21 de fev. de 2011

092: Conto Trinta e Sete - 21-01-11

War
ou Conquistar um território à sua escolha

- Macadâmia do Bavarian - disse a menina, ao telefone.
- É mesmo? - disparou a rir o rapaz, do lado de cá.
- Que foi?
- Tô achando engraçado. Não esperava isso.
- Mas por que não? Achei que fosse normal. Você escuta uma palavra, um nome, e vê a cor dela, sente o cheiro, tudo isso. O seu nome tem esse gosto.

O sofá verde virou nuvem e amorteceu a queda livre de Fernando. Do outro lado da linha, Sabrina sentia culpa e espanto enquanto disfarçava o desespero de não saber mais o que dizer com a sugestão de um assunto qualquer. Não tinha mais estratégias. O moço já não estava escutando, respondia monossilábico, sem conseguir lidar com o que havia acabado de cruzar a sua mente: precisava urgentemente encontrar defeitos nela antes que, fatalmente, só pudesse enxergar as qualidades.

Era muito fácil conversar pelo telefone sobre tudo o que não conseguiam falar nos intervalos das aulas. Emendavam tardes com as noites e passavam pelas três novelas do dia ligados, com o aparelho no ouvido. A primeira vez tinha acontecido por acaso, quando ela ligou para o número indicado na lista de contatos da turma para falar sobre o trabalho de Física Básica Experimental II. Nem bem esperou a ligação ser atendida e disparou a praguejar sobre prazos não cumpridos, falta de compromisso e desorganização. Era o Fernando errado.

- Acho que você tá confundindo. Aqui é o Fernando Vilela, e não o Correa.

Depois da tortura de ouvir silêncio por quatro segundos, equanto procurava um buraco para se esconder para sempre, Sabrina se armou de sanidade e pediu desculpas pelo engano. Os dois nem se lembravam mais como haviam superado o constrangimento do primeiro contato telefônico, mas já não conseguiam mais sobreviver às tardes de quarta-feira sem discar os números que já sabiam de cor. Na maior parte do tempo, discutiam.

- Telefone é coisa antiga, tipo papel de carta - ela disse, sugerindo que transferissem o papo para a internet. Mas falar pelo celular era o meio-termo adequado para o novo desafio que Fernando se forçava a enfrentar: era o nível de exposição certo entre a impessoalidade das letras piscando na tela e a tremenda agonia do contato físico.
- Ah, para! Você não tem nada melhor pra fazer agora. Eu tenho bônus para falar de graça e não tenho com quem gastar - justificou ele, com uma mentira - e eu gosto do seu sotaque - completou, com uma verdade.

Era a repulsa pela superficialidade das mentes dos colegas que os aproximavam mais ao caminharem pelo prédio de Ciências Exatas. Fernando havia se transferido recentemente do turno da noite para a manhã, e não tinha muitos amigos. Provavelmente, o telefonema enganado tinha sido sua primeira conversa de verdade com alguém da sala, descontadas as perguntas e respostas corriqueiras sobre o calor e a prova de álgebra linear. A Sabrina não faltavam companhia. Era rodeada das três outras garotas da sala e por meia dúzia de garotos cínicos da engenharia com quem ela havia ensaiado amizades durante o colégio.

Ela era uma personagem de filme. Sabrina, 18 anos, 1,68m, cabelos castanhos, gosta de fazer cookies de nozes, usar roupas confortáveis, tomar capuccino, assistir filmes do Chabrol e, ao andar pelo corredor, a trilha sonora é uma instrumental de acordeões do Amélie Poulain. Foi aos poucos, entre uma puxada no S e outra que Fernando descobriu nela uma pessoa de verdade. Era do Rio, mas tinha vindo estudar em São Paulo para fugir da proposta de casamento do Rubinho, um namorado apaixonado demais. Não gostava de gente apaixonada demais porque não gostava de se apaixonar demais. Irritava-lhe parecer vulnerável, e por isso às vezes gostava de fazer de conta que era durona.

Fernando brincava de identificar as entrelinhas de Sabrina enquanto conversavam. Perdia o tempo das respostas ao analisar o tom de voz e o jeito como ela ia perdendo o sotaque de atriz de novela. Gostava de imaginar que ela sabia que o jeito distraído dele era proposital. O jogo era, para ele, uma tentativa de se livrar de certas cismas e complexos que tinha consigo mesmo. A conta do telefone era, afinal, mais barata que a do terapeuta. Ela provocava, sugeria interpretações para as próprias falas ambíguas, mas era cuidadosa demais para deixar escapar qualquer traço de fraqueza.

- Se chover, não tem problema. Sou ótima pra jogar War - ela se gabou uma certa quarta-feira enquanto falavam de um fim de semana que nunca chegava, que passariam em uma praia com o resto do pessoal.
- Eu não duvido, você é boa em estratégias - Fernando forçava as metáforas.

Dois dias depois de serem tomados pela consciência de que estavam num caminho sem volta, o telefone parou de tocar. Ele não queria mais jogar War com o irmão mais novo. Ela não queria mais passar pela barraca de castanhas do shopping. Apareceram as provas do final do semestre, uma vaga possibilidade de voltar para o Rio (e para o Rubinho?), uma mudança de operadora que fez Fernando perder os bônus para falar de graça, ou um simples receio de levar adiante o jogo de estratégias. Em uma guerra, todo mundo perde.

Eu olho, você nada
Continua parada ali
Toda vez que eu te vejo
É como na primeira que eu vi

Mas eu chego e você parte
Eu Terra e você Marte, Aliás
Você ser carioca
Será que me provoca demais?

Eu desço e você salta
Só aqueço e já me falta o ar
Eu farol, você sinal
Eu doce, você de sal
Que par!

Você diz "tu", eu "você"
Você diz: "nu!", eu "por que? Nem vem..."
Você Zona Sul, ferver
E eu pensando se eu vou ser alguém


Aqui selva de pedra
Calor chamam de brega e hell
Aí verão eterno
Também chamam de inferno ou céu

Você pires, eu prato
Você joga e eu cato pra mim
Eu vergonha na cara
Você na Guanabara e fim


Quando você sorriu
Me repartiu em antes e depois
Hoje eu me rendo, Rio
Mil novecentos e trinta e dois






Você, tão linda
Leva ao fim da guerra da serra com o mar
Só esse teu olhar
Pra que eu me pegue alegre de me entregar

4 comentários:

Francine Ribeiro disse...

nossa, que triste!
acho que depois que entrei no caminho sem volta (e lá se vão três anos...e foi rápido, nem deu muito tempo de pensar..), acredito que as histórias de amor podem ser reais. Que sempre vale a pena investir nelas.

boa semana

Luciana disse...

eu acho que sempre vale a pena se soltar. no seu caso, deu muito certo. parabéns, tatá :D

- e foi mal pela cara de pau de comentar com vc do lado.

Ana disse...

Estava com saudades dos seus textos.

Ana disse...

Estou com saudades do seu blog. Favor atualizar. Grata