27 de fev. de 2009

040: Conto Quinze - 27-02-09

[ Alameda das paixões ]

João mal podia acreditar no que estava acontecendo. De uns dias pra cá, havia se esquecido completamente de como era ficar triste. Não por lhe faltarem motivos para a melancolia, mas pelo simples fato de que até mesmo as flores brancas do canteiro, que haviam brotado na última semana graças à chuva de verão daquela quinta-feira lhe faria, agora, sorrir. Não eram apenas risos vazios, ausentes e amarelos, mas sorrisos sinceros, assim pra vida mesmo.


Era sensacional andar pela alameda à tarde, na volta da faculdade, depois das aulas. Sempre saía esgotado das tragédias gregas que estudava no curso de Literatura Antiga e encontrava naquelas florzinhas uma força que nem sabia que existia. Na bem da verdade, tinha certeza lá dentro de si que a força vinha de si mesmo, mas por se considerar quase incapaz ou mesmo indigno de tê-la, colocava a culpa nas tais flores.

Agora, à noitinha, não saíra como seria de costume. Distante do conhaque, podia pensar com clareza no que acontecia consigo. Porque, naquele momento, sozinho em seu quarto no décimo nono andar do prédio, nem mesmo as florzinhas brancas da alameda das paixões pôde lhe afastar a solidão. O telefone estava bem ali, na sua frente. Num impulso, desligou, como se desejasse aproveitar todos os segundos daquela solidão.

Uma solidão paradoxal, era isso que era, na realidade. Se quisesse fugir dela, poderia sair, ligar pro Pedro ou pro Marcos, ou mesmo pra Sandra, que insistia em cobrar-lhe aquele cinema do último final de semana. Mas não, queria mesmo estar ali, sozinho em pensamentos, sem poder acreditar que, após... após sei lá quanto tempo, ele sentia aquela coisa estranha.

João sentiu sua face ser irrompida pelo curso de uma gota salgada, que se depositou tímida e decidida em seu lábio. Logo depois dela, outras tantas. Do outro olho também caíam lágrimas, rolando nas suas bochechas até se acumularem em seu queixo, para então formarem pingos caídos em seu peito nu.

Como fazia calor. Fazia um calor incomum e João redescobria naquela noite de verão os prazeres do choro.


4 comentários:

sblogonoff café disse...

Faz tempo que eu não choro.
O que não significa dizer que não haja motivos.
Mas solidão...
Eu não consigo entender a solidão de João.

Anônimo disse...

às vezes é bom chorar para sentir. Eu choro muito mas nem sempre é para sentir, choro de sentimento lava a alma. E pode ser de alegria de tristeza, pode tudo!

Elga Arantes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elga Arantes disse...

chorei na ultima semana, duas vezes. Numa delas, forcei. Queria chorar, mas não tinha motivo. Ou tinha e meu inconsciente, me protegendo de sei-lá-o-que, não deixou que eu soubesse a razão e apenas me fez chorar. Na outra, uma pessoa que nunca imaginei me fez chorar. Até que, pelos preconceitos sociais, foi até normal. Mas eu, muito crente em querer mudar convenções, achei que comigo não aconteceria. Chorei magoada, mesmo, sabe? Um choro de quem, sempre acostumada a retrucar e a se defender, dessa vez calou-se. Chorei de mágoa e de raiva. Mas quando parei de chorar e suei o nariz, esqueci a raiva. A mágoa? Essa, finjo que ignorei pra ver se ela acredita e vai embora também.