Não deve ter passado mais de 15 minutos desde o momento em que Bruno entrou no ônibus, desajeitado, segurando o celular, o iPod, livros e mochila nas costas, até o momento em que deu sinal para descer, na avenida perto de sua casa. Apertou o telefone contra o ouvido, mas os barulhos do coletivo e de seus trinta e tantos passageiros ávidos para distribuir as fofocas de todo o dia de trabalho só permitia que ele ouvisse algumas palavras do que o colega de trabalho falava: 'reunião', 'trabalho', 'pra amanhã'.
- Túlio, ó, eu te ligo depois, pode ser? Não to conseguindo te ouvir direito - ele disse, sem perceber que estava gritando. Quando desligou o telefone, viu que erguera sua voz acima do burburinho do ônibus. Deu um quase-sorriso sem graça para uma velhinha que se sentava ao lado, que lhe devolveu o sorriso, sob um olhar de reprovação.
O constrangimento lhe fez baixar a cabeça e, como em qualquer vez que fosse exposto dessa maneira, aumentou o volume, no fone de ouvido. Bruno deve ter feito uma careta engraçada de vergonha, porque viu que a menina do seu lado estava rindo. Era dele, ele supunha. No vidro em frente à cadeira do ônibus, via o reflexo daquela moça. Como é que não tinha percebido? Justo ele, que sempre se entregava aos amores nascidos em ônibus e que, como aquele, não duravam mais do que 15 minutos. Com alguma sorte, pegava um engarrafamento e prolongava os devaneios envolvendo aquelas garotas.
Bruno tentou olhar para o rosto da moça, fingindo ver uma paisagem que passava na janela. Viu que ela era branquinha, tinha um cabelo escuro, liso, que ia até a altura de seus ombros. Usava um corte desigual, e isso ele só percebeu quando viu que algumas pontas de fios repousavam em diferentes alturas de sua face. A franja era grande o suficiente para tampar os olhos. E a posição da moça, que talvez fingia não perceber os olhares furtivos de Bruno, também escondia o mistério de sua expressão. Ela usava um suéter que parecia quente o suficiente para o vento gelado das noites de outono e uma calça jeans básica. Ela segurava a mochila preta com detalhes vermelhos com as mãozinhas brancas, unhas pintadas daquelas cores que ele nem sabia que existia. Coral. Paixão. Fada.
Mas nada chamava mais atenção que o tênis de camurça com cadarços rosas. Obviamente, era pelo simples fato de que, para os pés dela, ele podia olhar sem precisar fingir olhar a desinteressante cena móvel do lado de lá das janelas do ônibus. Comparou os tênis com os seus próprios. Até que combinavam. Nas cores, no modelo, na poesia. Eram feitos um para o outro, Bruno tinha certeza. Ele deixou escapar sorrisos indiscretos para si mesmo e percebeu que ela também oscilava olhares furtivos na direção dele.
Talvez ela apenas olhasse a paisagem da janela no lado oposto do ônibus. Ou prestasse atenção no caso de polícia presenciado pela velhinha do lado de lá do corredor. Mas Bruno gostou de acreditar que ela também buscava nesses relances as pecinhas do quebra-cabeça. Bruno rodou as chaves de casa em suas mãos geladas e, após guardá-las no bolso, manipulou os botões do iPod com o objetivo de mostrar para aquela menina uma breve dica sobre quem ele era: sua playlist. Passou por The Cure, The Smiths (to die by your side is such a heavenly way to die), The Beach Boys e até uma bandinha gaúcha de rock, Video Hits. Achou que fosse suficiente e apertou o play em uma versão de Without you do Wander Wildner.
Passaram os próximos quatro minutos encontrando olhares fugidios e fugindo de olhares encontrados. Bruno não disse uma palavra - nunca diria, porque sabia que essa maneira completamente natural e inofensiva de se conhecer alguém assustaria qualquer uma. E, para falar a verdade, talvez ele não quisesse conversar com alguém que não se assustasse com assuntos puxados por desconhecidos dentro do ônibus às onze da noite. Ele não sentiu o cheiro do shampoo dela que ainda exalava de seus cabelos, nem pôde saber os pensamentos da moça. Mas sabia que aquela sintonia entre duas pessoas ele - nem ela, com alguma sorte - não encontrava em qualquer ônibus. Essa era especial. Essa usava tênis que combinavam com os dele.
Satisfeito, preparou-se para descer do ônibus, que já entrava na avenida adjacente à sua rua. Levantou-se e deu o sinal e virou para tentar ver, afinal, os detalhes do rosto do novo amor-de-sua-vida, que não tinha conseguido ver nem nas espiadas mais indiscretas. Não conseguiu ver nem olhos, nem boca, nem bochechas. Só a aliança que jazia no dedo anular da mão direita da menina, que olhava fixamente para o infinito. Enquanto descia do ônibus com a mesma falta de desenvoltura com a qual entrou, com milhões de coisas nas mãos e nas costas, quase tropeçando pela rua escura e cheia de notívagos desiludidos, sentiu decepção e, no segundo seguinte, riu-se daquela situação. Riu por ter sido o caso de ônibus de alguém. E riu da própria atitude e por ter sentido, por breves segundos, raiva e desespero. Riu por ter se sentido sozinho no mundo, privado da possibilidade real de concretização daquele romance. Ensaiou um olhar de volta para o interior do ônibus, para ver se ela seguia os passos dele e se tivesse testemunhado a mistura de sentimentos que ele experimentara naqueles vinte segundos. Não seguia.
Talvez ela apenas olhasse a paisagem da janela no lado oposto do ônibus. Ou prestasse atenção no caso de polícia presenciado pela velhinha do lado de lá do corredor.
Quais são as cores e as coisas pra te prender?
Eu tive um sonho ruim e acabei chorando, por isso eu te liguei
4 comentários:
nossa, eu já tive muitos amores de ônibus! muitos! e um dos meu blogs antigos até tem um texto sobre isso também. eles são exatamente assim!
lindo esse texto! lindo lindo lindo!
que bunitinho :D
como assim eu não tinha seu blog linkado no meu?
já consertei isso;P
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Eu amo essa música que vc citou no final!!!
Eu achei que vc tinha deixado de escrever, aqui. Tinha até deletado seu link, lá em casa... Vc mencionou algo a respeito disso, ou eu sonhei? De qq forma, ja "relinkei" vc.
Beijão!
Adorei a expressão "encontrando olhares fugidios e fugindo de olhares encontrados". Adorei o conto inteiro.
Beijos.
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