12 de jul. de 2010

062: Conto Vinte e Nove - 12-07-10

Poço de piche
ou A grande matança do falcão maltês

Por um segundo, Sr. K se assustou com a própria imagem no espelho da penteadeira. A luz vermelha que vinha do letreiro do bar do lado oposto da rua preenchia o quarto apertado do hotel pelo reflexo do vidro e, àquela altura, era notoriamente inadequada. Tentando se convencer de que não havia se flagrado em um momento de fraqueza, ainda que breve, K fechou ainda mais o rosto e fingiu analisar com frieza a camada de poeira que recobria os móveis do quarto na escuridão. O detetive soltou uma exclamação de chateação antes de caminhar mais alguns passos em direção à única janela, asfixiado pelo cheiro inconfundível de mofo, pólvora, álcool, sangue e putrefação. Quando ouviu passos sobre os tacos de madeira do corredor, levou a mão até a cintura num gesto instintivo, embora soubesse que aquele não era o momento de usar a arma. Pela cadência do barulho dos pés sobre o chão, tinha certeza de quem pudesse ser.

- E aí? Vai levar a noite toda?

- Já terminei. Não há nada a fazer por aqui. Conseguiu identificar o sujeito?

- É mesmo o filho do senador Bailey.

- Ex-senador.

- Que seja. Um playboyzinho de merda que provavelmente fez por merecer.

- Não duvido.

K subiu os olhos para olhar mais uma vez para analisar o defunto, que estava pendurado na cama de uma maneira ridícula. Sua cabeça pendia sob o pescoço imóvel e quase tocava o chão. No final do braço que estava caído, a mão que formava um gesto macabro e estúpido, como se o último ato do morto tivesse sido o impulso de esganar seu agressor. A ideia era absurda, porque K já sabia que ele havia sido morto a tiros. Três, dois na altura do estômago e um meticulosamente mirado na altura de sua virilha. Faltava-lhe apenas entender como diabos o mauricinho com o cabelo impecável o terno de corte italiano havia conseguido morrer naquela posição improvável.

- Bem feito.

K riu da reação de Tanner. Entendia bem que o parceiro se fizesse satisfeito com a morte de um riquinho naquelas condições fúteis, dentro de um quarto de motel barato na parte baixa da cidade. Provavelmente, tipinhos como Reynard Bailey haviam incomodado Tanner durante toda a vida escolar. Tanner era jovem também, recém-saído da academia de polícia. K já havia percebido que a pouca experiência do parceiro ainda não fizera desaparecer o fiapo de esperança na correção da polícia e da sociedade. Tanner devia imaginar que a morte do jovem Bailey havia lhe poupado boas dores de cabeça dali alguns anos. Porque, apesar da ingenuidade, o policial já entendera que tipos como os Bailey não vão para a cadeia, por mais que estejam enterrados em crimes, corrupção, prostituição, exploração, tortura e ódio como um elefante em um poço de piche.

- Em que você está pensando?

- Na minha aposentadoria.

- Não brinca, chefe. Um presunto fresco na sua frente e você pensando no futuro? Pelas minhas contas, ainda faltam uns bons seis anos até você abandonar a polícia.

- Esse presunto fresco é só mais um, Tanner. Você já deveria ter percebido que essas coisas não me impressionam mais há muito tempo.

- Incontestável, K. Mas um tiro bem no meio das partes é novidade. Não lembro de ter visto um caso assim nos últimos vinte anos. Não dá pra negar que emasculação é bem original, mesmo aqui em Hamburg Town. O seu suspeito quis adicionar alguma emoção ao nosso trabalho. Não deixe que o esforço desse homem seja em vão.

- Foi uma mulher, Tanner. A menos que Reynard Bailey seja um fã de perfumes doces franceses. O que, não posso negar, deixaria o pai dele bem furioso. De qualquer forma, esse pobre retardado não estaria em um hotel barato em Hamburg Town se não fosse para um encontro supostamente furtivo com uma mulher.

- Tá certo. A área dos travestis fica mais adiante - Tanner riu da possibilidade que criou, antes de seus olhos caírem de novo sobre o defunto e ele se lembrar, de súbito, do motivo da visita dos dois policiais ao local do crime - Bom, K. Eu já estou indo. Acho que não há mais nada em que eu possa ajudar por aqui. E é bom eu chegar em casa antes de amanhecer, ou a Kathleen vai ficar uma fera. Da última vez, ela me fez dormir com os cachorros.

- Está certo. Não devo demorar muito mais por aqui. Já tenho uma boa teoria sobre o que aconteceu nesse quarto.

- Ótimo. Por um segundo, imaginei que você estivesse mesmo cansado dos mistérios do submundo. Ultimamente, você parece bem convincente quando fala em deixar a polícia e se mudar para Cape Cod. É quase uma ironia. E quase um desrespeito com o Departamento de Investigações da Polícia de Roark City.

- Oh! Venha me visitar daqui uns anos em Cape Cod. Você, Kathleen e as crianças que nascerem de vocês.

- Posso dar a ordem para a remoção do corpo? - disse Tanner, ignorando qualquer traço de ironia na fala do chefe.

- Quando quiser.

- Tenha bons sonhos, K.

Enquanto Tanner saía pela porta, K acenteu um cigarro - o último do maço - e apertou os olhos em direção à noite nublada que sempre lhe fazia acreditar que, ao contrário do que se pensa, são muitos os tons da cor preta. Da janela do segundo andar do hotel Jarvis', o detetiva podia enxergar a parte menos movimentada da Avenida 3, a principal rua da cidade baixa. O calçamento prateado de pedras refletia as luzes fracas dos postes e transformava Hamburg Town em um desenho colorido com grafite.

- Poço de piche de merda.

Os prédios antigos distribuídos pelos dois lados da avenida eram lares de toda sorte do mais sujo e fétido tipo de gente: os sub-humanos. Eram pobres, decadentes, criminosos, trombadinhas, mendigos que apropriaram construções abandonadas, prostitutas e doentes. O cheiro acre de podridão e urina se espalhava pelos cantos de concreto de Hamburg Town. K poderia jurar que já não havia, para os ratos e baratas, qualquer diferença entre o mundo do esgoto, por sob as ruas do bairro, e o mundo que se espalhava acima dos bueiros. Do outro lado da rua do hotel Jarvis', sob o letreiro de neon vermelho que contornava a silhueta de uma mulher voluptuosa, estava o Sheffield's. Um barzinho decadente, sujo e inabitável, familiar para as prostitutas mais velhas e doentes que não poderiam conseguir trabalho na competição com as jovens peitudas da Avenida 2, onde K havia virado as doses de uísque mais indigestas de toda a sua vida.

Depois de flagrar Gertie, uma prostituta de 45 anos gorda, sair do bar acompanhada de um velho bigodudo cuja cara de porco estava escondida sob o chapéu, K voltou os olhos para o defunto. Reynard Bailey nunca sairia com Gertie. K conhecia tipinhos como aquele. Certamente, o almofadinha preferia as jovens, as virgens, as boas moças desonradas expulsas de casa, que encontravam abrigo nas ruas de Hamburg Town, em cujos rostos angelicais era possível perceber um misto de nojo, vergonha e deslocamento em relação às ruas fedidas da cidade baixa. K já ouvira, uma vez, que o jovem pagara 2 mil dólares para uma das novatas da Avenida 2 em troca de sua virgindade. O detetiva quase riu da ironia ao perceber que aquele presunto jamais defloraria outra mocinha desiludida. Não depois daquele tiro certeiro na virilha nua.

Surpreendido por uma rajada de vento, K voltou a olhar para a rua. Descuidou-se e viu cair da janela o cigarro inacabado. Enquanto observava o pontinho alaranjado do fogo exalar uma fumaça fraca antes de se perder no calçamento da rua, K sentiu seu olhar sendo sugado pela mulher que saía sozinha e calma do Sheffield's. O vestido longo era vermelho e cobria as formas generosas das coxas e dos quadris da mulher. A familiaridade do decote que se fazia aparecer no vão da estola de pele chamou a atenção do velho policial. Aquelas curvas já lhe haviam causado problemas inenarráveis em um passado não tão distante, e insistiam em aparecer da mesma maneira furtiva com que desvanesciam, como a fumaça dos cigarros. Os cabelos cruelmente ruivos engrossavam o coro da sombra ruiva da mulher, cuja paisagem naturalmente era completada por um tom vivo e brilhante de vermelho que coloria os lábios dela e a destacavam de uma maneira quase fluorescente da paisagem cor de grafite de Hamburg Town. Antes que pudesse se encontrar depois de se perder nas memórias lascivas daquele decote, K se surpreendeu ao ver que ela olhava para cima, encarando-o como em um desafio. Um duelo sombrio e erótico se desenrolava no meio da Avenida 3, na cidade-fantasma que havia se tornado Hamburg Town.

- Rosalind - K obedeceu à vontade própria de seus lábios, embora quase não tivesse podido escutar o barulho da própria voz.

Com a mesma naturalidade ambígua e dissimulada que havia encarado K nos olhos, completamente e irremediavelmente consciente de que a presença dela era a peça que faltava no previsível quebra-cabeças que era o assassinato de Reynard Bailey, Rosalind soltou uma baforada de fumaça, aconchegou-se na estola de pele tampando seus dotes físicos hipnotizantes e caminhou devagar para o lado oposto da Avenida 3. K não queria acompanhar a figura vermelha, enigmática e desconcertante da mulher pela rua. Sabia que, apesar de Hamburg Town não ser o cenário perfeito para uma mulher como Rosalind, ela não teria problemas em se defender dos trombadinhas, mendigos, bêbados ou qualquer outro vagabundo notívago da cidade baixa. Pelo contrário, compreendeu o significado da presença daquela mulher e divagou nos desenhos nebulosos que a fumaça do cigarro dela esboçavam no ar negro, até se dissiparem. Quando a equipe da Polícia entrou no quarto 201 do hotel Jarvi's, K já não estava mais lá. Sobre a cama, só o defunto com as calças abaixadas sobre a poça de sangue que se tornara o colchão.

E o dia amanheceu em Hamburg Town.

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