Fernando terminou o banho sem pressa. À despeito de sua preocupação onisciente com o meio-ambiente e com o aquecimento global, permitiu-se deixar que a água caísse sobre o seu corpo enquanto podia pensar em nada. Arriscou escrever palavras no vidro do box embaçado, hábito que preservava desde a infância. Quando criança, sem computador, perdia horas desenhando histórias que não cabiam só em sua cabeça em outros vidros, durante outros banhos. Nem poderia imaginar que se tornaria escritor quase vinte anos depois.
Assoprou as chamas das velas acesas em seu amplo banheiro antes de sair e o quarto mergulhou na escuridão. Lembrou-se de abrir a janela e as luzes distantes da cidade levaram um clarão azulado para cada centímetro do ambiente. O relógio do alto do prédio no centro da cidade anunciava o final do dia e o cheiro que vinha da metrópole lhe era inconfundível: ia chover. Por hora, porém, ainda fazia um calor desafiador e insuportável, mesmo àquela hora da noite.
Minutos depois, de frente para o computador, checou mais uma vez a caixa de entrada do email. Conferiu seus perfis em tudo o que é rede social e não a encontrou. Fernando não acreditava mesmo que ela pudesse estar lá, decerto bebia e se divertia em outras salas de outras casas. Checou mais uma vez antes de abrir o editor de textos. A tela em branco era quase um tiro no meio de seus olhos. Tinha capítulos de sua monografia para entregar, mas por enquanto tudo o que precisava era escrever: o que?
Tudo o que fizera nos últimos anos era esperar. Uma espera lenta, dolorosa e doce, até que ela pudesse perceber de uma vez que tudo o que faltava na vida era ele. Pura pretensão, ele podia pensar às vezes, mas sem nunca esconder de si mesmo o fundo de verdade naquela esperança. Diziam seus amigos desde o início: ela só te faz sofrer, supera, há tantas outras por aí. Disso, Fernando sabia bem. E tinha cicatrizes para atestar os percalços daquela relação desencontrada. De vez em quando, as lamparinas de seu juízo acendiam e ele via que qualquer coisa que viesse dela não tinha futuro. Se ela nem mesmo era capaz de estar lá quando prometera, como é que ele podia lhe confiar a vida dessa maneira tão entregue e vulnerável?
O telefone não tocou e ele não pôde ouvir a música que colocara recentemente para uma ocasião como aquela. Fernando tinha sorte porque os pernilongos e outros insetos da primavera raramente conseguiam chegar até o décimo primeiro andar. Naquela altura, só lhe chegavam as ondas quentes de calor do universo. Era certamente o ano mais quente de toda a sua vida, mesmo que pudesse identificar em seu passado épocas mais intensas e calorosas, em outros sentidos. Agora, só sentia calor e vontade de voltar para o banho frio.
Sempre preferira o frio, do qual se pode proteger. Nas noites de temperaturas baixas, porém, gostava de deixar a janela aberta. Frio é pra se sentir, pensava. No calor, não podia evitar a natureza de seu corpo, derretendo-se em suor. Gastava litros de água transformada em gelo em pequenas garrafas ao lado do computador. Com a quentura inóspita do planeta Terra, parecia uma grande bobagem ele estar ali, à mercê de alguma sorte que pudesse existir. Burrice desmedida, qualquer um com um pingo de sensatez poderia lhe dizer. Mas ele só queria uma prova de que ela pudesse ter pensado nele durante um minuto sequer. E que ela pudesse construir na cabeça possibilidades de algo concreto, como ele não deixara de fazer um minuto desde que se desgrudaram desde a última vez. Amor mais incerto, deve ser mesmo burrice, arriscou falar alto, rindo-se depois do que acabara de dizer, talvez por não acreditar em uma só sílaba. Incerto não era, não podia ser. Era certo, só errava o tempo e a mira. Fernando olhou de novo pela janela aberta e viu que as nuvens carregadas davam um colorido amarelado e escuro para o céu. E se movimentavam rápido.
Organizou logo uma playlist para que sua solidão pudesse ser embalada por temas de outras histórias de amores não-correspondidos. Distraiu-se perdido na prateleira de livros e seus olhos só puderam alcançar o volume azul de Gabriel García Marquez. Fernando nem pôde evitar sorrir ao perceber como eram parecidas a sua história e a de Florentino Ariza, que esperou mais de meio século por sua amada. Ele, como o personagem, poderia esperar a vida toda. Só que não queria.
Era seu egoísmo que falava mais forte, embora soubesse que havia algo de nobre na decisão de Luísa de permanecer distante. Ela sabia que às vezes sua presença ensolarada causava temporais existenciais para os quais ele não tinha guarda-chuva. Pensou em mandar uma mensagem, só para instigá-la a responder. Mas naquela hora da noite, qualquer joguinho parecia tão sem sentido quanto a temperatura vertiginosamente alta numa noite de princípios de primavera.
Teve lampejos de ideias enquanto podia ouvir as músicas calmas que selecionara minutos antes. Escreveu parágrafos vãos, que seriam apagados logo em seguida. Foram minutos intensos e frenéticos e Fernando se surpreendeu quando sentiu uma gota quente atingir o seu peito nu. Pegou-se chorando lágrimas corriqueiras, que secaram como chuvas de verão. Lá fora, o temporal anunciado por dias nos noticiários caiu. Sem granizo, dessa vez. Mais uma vez, desistiu de esperar por ela. Mais uma vez, desistiu de desistir. E, pela décima nona vez, não sabia o que era mais tolo: implorar pela atenção dela ou fingir não se importar tanto assim. É, parece que qualquer uma das opções era mesmo idiota. Irracional como só o amor pode ser.
A manhã chegou e ela não apareceu.
What day is it?
and in what month?
oh, this clock never seemed so alive
I can't keep up
and I can't back down
I've been losing so much time
cause it's you and me and all of the people
with nothing to do
nothing to lose
and it's you and me and all of the people
and I don't know why
I can't keep my eyes off of you
All of the things that I want to say
just aren't coming out right
I'm tripping inwards
you got my head spinning
I don't know where to go from here
There's something about you now
I can't quite figure out
everything she does is beautiful
everything she does is right
you and me and all of the people
with nothing to do
nothing to lose
and it's you and me and all of the people
and I don't know why
I can't keep my eyes off of you
What day is it?
and in what month?
this clock never seemed so alive
Assoprou as chamas das velas acesas em seu amplo banheiro antes de sair e o quarto mergulhou na escuridão. Lembrou-se de abrir a janela e as luzes distantes da cidade levaram um clarão azulado para cada centímetro do ambiente. O relógio do alto do prédio no centro da cidade anunciava o final do dia e o cheiro que vinha da metrópole lhe era inconfundível: ia chover. Por hora, porém, ainda fazia um calor desafiador e insuportável, mesmo àquela hora da noite.Minutos depois, de frente para o computador, checou mais uma vez a caixa de entrada do email. Conferiu seus perfis em tudo o que é rede social e não a encontrou. Fernando não acreditava mesmo que ela pudesse estar lá, decerto bebia e se divertia em outras salas de outras casas. Checou mais uma vez antes de abrir o editor de textos. A tela em branco era quase um tiro no meio de seus olhos. Tinha capítulos de sua monografia para entregar, mas por enquanto tudo o que precisava era escrever: o que?
Tudo o que fizera nos últimos anos era esperar. Uma espera lenta, dolorosa e doce, até que ela pudesse perceber de uma vez que tudo o que faltava na vida era ele. Pura pretensão, ele podia pensar às vezes, mas sem nunca esconder de si mesmo o fundo de verdade naquela esperança. Diziam seus amigos desde o início: ela só te faz sofrer, supera, há tantas outras por aí. Disso, Fernando sabia bem. E tinha cicatrizes para atestar os percalços daquela relação desencontrada. De vez em quando, as lamparinas de seu juízo acendiam e ele via que qualquer coisa que viesse dela não tinha futuro. Se ela nem mesmo era capaz de estar lá quando prometera, como é que ele podia lhe confiar a vida dessa maneira tão entregue e vulnerável?
O telefone não tocou e ele não pôde ouvir a música que colocara recentemente para uma ocasião como aquela. Fernando tinha sorte porque os pernilongos e outros insetos da primavera raramente conseguiam chegar até o décimo primeiro andar. Naquela altura, só lhe chegavam as ondas quentes de calor do universo. Era certamente o ano mais quente de toda a sua vida, mesmo que pudesse identificar em seu passado épocas mais intensas e calorosas, em outros sentidos. Agora, só sentia calor e vontade de voltar para o banho frio.
Sempre preferira o frio, do qual se pode proteger. Nas noites de temperaturas baixas, porém, gostava de deixar a janela aberta. Frio é pra se sentir, pensava. No calor, não podia evitar a natureza de seu corpo, derretendo-se em suor. Gastava litros de água transformada em gelo em pequenas garrafas ao lado do computador. Com a quentura inóspita do planeta Terra, parecia uma grande bobagem ele estar ali, à mercê de alguma sorte que pudesse existir. Burrice desmedida, qualquer um com um pingo de sensatez poderia lhe dizer. Mas ele só queria uma prova de que ela pudesse ter pensado nele durante um minuto sequer. E que ela pudesse construir na cabeça possibilidades de algo concreto, como ele não deixara de fazer um minuto desde que se desgrudaram desde a última vez. Amor mais incerto, deve ser mesmo burrice, arriscou falar alto, rindo-se depois do que acabara de dizer, talvez por não acreditar em uma só sílaba. Incerto não era, não podia ser. Era certo, só errava o tempo e a mira. Fernando olhou de novo pela janela aberta e viu que as nuvens carregadas davam um colorido amarelado e escuro para o céu. E se movimentavam rápido.
Organizou logo uma playlist para que sua solidão pudesse ser embalada por temas de outras histórias de amores não-correspondidos. Distraiu-se perdido na prateleira de livros e seus olhos só puderam alcançar o volume azul de Gabriel García Marquez. Fernando nem pôde evitar sorrir ao perceber como eram parecidas a sua história e a de Florentino Ariza, que esperou mais de meio século por sua amada. Ele, como o personagem, poderia esperar a vida toda. Só que não queria.
Era seu egoísmo que falava mais forte, embora soubesse que havia algo de nobre na decisão de Luísa de permanecer distante. Ela sabia que às vezes sua presença ensolarada causava temporais existenciais para os quais ele não tinha guarda-chuva. Pensou em mandar uma mensagem, só para instigá-la a responder. Mas naquela hora da noite, qualquer joguinho parecia tão sem sentido quanto a temperatura vertiginosamente alta numa noite de princípios de primavera.
Teve lampejos de ideias enquanto podia ouvir as músicas calmas que selecionara minutos antes. Escreveu parágrafos vãos, que seriam apagados logo em seguida. Foram minutos intensos e frenéticos e Fernando se surpreendeu quando sentiu uma gota quente atingir o seu peito nu. Pegou-se chorando lágrimas corriqueiras, que secaram como chuvas de verão. Lá fora, o temporal anunciado por dias nos noticiários caiu. Sem granizo, dessa vez. Mais uma vez, desistiu de esperar por ela. Mais uma vez, desistiu de desistir. E, pela décima nona vez, não sabia o que era mais tolo: implorar pela atenção dela ou fingir não se importar tanto assim. É, parece que qualquer uma das opções era mesmo idiota. Irracional como só o amor pode ser.
A manhã chegou e ela não apareceu.
What day is it?
and in what month?
oh, this clock never seemed so alive
I can't keep up
and I can't back down
I've been losing so much time
cause it's you and me and all of the people
with nothing to do
nothing to lose
and it's you and me and all of the people
and I don't know why
I can't keep my eyes off of you
All of the things that I want to say
just aren't coming out right
I'm tripping inwards
you got my head spinning
I don't know where to go from here
There's something about you now
I can't quite figure out
everything she does is beautiful
everything she does is right
you and me and all of the people
with nothing to do
nothing to lose
and it's you and me and all of the people
and I don't know why
I can't keep my eyes off of you
What day is it?
and in what month?
this clock never seemed so alive
6 comentários:
"O poeta é um fingidor. Finge a dor que deveras sente".. não é isso mesmo? Muito profundo seu texto!! Bonito mesmo!! =) Só queria saber quem é a Luísa.. rs
Décima nona vez? Fernando é homem de sorte...Talvez seja a pouca idade que ele deve ter. Talvez, não. Às vezes, ele só foi, mesmo, menos infeliz...
"(...)
-Vc está bem disposto.
-Também sofri.
-Mas não se vê no rosto. Vc foi mais feliz...
-Dei mais sorte com a Beatriz.
(...)"
É a segunda vez que escrevo um trecho dessa música para pessoas completamente diferentes, estilos literários opostos, data de nascimento, então, "prefiro não comentar", rs. Será que tem um motivo?
Como sempre, perfeito. Pena vir, agora, em doses homeopáticas.
Ela que vá pro inferno! Anéim...
Adorei isso: "Incerto não era, não podia ser. Era certo, só errava o tempo e a mira."
Quando a alma quer, acho que não sepreocupa se o outro tem guarda-chuvas ou não. Porque o amor é irracional, é inconsequente. Se ele mede distancias, se ele faz fórmulas e inventa desculpas, pode até ser algo parecido com amor, mas não é esse amor dos inícios não. Esse amor dos ínicios é desmedido como o calor.
Eu sei, Sou uma dessas vadias, como alguém me disse dia desses! ;]
Cabeça quase nos pés e nuvens...
A chuva vem
São quase 42, dentro do quarto...
Nenhuma Luiza.
Inferno e fogo à luz da cidade.
E se você não me quiser?
Tanto faz???
So capaz de acostumar????
Tatá, eu queria só que a gente não precisasse sentir nada.
Como uma pessoa que prefere o frio se apaixona por uma presença ensolarada? Ah, os paradoxos do amor.
Belíssimo texto, Otavio. Adoro seus escritos. Beijos.
Parabéns pelos blogs, caro! Muito bons os conceitos e me define! te sigo, bem de perto!
Abraço
Don't miss the oc! ^^
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