João nem tentou. Ele sabia muito bem que, em noites feito aquela, qualquer guerra que travasse era inútil - era a insônia que vinha lhe incomodar. O intervalo entre seus bocejos já eram tão curtos que os músculos de seu rosto doíam. Os olhos pesavam ao se lembrar das centenas de quilômetros que ele percorrera naquele dia, mais cedo, e ardiam. As lágrimas que desciam também eram de sono, pelo menos até aquele momento.
O quarto estava escuro, mas ele sabia de cor a posição de cada móvel. Mesmo distante daquele cômodo, daquela casa, em sua vida pretensiosamente adulta, conseguia se lembrar perfeitamente da disposição dos livros na prateleira... dos ângulos que o velho guarda-roupa de mogno fazia com a armação da cama. A mesinha do computador - a mesma desde mais de uma década atrás, já quase cedia ao peso daquela máquina gigante e completamente obsoleta. João reconheceria para sempre o cheiro da velha coleção de revistas infantis, quadrinhos, quinquilharias, brinquedos, recortes e borrachas inacabadas que agora descansavam em caixas de papelão, embaixo da antiga televisão, à frente da cama de solteiro.
Estava quase tudo no luga
r, pelo menos tudo aquilo que havia podido resistir ao tempo. Derrotado pelo sono que nos toma conta naquelas noites em que não podemos dormir, tentou se distrair e colocar uma música, pra ver se os sonhos chegavam mais rápido. No fone de ouvido, sintonizou a mesma rádio que escutava nas madrugas de seus dias adolescentes e ousou julgar que a música, já pela metade, era a mesma que estava tocando em outra noite bem parecida com aquela.
Fechou os olhos ardidos e mergulhou em um breu ainda mais profundo. De repente, todas as suas inquietações e preocupações se transformaram nas ilusões de um garoto de 16 anos. Tremeu de frio e de medo. Sentiu um desespero total que há muito tempo não sentia. Mesmo com as contas para a pagar, mesmo com os prazos apertados, mesmo com o celular que estragou, com a comida que azedou, com o encontro que atrasou, com a menina que desapaixonou. Era um horror tão agudo e absoluto que não lhe era possível sentir mais nada.
João teve uma epifania. Era sim, aquela sensação, aquela velha insuficiência que já não parecia mais medo, à medida que as coisas iam ficando claras em sua mente. De terror, não tinha nada. Era ansiedade. Uma espera agridoce pela festa no fim de semana, pela próxima fase no video-game, pela próxima tentativa de aproximação com aquela garota especial. Não era medo. Era viagem no tempo. Era ter de novo 16 anos. Deitar de novo na mesma cama, ouvindo a mesma música, com o mesmo anseio de se tornar uma estrela do rock.
Nos segundos de quase-consciência, antes de mergulhar em algum reino distante, João pensou - ou, quem sabe, sonhou - em acordar, vestir o uniforme, pegar o escolar, subir as escadas, fazer prova de geografia, esperar o recreio, passar o tempo livre fingindo não procurar sua paixão-pra-vida-inteira daquele ano, ter aula de química, história, biologia, e aprender, a cada dia, a ser um pouquinho mais parecido com o que, de fato, se tornou.
I've these dreams of
Walking home
Home where it used to be
And everything is
As it was
Frozen in front of me
Here I stand
6 feet small
romanticizing years ago
but it's a bitter sweet feeling hearing
"Wrapped Around Your Finger" on the radio
and these days
I wish I was 6 again
Oh make me a red cape
I wanna be Superman
Oh, if only my life was more like 1983
all these things would be more like they
were at the start of me
had it made in 83
thinking bout my brother Ben
I miss him every day
He looks just like his brother John
But on an 18 month delay
and most my memories
have escaped me
or confused themselves within dreams
if heaven's all we want it to be
send your prayers to me
care of 1983
you can paint that house a rainbow of colors
rip out the floorboards
replace the shutters but
that's my plastic in the dirt
whatever happened to my
whatever happened to my
whatever happened to my lunchbox
when came the day that it got
thrown away and don't you think I should have had some say
in that decision
O quarto estava escuro, mas ele sabia de cor a posição de cada móvel. Mesmo distante daquele cômodo, daquela casa, em sua vida pretensiosamente adulta, conseguia se lembrar perfeitamente da disposição dos livros na prateleira... dos ângulos que o velho guarda-roupa de mogno fazia com a armação da cama. A mesinha do computador - a mesma desde mais de uma década atrás, já quase cedia ao peso daquela máquina gigante e completamente obsoleta. João reconheceria para sempre o cheiro da velha coleção de revistas infantis, quadrinhos, quinquilharias, brinquedos, recortes e borrachas inacabadas que agora descansavam em caixas de papelão, embaixo da antiga televisão, à frente da cama de solteiro.
Estava quase tudo no luga
r, pelo menos tudo aquilo que havia podido resistir ao tempo. Derrotado pelo sono que nos toma conta naquelas noites em que não podemos dormir, tentou se distrair e colocar uma música, pra ver se os sonhos chegavam mais rápido. No fone de ouvido, sintonizou a mesma rádio que escutava nas madrugas de seus dias adolescentes e ousou julgar que a música, já pela metade, era a mesma que estava tocando em outra noite bem parecida com aquela.Fechou os olhos ardidos e mergulhou em um breu ainda mais profundo. De repente, todas as suas inquietações e preocupações se transformaram nas ilusões de um garoto de 16 anos. Tremeu de frio e de medo. Sentiu um desespero total que há muito tempo não sentia. Mesmo com as contas para a pagar, mesmo com os prazos apertados, mesmo com o celular que estragou, com a comida que azedou, com o encontro que atrasou, com a menina que desapaixonou. Era um horror tão agudo e absoluto que não lhe era possível sentir mais nada.
João teve uma epifania. Era sim, aquela sensação, aquela velha insuficiência que já não parecia mais medo, à medida que as coisas iam ficando claras em sua mente. De terror, não tinha nada. Era ansiedade. Uma espera agridoce pela festa no fim de semana, pela próxima fase no video-game, pela próxima tentativa de aproximação com aquela garota especial. Não era medo. Era viagem no tempo. Era ter de novo 16 anos. Deitar de novo na mesma cama, ouvindo a mesma música, com o mesmo anseio de se tornar uma estrela do rock.
Nos segundos de quase-consciência, antes de mergulhar em algum reino distante, João pensou - ou, quem sabe, sonhou - em acordar, vestir o uniforme, pegar o escolar, subir as escadas, fazer prova de geografia, esperar o recreio, passar o tempo livre fingindo não procurar sua paixão-pra-vida-inteira daquele ano, ter aula de química, história, biologia, e aprender, a cada dia, a ser um pouquinho mais parecido com o que, de fato, se tornou.
I've these dreams of
Walking home
Home where it used to be
And everything is
As it was
Frozen in front of me
Here I stand
6 feet small
romanticizing years ago
but it's a bitter sweet feeling hearing
"Wrapped Around Your Finger" on the radio
and these days
I wish I was 6 again
Oh make me a red cape
I wanna be Superman
Oh, if only my life was more like 1983
all these things would be more like they
were at the start of me
had it made in 83
thinking bout my brother Ben
I miss him every day
He looks just like his brother John
But on an 18 month delay
and most my memories
have escaped me
or confused themselves within dreams
if heaven's all we want it to be
send your prayers to me
care of 1983
you can paint that house a rainbow of colors
rip out the floorboards
replace the shutters but
that's my plastic in the dirt
whatever happened to my
whatever happened to my
whatever happened to my lunchbox
when came the day that it got
thrown away and don't you think I should have had some say
in that decision
Um comentário:
eu sou joão. em cada detalhe e numa noite como a de hoje. e essa letra é linda.
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