Capítulo Um
Mesmo do lado de fora da casa, o cheiro forte era capaz de provocar náuseas em quem se aproximasse demais da janela. Rafa não conseguiu identificar o aroma, mas podia ter certeza que era alguma coisa entre o mofo, a naftalina e a terra molhada. O rapaz sabia que o olfato é o sentido que está mais intimamente ligado com a memória e que a inalação de uma essência poderia provocar o resgate imediato das mais remotas lembranças escondidas sob os escombros das memórias inúteis. Só que, daquela vez, não estava funcionando. Nem a exposição longa e quase dolorosa àquele cheiro conseguia fazê-lo lembrar da última vez que sentira algo parecido, milhões de anos atrás. Quando ouviu o barulho dos tamancos da velha sobre os tacos de madeira antiga que recobria o chão da casa, Rafa se lembrou - como que resgatado de um transe - do motivo que o havia levado até aquele lugar naquela tarde nublada de sábado. Do cheiro, nada.
- Vocês ainda estão aí? - perguntou a velha corcunda. O corpo dela, prostrado diante de uma luz fraca que vinha do corredor, projetava na parede da casa uma imagem que lembrava uma gárgula. Não era feia. Tinha os traços arredondados pelo tempo, mas Rafa podia apostar que ela tivesse sido uma bela jovem, apesar dos esforços que parecia fazer para, agora, na velhice, tornar-se ameaçadora. Ele não a culpava. Ser comparada a uma bruxa era uma analogia fácil demais para se fazer com uma velha solitária, ainda mais uma que vivia naquela chácara cercada por uma vizinhança de crianças malcriadas.
Desde que se mudara para aquele bairro, Rafa ouvira falar da velha bruxa sardenta que morava na chácara amaldiçoada. Quando as baldeações da infância foram deixadas para trás, Rafa deixou de sustentar a crença naquela lenda e entendeu que a velha devia ser apenas uma mulher solitária. Deve ser que veio de outro país e ficou sem ninguém por aqui – era o que diziam as tias fofoqueiras da rua de cima, deduzindo o estrangeirismo da personagem a partir de seu sotaque carregado. De velha bruxa sardenta, passou a ser a velha gringa doida, que Rafa não sabia se era russa, alemã ou cazaquistã. Era neerlandesa – ele ouvira de gente séria, uma vez. Ou tinha vindo do Luxemburgo, algo assim. Na boca pequena, corria o boato de que ela morava sozinha e que o marido, que havia sido poucas vezes visto dando o ar da graça na rua, já estava morto há uns três anos e seu cadáver era mantido intocado, sob o mesmo travesseiro e os mesmos colchões sobre os quais morrera. Prova ninguém tinha. Cheiro de cadáver podre ninguém tinha sentido. Decerto, ela o embalsamara.
O certo é que Rafa estava ali, na tarde de um sábado nublado, envolvido pelo aroma de mofo e terra, dentro da casa da velha neerlandesa. Só podia ter um motivo muito bom para isso...
- E aí? Ele acordou? – Tita quis saber, impaciente.
Para Rafa, a voz da moça servia como antídoto para qualquer situação insólita. Como aquela não era das mais agradáveis, parecia completamente propício - para não dizer indispensável - que ela começasse a falar, antes que ele morresse sufocado com o cheiro de velharia que se concentrava em cada partícula de oxigênio que lhe invadia os pulmões. Rafa olhou para a moça que estava ao seu lado. Cuidadosamente despojada, Tita vestia uma camisa com um padrão azul de xadrez – roupa que certamente não tinha sido feita para ela. O short jeans era curto demais e deixava à mostra suas pernas muito brancas e magras, apesar de graciosas. Nos pés, all-star verde escuro, minuciosamente sujo. Nas costas, a velha mochila de borracha, que guardava escritos em papeis e cadernos qualquer segredo que Rafa jamais poderia supor que ela guardasse. O mistério em torno de Tita era o que mais fascinava, ao lado de seus óculos escuros grandes demais para o seu rosto pequeno e redondo. Mas depois de cinco anos e tanto de amizade, Rafa havia chegado à conclusão de que o que mais gostava em Tita era a naturalidade com que ela reagia quando algum detalhe secreto de sua personalidade vinha à tona. Ela não escondia nada... era como um extenso e complexo livro aberto, esperando que qualquer leitor atento se delicie com a epifania e a sensação de genialidade ao perceber que aqueles não eram segredos escondidos, eram apenas fatos abstratos.
Tita suspirou em desassossego quando viu que a velha balançava a cabeça negativamente e voltou o rosto para o amigo, expressando desespero e frustração. Rafa obviamente estava distraído demais perdido em algum ponto do horizonte entre as ondas dos cabelos da moça e os quadros antigos – como gente velha gosta de foto de gente mais velha ainda!, ele pensou.
- Tem certeza? Eu falei com ele pelo telefone, dona. Ele falou que hoje mesmo ele me entregaria o envelope. Será que ele não deixou em algum lugar não? – Tita insistiu, procurando com o olhar uma cômoda ou um móvel antigo sobre o qual pudesse estar o envelope valioso que ela estava procurando.
- Certeza, filha. Volta outra hora – disse a velha, em um tom que Rafa interpretou como um quase cordial “sai daqui que tá na hora de dar comida para o gato”. Até porque nem tinha gato nenhum na casa.
- Velha coroca – Tita exclamou.
Rafa riu.
- Coroca? Chata, feia e boba?
- Que ódio. Que que custava ela sacudir o velho até ele acordar e falar onde que ele pôs o maldito envelope – disse Tita, enfurecida.
- Você tem certeza que falou com ele mesmo no telefone? Tipo, não era outra pessoa, sei lá?
- Mas quem, Jesus?
Tita parou para amarrar o cadarço do tênis, o que, para Rafa, era um mau sinal, já que a moça nunca ligava para os cordões soltos.
- É só pra dificultar a minha vida que essa velha faz isso. Ela não sabe há quanto tempo eu to procurando esse negócio. Aí eu gasto toda a minha cota de sorte dessa encarnação quando eu descubro que estava muito mais perto do que eu imaginava. Aí eu vou lá pedir encarecidamente pra velha acordar o velho por um segundo só pra ele me dar o envelope e ela decide que é uma boa ideia destruir minha vida.
- Que exagero, Tita!
- Vadia!
Rafa não se atreveu a falar mais nenhuma palavra enquanto subiam a avenida até chegar em uma parte mais movimentada da cidade. Ele tentou diminuir o passo ao avistar a esquina maldita, o lugar onde toda a desgraça de sua vida começava: a esquina da casa de Tita, onde a caminhada de dois se transformava na caminhada só de meia porção de uma quase pessoa, que era o que ele virava depois da despedida. Rafa viu que não ia adiantar, Tita ficava especialmente rápida e ansiosa quando contrariada. Por isso, o jovem aceitou seu destino e nem reclamou quando ela virou a esquina sem se despedir, caminhando em passos decididos rumo à casa laranja do fim da rua. Rafa fingiu amarrar os cadarços – nada original, ele pensou – para alongar por mais uns sete segundos sua estadia inexplicável na esquina da Rua Ípsilon. Assim, pôde vê-la se afastando, de costas, como que uma materialização de suas piores profecias oníricas. Era essa a verdade. Era assim que ele sempre poderia ver Tita: ora caminhando passos largos e inalcançáveis à frente dele, ou, em uma perspectiva própria dos dias mais pessimistas e nublados, indo embora.
Rafa chutou umas pedrinhas e voltou a encarar a avenida. Carros bissextos cruzavam a rua e quebravam o silêncio. Caminhando contra o vento, o garoto ouvia o barulho do vento misturado com as vozes que gritavam dentro de sua cabeça, que excomungavam suas próximas dez gerações por não ter tido o mínimo de coragem de dizer a ela como ele se sentia. Nem era segredo, ele se justificava. Pra que contar se não é segredo? Se ela quiser, ela olha, vê, percebe e entende. Aí, se ela quiser, ela faz algo respeito. Se ela não quiser fazer nada, é porque não faz diferença nenhuma. Porra. Droga de vida. Droga de Tita.
Já quase na frente de casa, uns minutos depois, Rafa amaldiçoou trezentas vezes o dia em que resolvera ajudar a moça naquela missão de encontrar a figurinha perdida, que lhe havia arrastado até a casa assombrada e amaldiçoada da bruxa gringa vesga sardenta do Casaquistão. No segundo seguinte, se arrependeu. Qualquer motivo para ele não estar ao lado de Tita era fraco demais. Não poderia existir outra utilidade para uma tarde de sábado nublado a não ser se enfurnar na casa de um casal de velhos holandeses por causa de uma figurinha. Não poderia existir outra utilidade para a vida dele a não ser se torturar de amores pontiagudos por ela. Convencendo-se da própria insignificância, ele viu que havia luz no fim de qualquer túnel quando se lembrou do que o cheiro da casa dos velhos o lembrava: caixa de ovo molhada. Infância. Interior. Vida simples e fácil. Sem Tita no mundo. Que droga de vida.
Mesmo do lado de fora da casa, o cheiro forte era capaz de provocar náuseas em quem se aproximasse demais da janela. Rafa não conseguiu identificar o aroma, mas podia ter certeza que era alguma coisa entre o mofo, a naftalina e a terra molhada. O rapaz sabia que o olfato é o sentido que está mais intimamente ligado com a memória e que a inalação de uma essência poderia provocar o resgate imediato das mais remotas lembranças escondidas sob os escombros das memórias inúteis. Só que, daquela vez, não estava funcionando. Nem a exposição longa e quase dolorosa àquele cheiro conseguia fazê-lo lembrar da última vez que sentira algo parecido, milhões de anos atrás. Quando ouviu o barulho dos tamancos da velha sobre os tacos de madeira antiga que recobria o chão da casa, Rafa se lembrou - como que resgatado de um transe - do motivo que o havia levado até aquele lugar naquela tarde nublada de sábado. Do cheiro, nada.
- Vocês ainda estão aí? - perguntou a velha corcunda. O corpo dela, prostrado diante de uma luz fraca que vinha do corredor, projetava na parede da casa uma imagem que lembrava uma gárgula. Não era feia. Tinha os traços arredondados pelo tempo, mas Rafa podia apostar que ela tivesse sido uma bela jovem, apesar dos esforços que parecia fazer para, agora, na velhice, tornar-se ameaçadora. Ele não a culpava. Ser comparada a uma bruxa era uma analogia fácil demais para se fazer com uma velha solitária, ainda mais uma que vivia naquela chácara cercada por uma vizinhança de crianças malcriadas.
Desde que se mudara para aquele bairro, Rafa ouvira falar da velha bruxa sardenta que morava na chácara amaldiçoada. Quando as baldeações da infância foram deixadas para trás, Rafa deixou de sustentar a crença naquela lenda e entendeu que a velha devia ser apenas uma mulher solitária. Deve ser que veio de outro país e ficou sem ninguém por aqui – era o que diziam as tias fofoqueiras da rua de cima, deduzindo o estrangeirismo da personagem a partir de seu sotaque carregado. De velha bruxa sardenta, passou a ser a velha gringa doida, que Rafa não sabia se era russa, alemã ou cazaquistã. Era neerlandesa – ele ouvira de gente séria, uma vez. Ou tinha vindo do Luxemburgo, algo assim. Na boca pequena, corria o boato de que ela morava sozinha e que o marido, que havia sido poucas vezes visto dando o ar da graça na rua, já estava morto há uns três anos e seu cadáver era mantido intocado, sob o mesmo travesseiro e os mesmos colchões sobre os quais morrera. Prova ninguém tinha. Cheiro de cadáver podre ninguém tinha sentido. Decerto, ela o embalsamara.
O certo é que Rafa estava ali, na tarde de um sábado nublado, envolvido pelo aroma de mofo e terra, dentro da casa da velha neerlandesa. Só podia ter um motivo muito bom para isso...
- E aí? Ele acordou? – Tita quis saber, impaciente.
Para Rafa, a voz da moça servia como antídoto para qualquer situação insólita. Como aquela não era das mais agradáveis, parecia completamente propício - para não dizer indispensável - que ela começasse a falar, antes que ele morresse sufocado com o cheiro de velharia que se concentrava em cada partícula de oxigênio que lhe invadia os pulmões. Rafa olhou para a moça que estava ao seu lado. Cuidadosamente despojada, Tita vestia uma camisa com um padrão azul de xadrez – roupa que certamente não tinha sido feita para ela. O short jeans era curto demais e deixava à mostra suas pernas muito brancas e magras, apesar de graciosas. Nos pés, all-star verde escuro, minuciosamente sujo. Nas costas, a velha mochila de borracha, que guardava escritos em papeis e cadernos qualquer segredo que Rafa jamais poderia supor que ela guardasse. O mistério em torno de Tita era o que mais fascinava, ao lado de seus óculos escuros grandes demais para o seu rosto pequeno e redondo. Mas depois de cinco anos e tanto de amizade, Rafa havia chegado à conclusão de que o que mais gostava em Tita era a naturalidade com que ela reagia quando algum detalhe secreto de sua personalidade vinha à tona. Ela não escondia nada... era como um extenso e complexo livro aberto, esperando que qualquer leitor atento se delicie com a epifania e a sensação de genialidade ao perceber que aqueles não eram segredos escondidos, eram apenas fatos abstratos.
Tita suspirou em desassossego quando viu que a velha balançava a cabeça negativamente e voltou o rosto para o amigo, expressando desespero e frustração. Rafa obviamente estava distraído demais perdido em algum ponto do horizonte entre as ondas dos cabelos da moça e os quadros antigos – como gente velha gosta de foto de gente mais velha ainda!, ele pensou.
- Tem certeza? Eu falei com ele pelo telefone, dona. Ele falou que hoje mesmo ele me entregaria o envelope. Será que ele não deixou em algum lugar não? – Tita insistiu, procurando com o olhar uma cômoda ou um móvel antigo sobre o qual pudesse estar o envelope valioso que ela estava procurando.
- Certeza, filha. Volta outra hora – disse a velha, em um tom que Rafa interpretou como um quase cordial “sai daqui que tá na hora de dar comida para o gato”. Até porque nem tinha gato nenhum na casa.
*****
Tita e Rafa se desvencilharam das trepadeiras e avencas que cobriam as paredes molhadas do caminho que os levava até a avenida. A moça prendeu o cabelo de um jeito engraçado, como sempre fazia quando ficava nervosa ou frustrada. Os óculos escuros, que descansavam sob a cabeça dela, foram para os olhos, escondendo – ou realçando, como observaria Rafa – o desapontamento que se vertia em lágrimas. Mas os dois sabiam bem: em breve, a frustração se transformaria em ódio.- Velha coroca – Tita exclamou.
Rafa riu.
- Coroca? Chata, feia e boba?
- Que ódio. Que que custava ela sacudir o velho até ele acordar e falar onde que ele pôs o maldito envelope – disse Tita, enfurecida.
- Você tem certeza que falou com ele mesmo no telefone? Tipo, não era outra pessoa, sei lá?
- Mas quem, Jesus?
Tita parou para amarrar o cadarço do tênis, o que, para Rafa, era um mau sinal, já que a moça nunca ligava para os cordões soltos.
- É só pra dificultar a minha vida que essa velha faz isso. Ela não sabe há quanto tempo eu to procurando esse negócio. Aí eu gasto toda a minha cota de sorte dessa encarnação quando eu descubro que estava muito mais perto do que eu imaginava. Aí eu vou lá pedir encarecidamente pra velha acordar o velho por um segundo só pra ele me dar o envelope e ela decide que é uma boa ideia destruir minha vida.
- Que exagero, Tita!
- Vadia!
Rafa não se atreveu a falar mais nenhuma palavra enquanto subiam a avenida até chegar em uma parte mais movimentada da cidade. Ele tentou diminuir o passo ao avistar a esquina maldita, o lugar onde toda a desgraça de sua vida começava: a esquina da casa de Tita, onde a caminhada de dois se transformava na caminhada só de meia porção de uma quase pessoa, que era o que ele virava depois da despedida. Rafa viu que não ia adiantar, Tita ficava especialmente rápida e ansiosa quando contrariada. Por isso, o jovem aceitou seu destino e nem reclamou quando ela virou a esquina sem se despedir, caminhando em passos decididos rumo à casa laranja do fim da rua. Rafa fingiu amarrar os cadarços – nada original, ele pensou – para alongar por mais uns sete segundos sua estadia inexplicável na esquina da Rua Ípsilon. Assim, pôde vê-la se afastando, de costas, como que uma materialização de suas piores profecias oníricas. Era essa a verdade. Era assim que ele sempre poderia ver Tita: ora caminhando passos largos e inalcançáveis à frente dele, ou, em uma perspectiva própria dos dias mais pessimistas e nublados, indo embora.
Rafa chutou umas pedrinhas e voltou a encarar a avenida. Carros bissextos cruzavam a rua e quebravam o silêncio. Caminhando contra o vento, o garoto ouvia o barulho do vento misturado com as vozes que gritavam dentro de sua cabeça, que excomungavam suas próximas dez gerações por não ter tido o mínimo de coragem de dizer a ela como ele se sentia. Nem era segredo, ele se justificava. Pra que contar se não é segredo? Se ela quiser, ela olha, vê, percebe e entende. Aí, se ela quiser, ela faz algo respeito. Se ela não quiser fazer nada, é porque não faz diferença nenhuma. Porra. Droga de vida. Droga de Tita.
Já quase na frente de casa, uns minutos depois, Rafa amaldiçoou trezentas vezes o dia em que resolvera ajudar a moça naquela missão de encontrar a figurinha perdida, que lhe havia arrastado até a casa assombrada e amaldiçoada da bruxa gringa vesga sardenta do Casaquistão. No segundo seguinte, se arrependeu. Qualquer motivo para ele não estar ao lado de Tita era fraco demais. Não poderia existir outra utilidade para uma tarde de sábado nublado a não ser se enfurnar na casa de um casal de velhos holandeses por causa de uma figurinha. Não poderia existir outra utilidade para a vida dele a não ser se torturar de amores pontiagudos por ela. Convencendo-se da própria insignificância, ele viu que havia luz no fim de qualquer túnel quando se lembrou do que o cheiro da casa dos velhos o lembrava: caixa de ovo molhada. Infância. Interior. Vida simples e fácil. Sem Tita no mundo. Que droga de vida.

Um comentário:
Se um dai eu escrever um tratado sobre olfato, vou citar esse primeiro parágrafo.
E, cara, ou muito me engano, mas essa velha veio do Zwkrshjistão. Acho que vi a cara dela num hall da fama da Associação Zwkrshjistanesa de Dominó...
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