8 de ago. de 2008

023: Conto Oito - 08-08-08

Vinte e poucos anos

E

ra assim todos os dias já fazia dois meses. Ele chegava mais ou menos às cinco na cantina da faculdade. Pedia logo dois cachorros-quentes e uma lata de refrigerante. O que era curioso, pois não era comum venderem cachorros-quentes em cantinas de faculdades. Mas ele pedia dois. Primeiro, pegava só um. Comia rápido, abocanhando logo a batata palha abundante que mal cabia no pão. Usava os sachês de ketchup e maionese, bebia o refrigerante até a metade. Depois de uma pausa rápida, pegava o segundo cachorro-quente. Comia devagar, saboreando cada ingrediente. E sempre usava um canudo para o final da lata de refrigerante. Dessa vez usava apenas o ketchup, deixando a maionese na mesa todas as vezes. Muitas vezes não conseguia comer até o fim.

Um dia apareceu tossindo. No outro não apareceu. Mas voltou na segunda seguinte. Dois cachorros-quentes. Um refrigerante. Um sachê de ketchup e outro de maionese. E a alegria rondando a cantina.

Era divertido para ela observar os atos daquele rapaz de vinte e poucos anos todas as tardes. Pouco depois das seis, quando a cantina enchia de jovens universitários famintos após litros de teorias, ele continuava lá, observando - bem como ela - o movimento. Dez minutos depois, se levanta e saía pela porta lateral. E a vida cor-de-rosa daquela moça perdia a cor.


Um comentário:

sblogonoff café disse...

É engraçado a gente pensar em quantas pessoas observamos e que nunca saberão de nossa existência.
E que o contrário também acontece!

Com seus textos, fiquei tentando lembrar se algum amor platônico causou algum efeito em minha vida afetiva.
Talvez nem tanto, pela minh anatureza "tô nem aí pra isso" (com aquela rara exceção!)
Mas eu estava tocando o Todinho e vi o nome do Reinaldo riscado atrás!
Lembra do Reinaldo?
Então, quando as flores chegaram lá em casa, eu desejei que fossem vindas dele.
Nunca houve sequer um beijo entre nós, mas ficou ali, imprimida em meu passado.
Comprei o CD do Nirvana por causa dele, e foi por causa dele (e não da Jeanine ou do Dinho) que comecei a ouvir Legião Urbana.
E foi pela inércia dele que resolvi namorar o Cleberson.

E acho que ele nunca vai saber disso!