23 de set. de 2009

052: Crítica - 23-09-09

Darwin e o sangue na areia

Quando visto pela primeira vez, o premiado "Onde os fracos não têm vez" (No country for old men, 2007) parece ser uma ode à ausência. Ausência de protagonista aparente, de diálogos, de trilha sonora, de clímax e, essencialmente, de esperança. Somos dotados de uma insuficiência que nos faz buscar lacunas não preenchidas no sentido do filme, seja em seu tempo ou em seu espaço. Estranhamos, questionamos "será que perdi alguma parte?", mesmo que muitos de nós se recuse a negar que tenha sido um bom filme.

O prêmio maior da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em 2008 fez com que uma parte da imprensa e do público especializado voltasse os olhos para a obra dos irmãos Coen. Pessoas quiseram ver de novo os 116 minutos considerados os melhores na produção cinematográfica americana naquele ano. A revisitação agregou virtudes ao filme e cada detalhe meticuloso pôde ser visto como novo, nas segundas e terceiras sessões. Ao contrário do que alguns críticos ortodoxos possam perceber, o fato de "Onde os fracos não têm vez" ter vencido o Oscar funcionou como catalisador para um processo de seleção natural, enforçado pela ideia trazida pelo título do filme em português - exemplo de escolha acertada dos distribuidores. Não se assiste a um filme como esse mais de uma vez por acaso.

Se forçamos o olhar para além do que está enquadrado nas atmosferas áridas dos Irmãos Coen, podemos perceber nuances sutis. A profundidade de campo nos permite ver o que está distante, o que está por trás, o que envolve os corpos dos personagens centrais na distância. Mas toda a amplitude do horizonte está achatada pelas lentes, trazendo o longe para perto. Essa idéia também pode ser entendida de maneira mais abstrata: “old age flattens a man”, diz o xerife. Quanto mais se vive, mais a vida pode ser resumida de maneira mais simples e achatada. Assim, o que parecia estar ausente cria antíteses tão fortes que a própria ausência se torna uma presença marcante. Vejamos.

A alternância de três personagens nas rédeas da história e a inserção de outros tantos secundários essenciais cria uma espécie de jogo. Para os irmãos Coen ou mesmo para Cormac McCarthy, autor do livro que inspirou o filme, não importa quem vai vencer. A perseguição é o mote da trama, mas caça e caçador nunca vão dividir espaços no plano.

Ainda nos primeiros minutos do filme, o personagem de Javier Bardem pede a um atendente de loja de conveniência que ele se mantenha parado (hold still, no inglês). Na cena seguinte, Moss repete as palavras enquanto posiciona a mira de uma arma sobre um animal silvestre. A ordem dos dois personagens podem ser interpretadas como sendo enviadas diretamente para o espectador: “apenas se mantenha parado”, e é tudo o que temos que fazer, pelo menos durante as próximas duas horas. O fato pressupõe uma entrega que vai bem além da submissão do ego do espectador à corrente de argumentos dispostas pelos cineastas sobre a desesperança e a inevitabilidade do destino.


Muito se falou sobre a maneira como os personagens foram conduzidos por Tommy Lee Jones, Josh Brolin e Javier Bardem. Mas o verdadeiro mérito é reconhecer que, mais do que personagens singulares, Bell, Moss e Chigurh são metáforas dispostas em um tempo em que o pessimismo se transforma em um realismo quente, inóspito e inevitável. A interposição de suas histórias mostra que os meios justificam os fins e saber para onde ir é menos importante do que por que ir. Nesse momento, a edição de Roderick Jaynes (ninguém menos que os próprios irmãos Coen) exerce papel fundamental. À medida em que os planos difusos dão lugar a um sistema geométrico baseado em pontos de fuga no infinito, torna-se ainda mais inevitável esperar um desfecho que provoque os otimistas.

Em “Onde os fracos não têm vez”, só se fala o necessário. O resto está em um extracampo sutilmente evocado por cada personagem de um jeito diferente. A aura misteriosa e, ao mesmo tempo, opaca que envolve Chirgurh fala por ele, assim como os velhos texanos das histórias de Bell. Nas cenas de Moss, os barulhos da natureza criam imagens auditivas. Todo o cenário grita: o sangue na areia, as ondas de calor que emergem do deserto, os quartos de hotel, a monocromia do quadro.

A ironia que percorre toda a obra dos cineastas – e que muitas vezes desencadeia uma tendência ao humor negro (“Matadores de velhinhas” (Ladykillers, 2005)) ou ao não menos nobre film noir, também encontra um ápice inadvertido em “Onde os fracos...”. A figura excêntrica de Chigurh é, sem si, um grande sarcasmo. Coen não nos poupam de vê-lo curar seu próprio ferimento aberto com uma expressividade minimalista que rendeu um Oscar a Javier Bardem. Os detalhes nos fazem crer que Ethan e Joel se divertiram durante a execução do filme. Podemos suspeitar ainda que certos elementos se tornaram piadas internas, como o próprio nome de Chirgurh, confundido por Moss (que diga-se de passagem quer dizer lama, lodo) com sugar, açúcar em português. Nada mais doce do que um sociopata amoral com um penteado exótico.


Cena: diálogo entre os oficiais Bell e Roscoe, no último ato, sobre Chigurh.

Bell
I'm not sure he's a lunatic.

Roscoe
Well, what would you call him?

Bell
I don't know. Sometimes I think he's pretty much a ghost.



Obras pregressas da dupla de cineastas já prenunciavam a sintonia entre os cenários e as tramas. Em qualquer roteiro dos Coen, os parágrafos dedicados à descrição dos sets trazem mais informação do que os que representam falas. A caracterização das estradas do Texas em “Onde os fracos...” faz com que a data (1980) seja apenas um detalhe na narrativa. O amarelo pastel alternado pelo laranja claro e o preto fosco e desbotado das cenas noturnas são atemporais, assim como os diferentes tons de gelo na vastidão do norte em “Fargo” (1996).


Em contraponto com o apresso que têm pelos planos abertos e linhas do horizonte perenes, na hora de filmarem personagens, os Irmãos Coen os mantém aprisionados. Mas o aprisionamento é abstrato. A força de vontade urgente que move os corpos pelos landscapes os torna escravos do destino e da sorte. Não raro as figuras humanas se encontram à mercê da sorte, tendo suas vidas inconscientemente entrelaçadas com outras de maneira por vezes sufocante (ou até mesmo fatal, quando tomamos por exemplo os jogos de cara ou cora propostos por Chigurh).


O filme é, em suma, o homo sapiens na obra dos Coen. O que se ensaia em “Arizona nunca mais” (Raising Arizona, 1987), Fargo e “Queime depois de ler” (Burn after reading, 2008) se concretiza em “Onde os fracos...”, mesmo que cada filme apresente histórias, temas e estilos distintos. Entretanto, a evolução não pressupõe a perfeição, apenas a adaptação. No clamor da crítica e o estranhamento das platéias, os irmãos cineastas parecem ter encontrado o ecossistema perfeito para a reprodução de suas idéias.

crítica apresentada no Laboratório de Crítica Cinematográfica para Jornalismo Cultural, do curso de Comunicação Social da UFMG.

3 comentários:

Nuno disse...

Foi ótimo repetir o exercício com voc~e por perto. Sempre bom ouvir suas impressões com o filme e as idéias frescos na cabeça. Ótima seleção de momentos do filme para suas metáforas!
Primeiro foi com A Noite. Agora esse. Romero e seus zumbis que nos aguarde agora!

sblogonoff café disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sblogonoff café disse...

Às vezes eu vejo um filme com apenas dois olhos! Sua opnião a respeito de filmes pra mim é sempre muito relevante e necessária.
Mas sabe, a genialidade desse filme é mais cinematográfica do que outra coisa. Para a vida o filme aniquila as flores que quero e teimo em cultivar.Existe cicatriz para as feridas.Existe música na vida, existem cactos, mas também primaveras. Eu tenho essa insistência em acreditar na luz no fim do túnel,no belo, nas flores no lixo, e esse filme aniquila tudo isso dentro da gente.
Sua crítica,pra variar foi brilhante, mas meu coração ainda prefere os finais que mesmo não sendo necessariamente felizes, nos dão esperança ou pelo menos possibilidades. Não é um processo ilusório, mas uma afimação menos pessimista.
Porque Darwin não falava apenas da sobrevalência dos fortes,mas daqueles que melhor se adaptaram. Quando não percebemos esperança ao nosso redor, a gente não se adapta. A gente sucumbe.
Contudo você está de parabéns pelo crítica. Muito precisa.
Estou pensando aqui...
Não é pra onde ir o importante.
Mas por que ir.

Demais!!!