No meio da rua, no hipercentro da cidade, a avenida mais movimentada do estado nunca esteve tão movimentada. Ele olhou pela janela de vidro do lotado e parado no engarrafamento. Por alguns minutos (ou seriam horas?) brincou de observar as gotinhas que dançavam ao cair no vidro. Depois, levou o olhar pra longe, o pensamento pra algum lugar distante, talvez lá do outro lado do país, bem perto dela. Pra que tanto carro na rua? É o natal, alguém responde demonstrando uma sabedoria tão óbvia que chegou a ser irritante aos seus ouvidos.
A proximidade das festas leva 3 vezes mais consumidores para as ruas, ele ouvira em algum noticiário. Para ele, porém, pareciam mil vezes mais. Dez mil. Cem mil. Eram tantos os carros quanto os metros que o separavam da pessoa com quem ele queria estar naquele segundo. O trânsito imóvel, a irritação transformada em buzinas de quem observava, descrente, os faróis do semáforo ficarem verdes por alguns segundos sem que surtisse efeito algum no tráfego. Luciano suspirou em desesperança. Como estava longe. Longe da próxima esquina, longe do próximo beijo, mas perto, bem pertinho do próximo minuto.
Pra que tanto carro?, a pergunta de algum indivíduo não identificado desses que se encontra em ônibus ecoou em sua mente. É o natal. É a chuva. Será que esse pessoal não sabe o que é andar na chuva? O que é molhar os cabelos sem medo de ser feliz, sem se preocupar com a chapinha ou com o emprego? Sentir cada gota fria tocar a pele, fazendo uma pequena mágica na forma de cócegas? Quem sabe não é essa a forma da felicidade, a oportunidade que a gente espera o ano inteiro e que vem bem ali, pertinho do natal?
Pra que tanto carro se dá pra andar na chuva?
Ele não desceu do ônibus, apesar do impulso. Precisava chegar cedo no estágio.
Feel it on my fingertips
Hear it on my windowpane
your love's coming down like rain...
Wash away my sorrow
Take away my pain
your love's coming down like rain...
(Trecho de Rain - Madonna)

2 comentários:
...se meu pai soubesse, se ele quisesse, se o dinheiro desse...
Mas Creuza, chove e a vida é assim, né?!
Tem sempre as chapinhas, os horários e as distâncias...
pobre Luciano,
será que ele foi ao shopping oiapoque na época natalina comprar presentes para aqueles que estavão tão longe dele?
será que ele comeu um sanduíche do carrefour depois de tanto tempo perdido naquele onibus?
será que ele dormiu no ônibus (e sonhou estar em qq lugar que não ali ou em algum ali muito específico)?
será q ele descobriu o pq de tanto carro e de tanta chuva?
Será?
Feliz Natal!
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