Antologia
Na sétima vez em que João Henrique se apaixonou por Cíntia, era difícil não perceber os movimentos sutis, aparentemente simples e deliciosamente maliciosos do pescoço da menina, que estava sentada com as pernas cruzadas sobre o lençol cor-de-rosa. Pelo menos naquela vez - e em todas as outras, depois daquela - ele não havia sido pego completamente desprevenido. Por causa daquela doce consciência, conseguiria, mesmo quase quinze anos depois, lembrar-se do momento exato em que se encontrou caindo inevitavelmente no abismo que sempre tinha sido o amor de montanha-russa dos dois, e contá-lo em forma de prosa poética.
Enquanto ela se contorcia com a elegância de um cisne para pintar as unhas do pé esquerdo de uma cor entre o azul escuro e a melancolia, a música da Natalie Imbruglia preenchia a tela da televisão de quatorze polegadas sobre a escrivaninha e cada centímetro cúbico da lembrança de João Henrique. O quarto era, assim ele se recordava, um resultado inusitado dos papéis de parede com motivos frescos e românticos em consonância com os lençóis claros e o cachorro de pelúcia deitado no chão com a foto do Kurt Cobain no pôster pregado na parede. Aos dezesseis anos, ela era uma busca, como eram e sempre serão as mais sensatas meninas de sua idade. Constantemente, tentava se desvencilhar do rosto de anjo, disfarçando os olhos verde-água com óculos de armações grossas. Sobre as pernas, que ainda aprendiam a fazer parte de um corpo de mulher, usava calças largas ou saias escocesas masculinas. Pretendia, ao mesmo tempo, se desvanecer e se destacar na multidão com as botas pretas de cadarço. Achava-se - ou sonhava em ser - parecida com o Axl Rose. Mas João já havia notado, desde o princípio, sua semelhança com a Clare de Barrados no Baile.
O perfume do quarto era doce e, em uma quase-harmonia com o cheiro de esmalte e acetona, deixava João inebriado, enquanto ele dedilhava notas distraídas ao violão, sentado na cadeira, diante da cama em que estava sua namorada. Cíntia cantarolava baixo a música do videoclipe, acompanhando os vocais dramáticos de Liam Gallagher. João ensaiou se aproximar e desenhar com canetinha sóis e árvores na perna esticada da moça, pretendendo ter com ela qualquer futuro que sua disposição lhe permitisse. Poderiam ter cruzado o país de moto, fugindo das verdades e das obrigações, ou poderiam ter envelhecido juntos em uma casa na montanha, ouvindo para sempre os mesmos dez CDs. Poderiam ter sido qualquer coisa, juntos, a partir daquele momento.
Quando o videoclipe acabou e entraram os comerciais, Cíntia olhou para João, reconhecendo nele o olhar atencioso, analítico e inconsciente que têm os escritores. Sorriu, tranquila, e inclinou a cabeça, voltando a prestar uma atenção cirúrgica às unhas do pé. Ela tinha certeza que teria, para sempre, controle sobre a vida do rapaz. Tinha orgulho e medo de ter sido quase sempre a primeira e, mais do que isso, o definitivo padrão de comparação. Qualquer outra paixão que a vida oferecesse ao garoto seria melhor ou pior que ela. Nunca igual. Era doloroso, para ele, perceber que Cíntia não pensava em estar ao seu lado quando outros verões se descortinassem sobre sua vida ao final da adolescência, no início da adultice e em qualquer outro vislumbre de maturidade que ele alcançasse. Ela simplesmente não se dedicava a fantasiar qualquer segundo que não fosse o presente. E ele não podia culpá-la por ser tão impetuosa e dramaticamente espontânea.
Era porque se completavam. João era bom nos planos, nas decisões precisas e nos planejamentos racionais, embora acreditasse, naquela época, ser guiado pelo coração. O rapaz era como os planos que se faz de dia, com pesos e medidas, com hora marcada e dinheiro guardado. Do outro lado da ciranda, Cíntia era impulso, momento, explosão, como os desejos da noite, que quase sempre ignoram os protocolos e as receitas. Ela era alças escorregadas, partes indecentes de um corpo alvo, visíveis entre os vãos do algodão azul. Aquilo era algo tão sagrado que João Henrique se punia quando se flagrava pensando nos centímetros proibidos do paraíso de Cíntia, mesmo depois de meses de intimidades trocadas. Era perigoso olhar para ela à luz do dia, embora ele se deliciasse com a maneira com que ela inconscientemente (ou não) desafiava os limites de seu juízo nos movimentos das pernas e dos ombros.
No violão, João tocou baixo três acordes fáceis, em sequência. Cíntia olhou para ele e sorriu, reconhecendo a música e cantarolando em espanhol alguns trechinhos de sua canção preferida.
- Sobra tanto dentro de este corazón...
Fingindo distração, ele continuou a dedilhar a música, sem se importar com o som imponente das guitarras do videoclipe da Alanis Morissette. Jamais poderia contar para Cíntia que só havia aprendido a tocar violão para acompanhar as músicas preferidas da moça.
- Y conoci más de mil formas de besar... y fué por ti que descobri lo que és amar
João sorriu com o segredo e soube que a amava. Profundamente, singelamente, dolorosamente. De uma maneira inevitavelmente diferente da que amou quando a flagrou pela primeira vez olhando para trás na primeira aula depois do recreio, na terceira série. De um jeito mais maduro do que o que sentiu durante o longo abraço que ela lhe deu no seu aniversário de 11 anos. Com mais consistência do que quando fingiu para ela, naquela festa à fantasia, que aquele não tinha sido o seu primeiro beijo, mesmo com a noção de que ela sabia que também seria, para sempre, dona daquela memória.
Amava-a melhor do que quando a viu escorrer pelos dedos com a mesma facilidade com que havia se aproximado, ao se envolverem nas intrigas obrigatórias da sétima série. Sentia-a a mais perto e mais longe do que quando ouviu dela, pela primeira vez, um 'eu te amo', sem poder acreditar na verdade por trás do batom vermelho-vinho. Era mais senhor e escravo daquele sentimento do que quando, também pela primeira vez, afogara-se na existência dela, sob o torpor do álcool, naquela aventura que durara apenas o tempo necessário para ficar permanentemente gravada nas curtas trajetórias de vidas de ambos.
Eram, os dois, feitos para se encontrarem e para se perderem. Como o que, fatalmente, aconteceria meses depois daquela tarde no quarto de Cíntia. Primeiro, ela se mudou de colégio. Depois, de país. Depois, ele ouviu falar dela da boca de algum conhecido.
- Aquela lá ficou doidona. Largou a faculdade pra ir morar numa comunidade hippie.
Anos depois, esbarraram-se. Ela, ruiva, ele, universitário, em um show do Iron Maiden, bem no meio de Rime of the Ancient Mariner. Despreparados para o encontro, marcaram de sair, trocaram emails, adicionaram-se em redes sociais e tornaram-se pequenas fotos na tela de computador. Cíntia e João Henrique, que se entendiam na troca de olhares, nunca mais conseguiram ter outro assunto.
- Um dia a gente marca. Tem visto o pessoal?
- Só o Augusto. Lembra dele?
- Ih... acho que não... era aquele loiro?
- Não, o gordinho, de óculos...
- Aquele fã do Aerosmith?
- Esse era o Claudinho...
- É mesmo... Cara, mas um dia a gente marca. Tô com saudades de você, você sabe...
Cíntia, que não planejava o futuro, tinha se casado e se separado. Conheceu São Thomé das Letras, Londres, Amsterdã, Bratislava, Cairo e Mumbai. Era, agora, artista plástica, enquanto sua mãe criava seu filho pequeno. De tanto prestar atenção nela e de imaginar como teria sido (privilégio? desapontamento?) passar com ao seu lado todos os anos que separavam sua realidade daquela vez em que haviam se apaixonado de novo sobre os lençóis cor-de-rosa, João Henrique não tinha conseguido encontrar outra saída: virara escritor. Ainda hoje, qualquer frase que ele escrevia era sobre uma mistura de todas as mulheres de sua vida, que quase sempre tinham o rosto de Cíntia. Ela tinha sido, para sempre, dona de seu destino. E o tempo nem precisaria ter se desdobrado e se rabiscado em outros quatorze calendários para que ele pudesse saber. Bastou concluir, naquela tarde de 1998, em que ele se entregou pela sétima vez.
Na sétima vez em que João Henrique se apaixonou por Cíntia, era difícil não perceber os movimentos sutis, aparentemente simples e deliciosamente maliciosos do pescoço da menina, que estava sentada com as pernas cruzadas sobre o lençol cor-de-rosa. Pelo menos naquela vez - e em todas as outras, depois daquela - ele não havia sido pego completamente desprevenido. Por causa daquela doce consciência, conseguiria, mesmo quase quinze anos depois, lembrar-se do momento exato em que se encontrou caindo inevitavelmente no abismo que sempre tinha sido o amor de montanha-russa dos dois, e contá-lo em forma de prosa poética.
Enquanto ela se contorcia com a elegância de um cisne para pintar as unhas do pé esquerdo de uma cor entre o azul escuro e a melancolia, a música da Natalie Imbruglia preenchia a tela da televisão de quatorze polegadas sobre a escrivaninha e cada centímetro cúbico da lembrança de João Henrique. O quarto era, assim ele se recordava, um resultado inusitado dos papéis de parede com motivos frescos e românticos em consonância com os lençóis claros e o cachorro de pelúcia deitado no chão com a foto do Kurt Cobain no pôster pregado na parede. Aos dezesseis anos, ela era uma busca, como eram e sempre serão as mais sensatas meninas de sua idade. Constantemente, tentava se desvencilhar do rosto de anjo, disfarçando os olhos verde-água com óculos de armações grossas. Sobre as pernas, que ainda aprendiam a fazer parte de um corpo de mulher, usava calças largas ou saias escocesas masculinas. Pretendia, ao mesmo tempo, se desvanecer e se destacar na multidão com as botas pretas de cadarço. Achava-se - ou sonhava em ser - parecida com o Axl Rose. Mas João já havia notado, desde o princípio, sua semelhança com a Clare de Barrados no Baile.
O perfume do quarto era doce e, em uma quase-harmonia com o cheiro de esmalte e acetona, deixava João inebriado, enquanto ele dedilhava notas distraídas ao violão, sentado na cadeira, diante da cama em que estava sua namorada. Cíntia cantarolava baixo a música do videoclipe, acompanhando os vocais dramáticos de Liam Gallagher. João ensaiou se aproximar e desenhar com canetinha sóis e árvores na perna esticada da moça, pretendendo ter com ela qualquer futuro que sua disposição lhe permitisse. Poderiam ter cruzado o país de moto, fugindo das verdades e das obrigações, ou poderiam ter envelhecido juntos em uma casa na montanha, ouvindo para sempre os mesmos dez CDs. Poderiam ter sido qualquer coisa, juntos, a partir daquele momento.
Quando o videoclipe acabou e entraram os comerciais, Cíntia olhou para João, reconhecendo nele o olhar atencioso, analítico e inconsciente que têm os escritores. Sorriu, tranquila, e inclinou a cabeça, voltando a prestar uma atenção cirúrgica às unhas do pé. Ela tinha certeza que teria, para sempre, controle sobre a vida do rapaz. Tinha orgulho e medo de ter sido quase sempre a primeira e, mais do que isso, o definitivo padrão de comparação. Qualquer outra paixão que a vida oferecesse ao garoto seria melhor ou pior que ela. Nunca igual. Era doloroso, para ele, perceber que Cíntia não pensava em estar ao seu lado quando outros verões se descortinassem sobre sua vida ao final da adolescência, no início da adultice e em qualquer outro vislumbre de maturidade que ele alcançasse. Ela simplesmente não se dedicava a fantasiar qualquer segundo que não fosse o presente. E ele não podia culpá-la por ser tão impetuosa e dramaticamente espontânea.
Era porque se completavam. João era bom nos planos, nas decisões precisas e nos planejamentos racionais, embora acreditasse, naquela época, ser guiado pelo coração. O rapaz era como os planos que se faz de dia, com pesos e medidas, com hora marcada e dinheiro guardado. Do outro lado da ciranda, Cíntia era impulso, momento, explosão, como os desejos da noite, que quase sempre ignoram os protocolos e as receitas. Ela era alças escorregadas, partes indecentes de um corpo alvo, visíveis entre os vãos do algodão azul. Aquilo era algo tão sagrado que João Henrique se punia quando se flagrava pensando nos centímetros proibidos do paraíso de Cíntia, mesmo depois de meses de intimidades trocadas. Era perigoso olhar para ela à luz do dia, embora ele se deliciasse com a maneira com que ela inconscientemente (ou não) desafiava os limites de seu juízo nos movimentos das pernas e dos ombros. No violão, João tocou baixo três acordes fáceis, em sequência. Cíntia olhou para ele e sorriu, reconhecendo a música e cantarolando em espanhol alguns trechinhos de sua canção preferida.
- Sobra tanto dentro de este corazón...
Fingindo distração, ele continuou a dedilhar a música, sem se importar com o som imponente das guitarras do videoclipe da Alanis Morissette. Jamais poderia contar para Cíntia que só havia aprendido a tocar violão para acompanhar as músicas preferidas da moça.
- Y conoci más de mil formas de besar... y fué por ti que descobri lo que és amar
João sorriu com o segredo e soube que a amava. Profundamente, singelamente, dolorosamente. De uma maneira inevitavelmente diferente da que amou quando a flagrou pela primeira vez olhando para trás na primeira aula depois do recreio, na terceira série. De um jeito mais maduro do que o que sentiu durante o longo abraço que ela lhe deu no seu aniversário de 11 anos. Com mais consistência do que quando fingiu para ela, naquela festa à fantasia, que aquele não tinha sido o seu primeiro beijo, mesmo com a noção de que ela sabia que também seria, para sempre, dona daquela memória.
Amava-a melhor do que quando a viu escorrer pelos dedos com a mesma facilidade com que havia se aproximado, ao se envolverem nas intrigas obrigatórias da sétima série. Sentia-a a mais perto e mais longe do que quando ouviu dela, pela primeira vez, um 'eu te amo', sem poder acreditar na verdade por trás do batom vermelho-vinho. Era mais senhor e escravo daquele sentimento do que quando, também pela primeira vez, afogara-se na existência dela, sob o torpor do álcool, naquela aventura que durara apenas o tempo necessário para ficar permanentemente gravada nas curtas trajetórias de vidas de ambos.
Eram, os dois, feitos para se encontrarem e para se perderem. Como o que, fatalmente, aconteceria meses depois daquela tarde no quarto de Cíntia. Primeiro, ela se mudou de colégio. Depois, de país. Depois, ele ouviu falar dela da boca de algum conhecido.
- Aquela lá ficou doidona. Largou a faculdade pra ir morar numa comunidade hippie.
Anos depois, esbarraram-se. Ela, ruiva, ele, universitário, em um show do Iron Maiden, bem no meio de Rime of the Ancient Mariner. Despreparados para o encontro, marcaram de sair, trocaram emails, adicionaram-se em redes sociais e tornaram-se pequenas fotos na tela de computador. Cíntia e João Henrique, que se entendiam na troca de olhares, nunca mais conseguiram ter outro assunto.
- Um dia a gente marca. Tem visto o pessoal?
- Só o Augusto. Lembra dele?
- Ih... acho que não... era aquele loiro?
- Não, o gordinho, de óculos...
- Aquele fã do Aerosmith?
- Esse era o Claudinho...
- É mesmo... Cara, mas um dia a gente marca. Tô com saudades de você, você sabe...
Cíntia, que não planejava o futuro, tinha se casado e se separado. Conheceu São Thomé das Letras, Londres, Amsterdã, Bratislava, Cairo e Mumbai. Era, agora, artista plástica, enquanto sua mãe criava seu filho pequeno. De tanto prestar atenção nela e de imaginar como teria sido (privilégio? desapontamento?) passar com ao seu lado todos os anos que separavam sua realidade daquela vez em que haviam se apaixonado de novo sobre os lençóis cor-de-rosa, João Henrique não tinha conseguido encontrar outra saída: virara escritor. Ainda hoje, qualquer frase que ele escrevia era sobre uma mistura de todas as mulheres de sua vida, que quase sempre tinham o rosto de Cíntia. Ela tinha sido, para sempre, dona de seu destino. E o tempo nem precisaria ter se desdobrado e se rabiscado em outros quatorze calendários para que ele pudesse saber. Bastou concluir, naquela tarde de 1998, em que ele se entregou pela sétima vez.
Cíntia fazia os últimos retoques em suas melancólicas unhas, enquanto consertava a alça da blusa e massageava com a sola do pé o cachorro de pelúcia deitado ao pé da cama. Era seu cúmplice, João Henrique pensou. Ele sabe de tudo, maldito cachorro. Tendo caído em sua própria armadilha - anos depois, ele descobriria, na mesma caixa em que estavam guardados outros segredos impressionantes, que era muito mais dela do que dele -, João virou para o lado e, repentinamente, prestou atenção na prateleira de CDs. Estavam sempre organizados de acordo com o humor de Cíntia, como em uma playlist, numa época em que ainda não havia mp3. O garoto esticou o braço e pegou o CD do The Cranberries. Abriu a caixa e tirou o encarte preto, frustrando-se com a descoberta de que ele não trazia a letra da música que agora tocava na televisão, no programa de videoclipes. Assim seria Cíntia, para sempre. Um encarte sem letra do CD preferido. Guardado para sempre na prateleira dos instantes eternos.
It's out there... if you want me I'll be there...
And there's no other place that I'd lay down my face
I'll be... dreaming my dreams with you...
5 comentários:
Fiquei feliz por ter esperado para ler esse conto.
E também fiquei com saudade das coisas que nunca foram.
Lindo texto, como sempre :)
MANO, como você consegue trabalhar vinte e cinco horas por dia e ainda ter tempo pra escrever esses textos maravilhosos?
Assim, adorei participar do meme e de ver todo mundo que participou também, mas tava morrendo de saudades dos seus contos =D
E, Otávio, quem diria, é muuuuuito mais romântico do que podíamos imaginar....
Esses garotos de hoje em dia!
(Velho mode off)
Ai Otavio...
Eu fiquei aqui, lendo e imaginando os mínimos detalhes desse conto. E viajando junto com a história...
Tão lindo!!
"Um encarte sem letra do CD preferido."
Como alguém consegue descrever assim uma pessoa? Sério, sou sua fã.
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