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Florianópolis, 23 de agosto de 1995
Querida Rosa,
Hoje choveu como nunca por aqui. Acho que chego a gostar um pouco mais da praia quando chove, porque acho que a cor da areia deste sul combina mais com os tons cinzentos do céu nesta época do ano. E o mar se transforma num azul tão profundo quando reflete as nuvens, que assim, de repente, me pego lembrando de ti, e a maneira como amas o mar. O jeito como me disseste naquela tarde, há quase dois anos, que o mar é apenas uma parte incompleta do "amar"...
Sabes bem que não gosto de praia, do ritual que a envolve, das multidões. Sempre f
ui um pouco misantropo mesmo. Se estou cá, no sul que sempre sonhaste em conhecer, é porque me obriga o trabalho. Repentinamente, esta cidade toda, que é o paraíso para surfistas e sonhadores, torna-se melancólica porque não estás aqui.
Depois de passados 12 meses, já consegui me acostumar com o clima e com o sotaque. Absorvi a segunda pessoa formal nas minhas frases, mas tudo o que escrevo ainda contém "você", primeira pessoa do meu singular. Enquanto a editora me pressiona para entregar mais um capítulo, eu penso em quantos foram os parágrafos de nosso relacionamento, e em como insististe em não nos colocar um ponto final...
Às vezes tenho pena de ti, por ainda estar presa à sombra do que sigificamos um para o outro. Tenho vontades de te ligar e dizer que estás livre para viver amores em outros mares. Mas não venço as grades do meu próprio terror e desespero de imaginar-te levada por outras ondas. Melhor que sejam apenas pesadelos...
Peguei ontem no conserto a vitrola velha que trouxe pra cá da última vez. Na casa dos meus pais, depois que compraram o novo som esqueceram pra sempre os discos. Trouxe todos aqueles vinis, principalmente aquele do João Bosco que nunca te devolvi. Ainda não tinha tido tempo de ouvir, já que desde segunda enfrento novos desafios com este romance encomendado que cobram de mim.
De vez em quando sofro pra escrever palavras, e lá se vão as folhas pelo meu chão. Meus dedos já não suportam mais o contato incessante com as teclas da máquina de escrever, falando de sentimentos que já não consigo sentir. Talvez eu tenha me deixado levar pelo meu próprio sucesso. Se aquele meu primeiro livro não tivesse tido sucesso, talvez eu não estivesse hoje a milhas de distância de ti, tentando controlar sem sucesso os meus personagens.
Quase sonho com João, Mariana e Felipe como espectros na noite, vagando pela casa, dizendo-me que não tenho poder sobre os destinos deles. E é desta maneira automática que continuo escrevendo as páginas das vidas deles. Tudo porque já não tenho notícias tuas desde aquele meu aniversário solitário em que me mandaste um telegrama tão acanhado...
Apaixonaste por um sonhador frustrado. Daqueles que são amigos da infelicidade. Será que sabíamos naquele início de primavera no primeiro ano da década que estaríamos fadados ao acaso da distância? Deveria eu já ter previsto que nesta minha sina de escritor, toda forma de amor poderia caber, para mim, apenas em páginas manchadas pela pressão da engenharia de um máquina de escrever? Nós que lutamos, esperamos, acreditamos num novo amanhã, num Brasil diferente... Nós que acreditamos nas letras... tornamo-nos de repente escravos das frases escritas.
Estive doente, visitei o doutor Jacinto de novo. E ele me veio de novo com a história de que é mal de amor. Ah, se ele soubesse... se ele soubesse que não é mal de amor, é mal de a-mar, mal de mar...
Espero poder conseguir um adiantamento da editora para visitar-te ainda este ano, talvez ainda antes de teu aniversário. Não te esqueças de mandar lembranças à tua mãe pelo seu aniversário, que vem com as primeiras flores desta primavera...
E espero ainda com uma vontade quase egoístas, que não te esqueças nunca de que meu amor por ti é maior que qualquer oceano deste e de outro planeta.
saudades com cheiro de brisa do mar e chuva,
de teu Eduardo.
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Cores do sol
Festa do mar
Vida é fazer
Todo sonho brilhar
Ser feliz,
No teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
Brinquedo de papel marchê
Dormir no teu colo
É tomar a nascer
Violeta e azul,
Outro ser
Luz do querer...
Não vá desbotar
Lilás, cor do mar
Seda cor de batom
Arco-íris crepom
Nada vai desbotar
Brinquedo de papel marchê
Sabes bem que não gosto de praia, do ritual que a envolve, das multidões. Sempre f
ui um pouco misantropo mesmo. Se estou cá, no sul que sempre sonhaste em conhecer, é porque me obriga o trabalho. Repentinamente, esta cidade toda, que é o paraíso para surfistas e sonhadores, torna-se melancólica porque não estás aqui.Depois de passados 12 meses, já consegui me acostumar com o clima e com o sotaque. Absorvi a segunda pessoa formal nas minhas frases, mas tudo o que escrevo ainda contém "você", primeira pessoa do meu singular. Enquanto a editora me pressiona para entregar mais um capítulo, eu penso em quantos foram os parágrafos de nosso relacionamento, e em como insististe em não nos colocar um ponto final...
Às vezes tenho pena de ti, por ainda estar presa à sombra do que sigificamos um para o outro. Tenho vontades de te ligar e dizer que estás livre para viver amores em outros mares. Mas não venço as grades do meu próprio terror e desespero de imaginar-te levada por outras ondas. Melhor que sejam apenas pesadelos...
Peguei ontem no conserto a vitrola velha que trouxe pra cá da última vez. Na casa dos meus pais, depois que compraram o novo som esqueceram pra sempre os discos. Trouxe todos aqueles vinis, principalmente aquele do João Bosco que nunca te devolvi. Ainda não tinha tido tempo de ouvir, já que desde segunda enfrento novos desafios com este romance encomendado que cobram de mim.
De vez em quando sofro pra escrever palavras, e lá se vão as folhas pelo meu chão. Meus dedos já não suportam mais o contato incessante com as teclas da máquina de escrever, falando de sentimentos que já não consigo sentir. Talvez eu tenha me deixado levar pelo meu próprio sucesso. Se aquele meu primeiro livro não tivesse tido sucesso, talvez eu não estivesse hoje a milhas de distância de ti, tentando controlar sem sucesso os meus personagens.
Quase sonho com João, Mariana e Felipe como espectros na noite, vagando pela casa, dizendo-me que não tenho poder sobre os destinos deles. E é desta maneira automática que continuo escrevendo as páginas das vidas deles. Tudo porque já não tenho notícias tuas desde aquele meu aniversário solitário em que me mandaste um telegrama tão acanhado...
Apaixonaste por um sonhador frustrado. Daqueles que são amigos da infelicidade. Será que sabíamos naquele início de primavera no primeiro ano da década que estaríamos fadados ao acaso da distância? Deveria eu já ter previsto que nesta minha sina de escritor, toda forma de amor poderia caber, para mim, apenas em páginas manchadas pela pressão da engenharia de um máquina de escrever? Nós que lutamos, esperamos, acreditamos num novo amanhã, num Brasil diferente... Nós que acreditamos nas letras... tornamo-nos de repente escravos das frases escritas.
Estive doente, visitei o doutor Jacinto de novo. E ele me veio de novo com a história de que é mal de amor. Ah, se ele soubesse... se ele soubesse que não é mal de amor, é mal de a-mar, mal de mar...
Espero poder conseguir um adiantamento da editora para visitar-te ainda este ano, talvez ainda antes de teu aniversário. Não te esqueças de mandar lembranças à tua mãe pelo seu aniversário, que vem com as primeiras flores desta primavera...
E espero ainda com uma vontade quase egoístas, que não te esqueças nunca de que meu amor por ti é maior que qualquer oceano deste e de outro planeta.
saudades com cheiro de brisa do mar e chuva,
de teu Eduardo.
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Cores do sol
Festa do mar
Vida é fazer
Todo sonho brilhar
Ser feliz,
No teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
Brinquedo de papel marchê
Dormir no teu colo
É tomar a nascer
Violeta e azul,
Outro ser
Luz do querer...
Não vá desbotar
Lilás, cor do mar
Seda cor de batom
Arco-íris crepom
Nada vai desbotar
Brinquedo de papel marchê
3 comentários:
Quantos blogs tens?
Adoro seus contos. Já te disse isso, num disse?
(suspiros)
Enfim, alguma coisa em meu dia que valeu a pena fazer.
Lindo, suave e real.
Beijos.
***
Diga a sua irmã para aparecer. Não tenho tido resposta dela, aos meus bilhetes.
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