17 de mar. de 2009

042: Olê, olê, olê, olê, kea-nê, kea-nê

Show

Numa semana abençoada de 2004, tive um momento musical desses que nos muda a vida eternamente. Não digo que é algo como ouvir Beatles pela primeira vez por que, pelo menos no meu caso, não consigo lembrar de um dia na minha vida em que eu já não houvesse ouvido uma música do quarteto. Mas decerto foi um momento em que testemunhei, pra meu próprio desfrute, o nascimento da década de dois mil no meu repertório musical alicercado na produção pop e pós-gótica dos anos 80. Foi na semana em que, coincidentemente, adquiri quatro álbuns lançados há pouco tempo, de bandas diferentemente rotuladas, de partes diversas do mundo, com influências diferentes: Hot Fuss (The Killers), Get Born (Jet), Songs about Jane (Maroon 5) e Hopes and Fears (Keane).

Obviamente, com o passar do tempo, muitas outras bandas doismilistas entraram e saíram do meu cd player e posteriormente meu mp3 (citando Franz Ferdinand, The Strokes e outros delírios indie-pop - sendo o pop por força do público mais do que pelo estigma), mas essas quatro nunca deixaram de habitar minha infinite-playlist. The Killers costumava ser a minha preferida dentre todas, com seus sintetizadores poderosos, letras nostálgicas e a incrível capacidade de se encaixar perfeitamente na trilha-sonora da minha vida de seriado americano.

O ponteiro dos meses deu mais volta e meia e os quatro conjuntos musicais lançaram, um a um, seus segundos álbuns, entre coletâneas, extras e material ao vivo. Sam's Town, do The Killers, não me tocou tão profundamente quanto Hot Fuss, talvez (muito provavelmente, aliás) pelo fato de que minha fase de adolescente sofredor e nostálgico também tivesse ido embora com meus textos reflexivos de um blog perdido quando meu HD queimou. It won't be soon before long, segundo cedê do Maroon 5, ainda teve algum fôlego e conseguiu me animar a comparecer a um show da banda, que entre as quatro é a que mais coleciona cliques nas galerias fotográficas do mundo pop, no final ano passado. O Jet pós-Get Born praticamente sumiu da minha vida, deixando claros na memória apenas os acordes rock and roll do primeiro disco.


O Keane, que era, para mim, a banda mais melancólica e uma das mais agradáveis de se ouvir, representava a força do piano-rock, rótulo proclamado pela imprensa especializada, que considerava o Coldplay o maior expoente do segmento. Em 2006, o single Is it any wonder? veio à tona, lembrando pouco a banda de bons-moços tocadores de piano de anos antes. O hit era bom, mas meu conservadorismo de "primeiros álbuns" (ou minha impaciência de baixar tantos megabytes) me fez resistir um pouco. Até que veio Crystal Ball, o segundo single. Mais forte, mais introspectivo, com um clipe kafkiano mais legal, e me convenceu de que sim, Under the iron Sea era um disco bacana.

Por descuido, distração ou simples falta de tempo, não dei bola quando saiu, em 2008, o Perfect Symmetry, terceiro álbum da banda. Eis que é anunciado um show bem aqui, em Belo Horizonte, com os ingleses. Ali, a poucos quilômetros de distância, o Keane iria tocar, bem ao alcance do meu bolso (bendita hora em que posso pagar com alguma folga os caros 80 reais cobrados pela organização do concerto). Eu, que já tinha perdido em 2007 um show histórico do The Killers no Brasil por falta de dinheiro, eu que ainda estava me recuperando do impacto do show do Maroon 5... Lá fui eu correr atrás do tempo perdido. Baixei imediatamente o cd, coloquei pra tocar repetidas vezes durante o meu dia, enchi meu mp3 com as minhas canções preferidas e tratei de ler tudo que era notícia a respeito da turnê brasileira do grupo.

Aí me surpreendi em ver que a imprensa tinha achado o cd mais alegre, mais oitentista, mais sintético, rumo a um resgate do que o The Killers tinha deixado pra trás com o passar das faixas. Mesmo que nas entrevistas o vocalista Tom Chaplin disesse que a alegria presente nas letras e melodias de Perfect Symmetry não fosse tão evidente assim para a banda, impossível não ouvir as faixas sem deixar escapar sorrisos no rosto. O Keane também foi apontado como o próximo U2, mais pelo apelo político e pelas canções-hino reflexivas do que pela sonoridade semelhante. E foi com todas essas informações, e com uma ansiedade do tamanho de um ovo na garganta, que fui até o show do Keane.

Luzes roxas e azuis, fumaça, um Tom Chaplin mais magro (talvez por causa da rehab... vai saber) e visivelmente emocionado por um público vibrante, embora reduzido. Pulo, muitas mãos, muito coro, refrões gritados. Quase não se achou defeitos na apresentação. Instrumentos em perfeita simetria com seus instrumentistas, Tim Rice-Oaxley com seu piano etéreo e seus backing-vocals abafados e sintetizados... O Keane se encontrou numa etapa cósmica da musicalidade. Chaplin desceu do palco, igulando-se às centenas de pessoas que tentavam atingir seus agudos numa emoção singular. O hino Lovers are losing abriu o concerto, sendo seguido pelas músicas preferidas dos fãs dos três discos, essencialmente do primeiro e do último. O primeiro ato do espetáculo se encerrou, para que o vocalista tocasse sozinho o b-side Bend and break, minha personal-favorite, com a própria voz, o coro das 3 mil pessoas, e um violão elétrico.

Na segunda parte, os quatro integrantes da banda vieram para frente do palco, achegando-se mais do público, e se revezaram em percussões e teclados, levando ao clímax das últimas três canções: Crystal Ball, Somewhere only we know e Perfect Symmetry. Três sínteses de fases diferentes da banda, três provas de que é possível mudar e ao mesmo tempo manter a identidade. No Bis, Under pressure, cover do Queen, Is it any wonder? e Bedshaped fecharam com uma incrível chave de ouro, seja para embasbacar uns e outros pela sapiência ou ignorância em relação à primeira, seja para acalmar os ânimos ávidos pelos versos reflexivos das duas últimas.

Eu, fã incondicional de Beatles e Beach Boys, amante do hard-rock do Aerosmith e do power dos anos 80 do Bon Jovi, baba-ovo do rock 90s do Hootie and the Blowfish e admirador eterno dos vocais femininos do The Cranberries e do The Corrs, me rendi desesperançosamente ao piano-rock do Keane. Talvez eu goste mais de outras bandas, talvez eu ainda vá em outros shows maiores ou melhores, mas o que faz do quarteto inglês tão sob medida para o meu gosto é o fato de que o Keane é exatamente a banda que um dia eu gostaria de ter.

3 comentários:

Henrique disse...

opa,
tenho escutado Keane recentemente, mas só o útlimo álbum, estou gostando, hehe
o show parece ter sido fantástico então,
tente escutar Death Cab For Cutie, mesmo sem a nossa querida discografias..
e me arruma os outros cds do Keane! =D

Henrique disse...

ah, isso faz-me lembrar que vc está com meu dvd do strokes!!

Luiza Lages disse...

Li isso só hoje! Só sei que deu mega saudadinha... E que me lembrou das minhas duas semanas pós show, fascinada com Keane.
Oubriigadou Bêlô Hourrizountê!