por todos os lados.
Então as palmeiras ao fogo do dia,
em verde tumulto, pareciam marchar
carregando bandeiras.
Depois veio a Noite
e os morros soturnos
levavam estrelas
por vales e rochas
como uma silente
corrida de tochas...
levavam estrelas, levavam estrelas
por vales e rochas, por vales e rochas...

6 comentários:
Que lindo, Otavio!
Você é o orgulho do ChampClub... =)
Muito lindo mesmo. Não é todo mundo que pode dizer o quanto tem orgulho dos pais. Nem todos os pais do mundo são maravilhosos; nem todos os filhos percebem o quanto eles já lutaram na vida.
Beijos.
Ahhh Otavio!!
Muito, muito lindo!!
Como já disse a Savini, vc é o orgulho do Champclub!
ai, gente...
Otávio, EU NÃO POSSO CHORAR NO TRABALHO, PARE DE FAZER TEXTOS CADA VEZ MAIS LINDOS!!!!
Mentira, não pare nunca.
Lindo!
Sereno!
Aconchegante!
Como deveria ser um post de homenagem aos pais.
Parabéns!
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