Ele dirigiu depressa pela extensa avenida que levava à casa dela. Naquele momento, só queria chegar o mais rápido possível. O restaurante não seguraria a reserva por muito mais tempo, embora ele tivesse ligado pra avisar do pequeno atraso elegante. Por ser o aniversário dela, eles teriam que ser logo os primeiros a chegar. Bem antes de todos os amigos aflitos pelas novidades que brotaram nos ramos de saudade regados pelo tempo cruel do dia-a-dia, que lhes permitia bem menos contato agora que já eram gente grande.
Ele queria chegar rápido, pra evitar as discussões, pra evitar as explicações que teria que dar a todos, para aproveitar, acima de tudo, cada segundo da noite de sono que aguardava ansioso, desde o momento em que acordara de uma madrugada turva para trabalhar. Era uma dorzinha de cabeça que sentia, da qual também não pretendia mencionar. Tudo teria que ser fácil. Pegar Laura na casa dela, levá-la ao restaurante, aguentar duas ou três horas de uma comida que ele não queria comer e devolver sorrisos pra quem, tão-somente naquela ocasião, ele não queria sorrir.
Ele queria chegar rápido para vê-la, como se fossem de novo dois adolescentes ingênuos e apaixonados intimidados pelas amarguras da inexperiência, e como se não houvesse passado, desde aqueles primeiros dias, apenas um par de anos. Mas tanto mudara. A silhuetas de ambos já traziam apenas nas memórias os contornos juvenis de outrora, embora apresentassem ainda um vigor implacável, nos melhores dias. Mas aquele nem era um dos melhores dias.
Ele queria chegar pra poder dizê-la da grande ideia que tivera, produto de um pensamento que ficara horas a fio em engrenagens. Tanto que haviam discutido sobre aquele assunto, meses atrás de maneira despretensiosa e utópica. Agora, para ele era coisa séria. Tinha se tornado tão sério assim como as contas que passou a pagar com o próprio dinheiro, tendo libertado, de uma vez por todas os pais do peso de sustentar mais um filho pela vida. Formar-se na faculdade teria sido distante e tão diferente nos sonhos infantis. Neste momento, mais do que tudo, era sua realidade. Não só a formatura. Mas o emprego que conseguira quando já havia desistido - embora fosse ainda um bacharel recém-diplomado. O emprego, o carro, os planos de comprar logo um apartamento. Os planos de pagar prestações a perder de vista por uma geladeira nova, um laptop e uma televisão maior e mais fina.
Ele queria chegar logo porque sabia que o grande momento do dia - auge da semana, estava convencido - seria o momento exato em que colocaria seus olhos sobre os dela. Os olhos sem maquiagem e cheios de dúvida. O corpo enrolado na toalha, atrasada como deveria ser se fosse mesmo a Laura. Aquela Laura, sua Laura. Sua. Ele sabia que corria, ignorando até mesmo o vermelho dos semáforos nos cruzamentos mais desertos com uma displicência tardia, para vê-la. E então toda a insatisfação e frustração em relação ao movimento lento do destino se escorreria, se esvaziaria até não restar mais nada no mundo. E valia a pena, mesmo que os segundos insistissem em passar, mesmo que tivesse que ir para aquele restaurante, comer aquela comida e rir para aquelas pessoas. Mesmo pela dor de cabeça insistente e pontiaguda.
E valeu. Quando se encontraram, um relâmpago de consciência invadiu as almas de ambos e fez tudo fazer sentido. Talvez tenha passado despercebido pra ela, naquele momento, mas seria algo de que iria se lembrar para sempre. Ele, de uma maneira um pouco diversa, nunca esqueceria. Assim como não haviam se amarelado as páginas da memória em que constava escrita em caligrafia imaculada as histórias dos primeiros encontros. Chocolates belgas de sabores sofisticados, chocolates brancos de doçura incomparável, chocolates suíços de uma suavidade intensa e romântica...
- Você ainda não tá pronta.
- Claro que não, não tem nem cinco minutos que o povo saiu pro casamento.
- Tem certeza mesmo que não quer ir no casamento?
- Tenho, Eduardo. Já te falei. Ai, que saco, cadê meu brinco?
- É esse aqui?
- É. Brigada. Vou terminar de arrumar e já volto. Coloca uma música aí.
- Não precisa.
Não precisava. O barulho da simples existência de Laura vibrava sinfonias nos ouvidos de Eduardo, apesar de todos os contratempos inconvenientes do cotidiano. Ela era tudo o que ele mais amava. As fotos dos dois ainda no início do namoro pregadas na parede da casa dos pais de Laura provocaram um riso, como sempre faziam, na face do jovem. Ali estava ele, gravado pra sempre na vida dela. Já pertencia àquela família e se sentia em casa naquele lugar. Até o cachorro Reginaldo, falecido apenas alguns meses antes, já lhe considerava um amo.
- Tá bom esse vestido?
Azul. Um pouco curto, exatamente do jeito que ele gostava. Alças firmas e finas sobre os ombros graciosos de Laura. Eduardo não conseguiu evitar o sorriso e se surpreendeu no mesmo segundo com a maneira com que perdera, já há alguns minutos, a total noção das horas, e também a simples necessidade de ter a noção. Não retomou a consciência adulta, no entanto. Apenas sustentou o riso, por segundos demais, até que Laura fechou a cara e saiu. Ele ensaiou uma perseguição, mas sabia que não haveria como contornar as consequências daquele riso fora de hora.
- Tá lindo, Laura.
- Tá nada - ela disse, do lado de lá da porta de madeira que os separava, no final do corredor, onde era o quarto dela.
O quarto de Laura era exatamente como sua personalidade: difícil de definir. Entre ursos de pelúcia e bonecas enfeitadas em caixas de plástico cor-de-rosa claro, se exibiam pôsteres de bandas obscuras de hard rock e miniaturas de super-heroínas. Revistas de moda, comportamento e livros de García Marquez. Cada milímetro cúbico daquela atmosfera comprovava aquilo que Eduardo não precisava se esforçar para saber. Era louco por aquela garota. E sempre seria, não importa o que houvesse.
- Edu, acho que meu celular tá tocando lá na sala.
- Não tá não, não to ouvindo nada.
- Tá sim. Ele tá no silencioso.
Estava. Uma chamada perdida de Luciana sob as almofadas de crochê espalhadas pelo tapete-de-ver-filme. Provavelmente a melhor amiga do casal já havia chegado ao restaurante. Ansiosa como não podia deixar de ser, Luciana havia ligado. Não compensava retornar a ligação, já que minutos mais tarde a amiga insistiria. E insistiu. E Eduardo desligou antes que a intuição de Laura a fizesse perceber, a metros de distância, através de paredes, que o seu celular estava vibrando novamente. Calmamente, o jovem colocou o aparelho no mesmo lugar em que achara, sob almofadas.
- Não achei seu telefone, Laura.
- Deixa, depois eu olho, to terminando...
- Falta quanto tempo? - ele brincou?
No mesmo instante, ela abriu a porta.
- Melhor?
Eduardo era completamente incapaz de comparar Laura com ela mesma. Não importava a roupa que vestisse, o perfume que usasse, a cor de cabelo que inventasse de usar: ela era sempre perfeita pra ele. Entretanto, o senso prático de Eduardo o avisou rapidamente que era melhor ter uma reação verbal, ou mesmo corporal ou minimamente nervosa, que não fosse desagradá-la.
- Bem melhor. Vamos?
- A gente tá atrasado, né?
- Só um pouco.
Por que diabos ele tinha que usar aquela sua maldita ironia estúpida justo naquele momento? Foi o bastante para que Laura lhe soterrasse com aquele olhar que-não-deve-ser-nomeado, tão comum. Teimosa, como ela só. Insistente, orgulhosa e reclamona. As melhores três piores características que alguém poderia ter. Alguém, não! Ela, só ela. Ela que, com sua arrogância imatura, se recusava a assumir para ela - ainda menos para ele - que o que sentia por ele, não desde o início, mas tempo o suficiente para ter certeza, era um amor inegável, absoluto e incômodo. Laura demorara a verbalizar seus sentimentos, até que, sem querer, deixou escapar aquelas palavrinhas quando ele acabara de virar as costas, após a despedida, num dos encontros do primeiro ano do carrossel de emoções que viveram.
Se Eduardo pudesse ter enxergado, mesmo que por um relance, sua vida agora, nunca teria acreditado que aquele tempo passado, então presente, era complicado. E ela, com sua mania de simplificar, sempre embalsamava as angústias dele nos piores tempos. No início, ele acreditava que era ingenuidade aquela tendência da moça de acreditar na autorregulação das coisas, de sempre crer na simplicidade da vida. Eduardo tivera provas, momentos depois, sobretudo nas adversidades menos generosas, que não era ingenuidade, mas uma sabedoria imensa. E não era uma mania de simplificar as coisas, e sim de encarar a inevitável complexidade dos obstáculos da vida de maneira serena. Como ele aprendera com ela...
- Tá meio frio, eu acho! Vou pegar uma blusa - ela disse, milímetros antes de cruzarem a porta da rua.
Laura deu meia-volta. Eduardo calculou, ingenuamente, 30 segundos para que ela entrasse no quarto, localizasse o melhor agasalho para os ventos do meio do outono que amenizavam a insolitude do calor do último verão, e voltasse correndo para ele, consciente do adiantado da hora. Ele sabia, e como sabia, porém, que 30 segundos nunca eram o bastante. Não que ela fosse, de maneira fútil, vaidosa. Mas ela se cuidava. Sabia se vestir. Sabia exatamente qual peça de roupa usar, de acordo com a formalidade da ocasião. Era tão linda, a sua menina.
Eduardo se sentou no sofá. O mesmo sofá onde assistiram tantos filmes juntos, entre beijos apaixonados, mãos sagazes e olhares desconfiados do pai de Laura. Refestelando-se no aconchego acolchoado daquelas memórias, pôde ouvir pensamentos em forma de canções. "If i could change the world, I would be the sunlight in your universe". Haviam sido os versos de Eric Clapton transcritos em letras engarranchadas sobre pautas de cadernos que a haviam conquistado, segundo o que Eduardo acreditava. Ele é que não desconfiava que havia acontecido muito antes, quando do primeiro olhar, a certeza na vida de uma Laura independente e sabidamente insensível de que havia chegado a sua hora.
Para ela, ele era bem mais encantador do que ele jamais poderia crer. Seus cabelos insistentemente desarmonizados, seu rosto de feições duras e, ao mesmo tempo, doces. Sua atmosfera sutil, frágil, intelectual. Ela lutou batalhas perdidas contra o sentimento que se desenvolvera como pólvora em chamas. Era inevitável. Os dois eram inevitáveis. Mesmo pertencendo a mundos diferentes, com pensamentos, gostos e molduras diferentes. Com culturas, bagagens e conteúdos diferentes. Era inevitável que acontecesse. E aconteceu. Agora, anos depois, ele despretensiosamente caía no sono sentado no sofá, esperando por ela.
Laura saiu do quarto com um pouco de pressa. Sabia que já havia abusado da paciência de Eduardo. Sabia também que ele não queria ir para aquele restaurante comer aquela comida e rir para aquelas pessoas. Sabia que há muitas noites ele não dormia bem, pensando nas frustrações presentes nos sonhos que ainda não havia conseguido realizar. Era sede de vida, o que ele tinha. Vontade de que tudo acontecesse ao mesmo tempo. O que é que iria ser do resto da vida se todos os sonhos fossem realizados ao mesmo tempo?
Laura sorriu, olhando para ele. Num súbito, Eduardo acordou em um solavanco, sentindo a vibração do celular escondido embaixo das almofadas por debaixo da sua perna direita. Recobrando a consciência em milissegundos, ele pegou o celular. Antes que pudesse se lembrar de qual era o procedimento-padrão naquela situação, Laura - com o sorriso já escondido, como mandava ser sua personalidade - apanhou o celular e atendeu.
- Oi, Lu. Não, a gente já tá chegando sim. É que o Eduardo esqueceu os documentos do carro e a gente teve que dar uma volta pra buscar, na casa dele. A gente chega em 10 minutos. Não, 5, já tamo aqui no cruzamento da Belisário Filho com a Moura Neto. É. Beijo.
Os dois se olharam com uma cumplicidade que nunca poderiam explicar. Era inevitável que sentissem um pelo outro... Mas o orgulho dela e o amor-próprio dele sempre davam um jeito de pregar peças no amor.
- Pra que que você mentiu pra Luciana?
- Eu não menti, a gente já tá indo mesmo.
- Você falou que a gente ia chegar em 10 minutos.
- Ai, não tem trânsito, Eduardo, a gente chega rápido.
- Mas eu não esqueci documento nenhum. Você sabe que eu não esqueci. A Lu também sabe. Eu nunca esqueço. Eu checo meu bolso 20 vezes antes de pegar a chave do carro.
- Ai, Eduardo, esquece.
- A culpa foi sua. Cê não ia só pegar o casaco?
- Acontece que não se usa blusa de frio com vestido. Tive que mudar a roupa toda.
- Laura, pra que? Vai tá lá só o povo de sempre.
- E daí? Eu não to vestindo pra eles.
- Tá vestindo pra quem, então? Pra mim? Eu conheço todas as suas roupas.
- Que pra você o que, Eduardo? Pra mim, ue.
- Então tá, vamo logo.
- Que que tem lá de comer? Eu to com fome? Não é melhor a gente comer aqui antes?
- Não, Laura, vai atrasar mais.
- Mas o que que tem pra comer lá? Cê sabe que eu não gosto de comida de restaurante.
- Eu sei.
- Acho que eu vou comer um pedaço de frango do almoço.
- Acho que lá serve massa.
- Massa?
- É, massa. Tipo lasanha, sei lá. Massa.
- Massa engorda.
- E frango não?
- Ai, Eduardo, que chatice.
Laura foi para a cozinha, com uma naturalidade ímpar. Eduardo voltou a se sentar no sofá, com a visível insatisfação de ter perdido uma discussão. Ele sabia, porém, que não adiantariam argumentos, naquele instante. "And you would think my love was really something good, baby if I could... change the world", ele cantarolou baixinho, imitando a primeira vez que cantara pra ela, com aquele violão velho e empenado em mãos, fingindo-se de rockstar quando ainda lhe restava tempo pra acreditar nos sonhos que a vida adulta descartava. Quando percebeu que a aventura da cozinha de Laura ia demorar mais do que cinco minutos, entregou-se às almofadas, tomando o cuidado de desligar de uma vez por todas o telefone celular da namorada, bem como o seu próprio. "If I could be king, I'd take you as my queen..."
Eduardo sonhou por intermináveis eternidades com Laura. Há muito, todos os motivos impostos pela sua consciência pessimista para que o relacionamento dos dois não pudesse dar certo, anos antes, eram apenas farelos pelo chão, como uma paisagem em vista aérea. Quanto tempo ele ficou dormindo-acordado-sonhando naquele sofá, nunca seria possível saber. Quando Eduardo recuperou goles de consciência, abrindo os olhos, estava escuro. Um filme qualquer com John Travolta estava passando na televisão. Ao seu lado, sob um cobertor, estava a mesma Laura linda, sem maquiagem, usando moletom de dormir, completamente satisfeita com o fato de apenas estar ali, ao lado do namorado. Eduardo fechou de novo os olhos, antes que a garota pudesse perceber que ele estava acordado. Certamente, ela iria fechar a cara e culpá-lo por terem se atrasado e jogar nele o fardo de uma noite perdida. Certamente, naquele instante, ele imaginou que ela havia percebido que ele já estava desperto e já preparava seu discurso... Mas ele foi, mais uma vez, surpreendido.
- Eu te amo - ela sussurrou bem de perto, totalmente ciente que ele já estava acordado.
Eduardo abriu os olhos de uma vez por todas e fez questão de mostrar um sorriso sincero e enternecido.
- Eu nem queria mesmo ir - ela continuou, sabendo que poderia ter evitado horas de tempo perdido. Para ela - e para ele também, no fundo - aquele tempo nunca estaria perdido, porém.
Eduardo aconchegou a cabeça no ombro de Laura e os dois, alheios ao filme na TV, à turma no restaurante que, àquela hora, já poderia imaginar o que havia acontecido aos dois, e a tudo mais, imergiram no próprio sentimento inevitável, que os unia.
- O que você acha de Anna - ele reagiu, sonolento.
- Que? - ela não poderia fazer ideia do que ele estava falando.
- Anna. O nome da nossa filha, que a gente tava discutindo outro dia.
- Anna?
- É. Com dois enes. Fácil de escrever, ao mesmo tempo simples e sofisticado. E ela vai ser a primeira da lista de chamada no colégio também.
- Eu gosto. Anna e Eric. Um casal.
- Anna e Eric...
Era inevitável amar. Era inevitável dormir. E dormiram.
Ele queria chegar rápido, pra evitar as discussões, pra evitar as explicações que teria que dar a todos, para aproveitar, acima de tudo, cada segundo da noite de sono que aguardava ansioso, desde o momento em que acordara de uma madrugada turva para trabalhar. Era uma dorzinha de cabeça que sentia, da qual também não pretendia mencionar. Tudo teria que ser fácil. Pegar Laura na casa dela, levá-la ao restaurante, aguentar duas ou três horas de uma comida que ele não queria comer e devolver sorrisos pra quem, tão-somente naquela ocasião, ele não queria sorrir.
Ele queria chegar rápido para vê-la, como se fossem de novo dois adolescentes ingênuos e apaixonados intimidados pelas amarguras da inexperiência, e como se não houvesse passado, desde aqueles primeiros dias, apenas um par de anos. Mas tanto mudara. A silhuetas de ambos já traziam apenas nas memórias os contornos juvenis de outrora, embora apresentassem ainda um vigor implacável, nos melhores dias. Mas aquele nem era um dos melhores dias.
Ele queria chegar pra poder dizê-la da grande ideia que tivera, produto de um pensamento que ficara horas a fio em engrenagens. Tanto que haviam discutido sobre aquele assunto, meses atrás de maneira despretensiosa e utópica. Agora, para ele era coisa séria. Tinha se tornado tão sério assim como as contas que passou a pagar com o próprio dinheiro, tendo libertado, de uma vez por todas os pais do peso de sustentar mais um filho pela vida. Formar-se na faculdade teria sido distante e tão diferente nos sonhos infantis. Neste momento, mais do que tudo, era sua realidade. Não só a formatura. Mas o emprego que conseguira quando já havia desistido - embora fosse ainda um bacharel recém-diplomado. O emprego, o carro, os planos de comprar logo um apartamento. Os planos de pagar prestações a perder de vista por uma geladeira nova, um laptop e uma televisão maior e mais fina.
Ele queria chegar logo porque sabia que o grande momento do dia - auge da semana, estava convencido - seria o momento exato em que colocaria seus olhos sobre os dela. Os olhos sem maquiagem e cheios de dúvida. O corpo enrolado na toalha, atrasada como deveria ser se fosse mesmo a Laura. Aquela Laura, sua Laura. Sua. Ele sabia que corria, ignorando até mesmo o vermelho dos semáforos nos cruzamentos mais desertos com uma displicência tardia, para vê-la. E então toda a insatisfação e frustração em relação ao movimento lento do destino se escorreria, se esvaziaria até não restar mais nada no mundo. E valia a pena, mesmo que os segundos insistissem em passar, mesmo que tivesse que ir para aquele restaurante, comer aquela comida e rir para aquelas pessoas. Mesmo pela dor de cabeça insistente e pontiaguda.
E valeu. Quando se encontraram, um relâmpago de consciência invadiu as almas de ambos e fez tudo fazer sentido. Talvez tenha passado despercebido pra ela, naquele momento, mas seria algo de que iria se lembrar para sempre. Ele, de uma maneira um pouco diversa, nunca esqueceria. Assim como não haviam se amarelado as páginas da memória em que constava escrita em caligrafia imaculada as histórias dos primeiros encontros. Chocolates belgas de sabores sofisticados, chocolates brancos de doçura incomparável, chocolates suíços de uma suavidade intensa e romântica...
- Você ainda não tá pronta.
- Claro que não, não tem nem cinco minutos que o povo saiu pro casamento.
- Tem certeza mesmo que não quer ir no casamento?
- Tenho, Eduardo. Já te falei. Ai, que saco, cadê meu brinco?
- É esse aqui?
- É. Brigada. Vou terminar de arrumar e já volto. Coloca uma música aí.
- Não precisa.
Não precisava. O barulho da simples existência de Laura vibrava sinfonias nos ouvidos de Eduardo, apesar de todos os contratempos inconvenientes do cotidiano. Ela era tudo o que ele mais amava. As fotos dos dois ainda no início do namoro pregadas na parede da casa dos pais de Laura provocaram um riso, como sempre faziam, na face do jovem. Ali estava ele, gravado pra sempre na vida dela. Já pertencia àquela família e se sentia em casa naquele lugar. Até o cachorro Reginaldo, falecido apenas alguns meses antes, já lhe considerava um amo.
- Tá bom esse vestido?
Azul. Um pouco curto, exatamente do jeito que ele gostava. Alças firmas e finas sobre os ombros graciosos de Laura. Eduardo não conseguiu evitar o sorriso e se surpreendeu no mesmo segundo com a maneira com que perdera, já há alguns minutos, a total noção das horas, e também a simples necessidade de ter a noção. Não retomou a consciência adulta, no entanto. Apenas sustentou o riso, por segundos demais, até que Laura fechou a cara e saiu. Ele ensaiou uma perseguição, mas sabia que não haveria como contornar as consequências daquele riso fora de hora.
- Tá lindo, Laura.
- Tá nada - ela disse, do lado de lá da porta de madeira que os separava, no final do corredor, onde era o quarto dela.
O quarto de Laura era exatamente como sua personalidade: difícil de definir. Entre ursos de pelúcia e bonecas enfeitadas em caixas de plástico cor-de-rosa claro, se exibiam pôsteres de bandas obscuras de hard rock e miniaturas de super-heroínas. Revistas de moda, comportamento e livros de García Marquez. Cada milímetro cúbico daquela atmosfera comprovava aquilo que Eduardo não precisava se esforçar para saber. Era louco por aquela garota. E sempre seria, não importa o que houvesse.
- Edu, acho que meu celular tá tocando lá na sala.
- Não tá não, não to ouvindo nada.
- Tá sim. Ele tá no silencioso.
Estava. Uma chamada perdida de Luciana sob as almofadas de crochê espalhadas pelo tapete-de-ver-filme. Provavelmente a melhor amiga do casal já havia chegado ao restaurante. Ansiosa como não podia deixar de ser, Luciana havia ligado. Não compensava retornar a ligação, já que minutos mais tarde a amiga insistiria. E insistiu. E Eduardo desligou antes que a intuição de Laura a fizesse perceber, a metros de distância, através de paredes, que o seu celular estava vibrando novamente. Calmamente, o jovem colocou o aparelho no mesmo lugar em que achara, sob almofadas.
- Não achei seu telefone, Laura.
- Deixa, depois eu olho, to terminando...
- Falta quanto tempo? - ele brincou?
No mesmo instante, ela abriu a porta.
- Melhor?
Eduardo era completamente incapaz de comparar Laura com ela mesma. Não importava a roupa que vestisse, o perfume que usasse, a cor de cabelo que inventasse de usar: ela era sempre perfeita pra ele. Entretanto, o senso prático de Eduardo o avisou rapidamente que era melhor ter uma reação verbal, ou mesmo corporal ou minimamente nervosa, que não fosse desagradá-la.
- Bem melhor. Vamos?
- A gente tá atrasado, né?
- Só um pouco.
Por que diabos ele tinha que usar aquela sua maldita ironia estúpida justo naquele momento? Foi o bastante para que Laura lhe soterrasse com aquele olhar que-não-deve-ser-nomeado, tão comum. Teimosa, como ela só. Insistente, orgulhosa e reclamona. As melhores três piores características que alguém poderia ter. Alguém, não! Ela, só ela. Ela que, com sua arrogância imatura, se recusava a assumir para ela - ainda menos para ele - que o que sentia por ele, não desde o início, mas tempo o suficiente para ter certeza, era um amor inegável, absoluto e incômodo. Laura demorara a verbalizar seus sentimentos, até que, sem querer, deixou escapar aquelas palavrinhas quando ele acabara de virar as costas, após a despedida, num dos encontros do primeiro ano do carrossel de emoções que viveram.
Se Eduardo pudesse ter enxergado, mesmo que por um relance, sua vida agora, nunca teria acreditado que aquele tempo passado, então presente, era complicado. E ela, com sua mania de simplificar, sempre embalsamava as angústias dele nos piores tempos. No início, ele acreditava que era ingenuidade aquela tendência da moça de acreditar na autorregulação das coisas, de sempre crer na simplicidade da vida. Eduardo tivera provas, momentos depois, sobretudo nas adversidades menos generosas, que não era ingenuidade, mas uma sabedoria imensa. E não era uma mania de simplificar as coisas, e sim de encarar a inevitável complexidade dos obstáculos da vida de maneira serena. Como ele aprendera com ela...
- Tá meio frio, eu acho! Vou pegar uma blusa - ela disse, milímetros antes de cruzarem a porta da rua.
Laura deu meia-volta. Eduardo calculou, ingenuamente, 30 segundos para que ela entrasse no quarto, localizasse o melhor agasalho para os ventos do meio do outono que amenizavam a insolitude do calor do último verão, e voltasse correndo para ele, consciente do adiantado da hora. Ele sabia, e como sabia, porém, que 30 segundos nunca eram o bastante. Não que ela fosse, de maneira fútil, vaidosa. Mas ela se cuidava. Sabia se vestir. Sabia exatamente qual peça de roupa usar, de acordo com a formalidade da ocasião. Era tão linda, a sua menina.
Eduardo se sentou no sofá. O mesmo sofá onde assistiram tantos filmes juntos, entre beijos apaixonados, mãos sagazes e olhares desconfiados do pai de Laura. Refestelando-se no aconchego acolchoado daquelas memórias, pôde ouvir pensamentos em forma de canções. "If i could change the world, I would be the sunlight in your universe". Haviam sido os versos de Eric Clapton transcritos em letras engarranchadas sobre pautas de cadernos que a haviam conquistado, segundo o que Eduardo acreditava. Ele é que não desconfiava que havia acontecido muito antes, quando do primeiro olhar, a certeza na vida de uma Laura independente e sabidamente insensível de que havia chegado a sua hora.Para ela, ele era bem mais encantador do que ele jamais poderia crer. Seus cabelos insistentemente desarmonizados, seu rosto de feições duras e, ao mesmo tempo, doces. Sua atmosfera sutil, frágil, intelectual. Ela lutou batalhas perdidas contra o sentimento que se desenvolvera como pólvora em chamas. Era inevitável. Os dois eram inevitáveis. Mesmo pertencendo a mundos diferentes, com pensamentos, gostos e molduras diferentes. Com culturas, bagagens e conteúdos diferentes. Era inevitável que acontecesse. E aconteceu. Agora, anos depois, ele despretensiosamente caía no sono sentado no sofá, esperando por ela.
Laura saiu do quarto com um pouco de pressa. Sabia que já havia abusado da paciência de Eduardo. Sabia também que ele não queria ir para aquele restaurante comer aquela comida e rir para aquelas pessoas. Sabia que há muitas noites ele não dormia bem, pensando nas frustrações presentes nos sonhos que ainda não havia conseguido realizar. Era sede de vida, o que ele tinha. Vontade de que tudo acontecesse ao mesmo tempo. O que é que iria ser do resto da vida se todos os sonhos fossem realizados ao mesmo tempo?
Laura sorriu, olhando para ele. Num súbito, Eduardo acordou em um solavanco, sentindo a vibração do celular escondido embaixo das almofadas por debaixo da sua perna direita. Recobrando a consciência em milissegundos, ele pegou o celular. Antes que pudesse se lembrar de qual era o procedimento-padrão naquela situação, Laura - com o sorriso já escondido, como mandava ser sua personalidade - apanhou o celular e atendeu.
- Oi, Lu. Não, a gente já tá chegando sim. É que o Eduardo esqueceu os documentos do carro e a gente teve que dar uma volta pra buscar, na casa dele. A gente chega em 10 minutos. Não, 5, já tamo aqui no cruzamento da Belisário Filho com a Moura Neto. É. Beijo.
Os dois se olharam com uma cumplicidade que nunca poderiam explicar. Era inevitável que sentissem um pelo outro... Mas o orgulho dela e o amor-próprio dele sempre davam um jeito de pregar peças no amor.
- Pra que que você mentiu pra Luciana?
- Eu não menti, a gente já tá indo mesmo.
- Você falou que a gente ia chegar em 10 minutos.
- Ai, não tem trânsito, Eduardo, a gente chega rápido.
- Mas eu não esqueci documento nenhum. Você sabe que eu não esqueci. A Lu também sabe. Eu nunca esqueço. Eu checo meu bolso 20 vezes antes de pegar a chave do carro.
- Ai, Eduardo, esquece.
- A culpa foi sua. Cê não ia só pegar o casaco?
- Acontece que não se usa blusa de frio com vestido. Tive que mudar a roupa toda.
- Laura, pra que? Vai tá lá só o povo de sempre.
- E daí? Eu não to vestindo pra eles.
- Tá vestindo pra quem, então? Pra mim? Eu conheço todas as suas roupas.
- Que pra você o que, Eduardo? Pra mim, ue.
- Então tá, vamo logo.
- Que que tem lá de comer? Eu to com fome? Não é melhor a gente comer aqui antes?
- Não, Laura, vai atrasar mais.
- Mas o que que tem pra comer lá? Cê sabe que eu não gosto de comida de restaurante.
- Eu sei.
- Acho que eu vou comer um pedaço de frango do almoço.
- Acho que lá serve massa.
- Massa?
- É, massa. Tipo lasanha, sei lá. Massa.
- Massa engorda.
- E frango não?
- Ai, Eduardo, que chatice.
Laura foi para a cozinha, com uma naturalidade ímpar. Eduardo voltou a se sentar no sofá, com a visível insatisfação de ter perdido uma discussão. Ele sabia, porém, que não adiantariam argumentos, naquele instante. "And you would think my love was really something good, baby if I could... change the world", ele cantarolou baixinho, imitando a primeira vez que cantara pra ela, com aquele violão velho e empenado em mãos, fingindo-se de rockstar quando ainda lhe restava tempo pra acreditar nos sonhos que a vida adulta descartava. Quando percebeu que a aventura da cozinha de Laura ia demorar mais do que cinco minutos, entregou-se às almofadas, tomando o cuidado de desligar de uma vez por todas o telefone celular da namorada, bem como o seu próprio. "If I could be king, I'd take you as my queen..."
Eduardo sonhou por intermináveis eternidades com Laura. Há muito, todos os motivos impostos pela sua consciência pessimista para que o relacionamento dos dois não pudesse dar certo, anos antes, eram apenas farelos pelo chão, como uma paisagem em vista aérea. Quanto tempo ele ficou dormindo-acordado-sonhando naquele sofá, nunca seria possível saber. Quando Eduardo recuperou goles de consciência, abrindo os olhos, estava escuro. Um filme qualquer com John Travolta estava passando na televisão. Ao seu lado, sob um cobertor, estava a mesma Laura linda, sem maquiagem, usando moletom de dormir, completamente satisfeita com o fato de apenas estar ali, ao lado do namorado. Eduardo fechou de novo os olhos, antes que a garota pudesse perceber que ele estava acordado. Certamente, ela iria fechar a cara e culpá-lo por terem se atrasado e jogar nele o fardo de uma noite perdida. Certamente, naquele instante, ele imaginou que ela havia percebido que ele já estava desperto e já preparava seu discurso... Mas ele foi, mais uma vez, surpreendido.
- Eu te amo - ela sussurrou bem de perto, totalmente ciente que ele já estava acordado.
Eduardo abriu os olhos de uma vez por todas e fez questão de mostrar um sorriso sincero e enternecido.
- Eu nem queria mesmo ir - ela continuou, sabendo que poderia ter evitado horas de tempo perdido. Para ela - e para ele também, no fundo - aquele tempo nunca estaria perdido, porém.
Eduardo aconchegou a cabeça no ombro de Laura e os dois, alheios ao filme na TV, à turma no restaurante que, àquela hora, já poderia imaginar o que havia acontecido aos dois, e a tudo mais, imergiram no próprio sentimento inevitável, que os unia.
- O que você acha de Anna - ele reagiu, sonolento.
- Que? - ela não poderia fazer ideia do que ele estava falando.
- Anna. O nome da nossa filha, que a gente tava discutindo outro dia.
- Anna?
- É. Com dois enes. Fácil de escrever, ao mesmo tempo simples e sofisticado. E ela vai ser a primeira da lista de chamada no colégio também.
- Eu gosto. Anna e Eric. Um casal.
- Anna e Eric...
Era inevitável amar. Era inevitável dormir. E dormiram.
If I could reach the stars I'd pull one down for you
Shine it on my heart so you could see the truth
That this love I have inside is everything it seems
But for now I find it's only in my dreams
That I can change the world
I would be the sunlight in your universe
You will think my love was really something good
Baby if I could change the world
If I could be king even for a day
I'd take you as my queen I'd have it no other way
And our love will rule in this kingdom we have made
Till then I'd be a fool wishin' for the day
That I can change the world
I would be the sunlight in your universe
You will think my love was really something good
Baby if I could change the world
Baby if I could change the world
5 comentários:
Nó!
Que vontade vir ler esse conto! Agora não posso. Passei para desejar feliz aniversário, mesmo sem saber o dia certo. É que fui convidado para a comemoração, sabia???? Pena não ter podido ir...O encontro seria... Seria estranho, depois travado, depois diferente, depois legal, depois eufórico. Eu acho assim...
Beijos, até "lá".
AH! Acho que todo mundo que amam ou amou alguém e tem a minha, sua tb sensibilidade não vê um texto, mas um episódio de seriado com entrelinhas e vários offs imaginados.
Esse texto tá lindo, devia ser um filme. Romance sim, não tem nada de demodé, romance é o que falta no mundo...
Certas coisas são apenas inevitáeveis,, o problema é aceitá-las...
Sabe, reclamaram comigo de eu sempre evitar não cumprir os compromissos. Eu, no lugar dele, teria feito um escarcéu e teria ido ao restaurante, mesmo sem querer. Será por nunca ter amado o bastante ou será que por tolice?
Evitar o inevitável...
Sou da vida, pertenço à ela, os amores me consomem e eu consumo o tempo.
Mas será Santiago o nome do meu filho!
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