28 de ago. de 2008

025: Conto Nove - 28-08-08

Vírgulas


N

ão eram Eduardo e Mônica. Na verdade eram frequentemente classificados como farinha do mesmo saco. Mesmo curso na faculdade, mesmas matérias, mesmas notas no final do semestre. Usavam, os dois, all-star. O dele era azul, velho, bem do jeito que ele gostava. O dela, xadrez em cores pastéis, custara caro. Freqüentavam os mesmos cinemas e gostavam ambos de Woody Allen. Certa vez se encontraram por acaso numa mostra de Visconti. Ambos concordaram, na saída, com aquela cara insatisfeita, que o filme era pedante. Viam-se quase todos os dias, mas raramente trocavam palavras. Era um oi, ou comentário qualquer sobre amigos em comum. Encontraram-se um dia no elevador e sufocaram-se durante intermináveis segundos na ausência de assunto. Faltou-lhes oxigênio e coragem.

Sempre estiveram presentes na vida um do outro, como detalhes em um quadro. Como vírgulas quase despercebidas em uma frase. Ela na dela. Ele na dele. Enquanto ela lia Caio Fernando Abreu nos intervalos das aulas, ele engolia capítulos de Clarice. Disso um não sabia do outro. Ele sabia que ela estudava repetindo pra si mesma as partes mais importantes, porque já a tinha visto nos corredores em dias de prova. Ela sabia que ele comia uma bala depois da outra, porque sempre virava pra trás ao reparar no barulho compulsivo dos plásticos nas aulas mais silenciosas. Mas a música do Ray Charles em seus fones era um mistério. Seria um assunto para o elevador se ao menos soubessem um do gosto do outro.
Trocavam risos sobre nada às vezes. Mas às vezes nada significa alguma coisa.

E um dia ela passou no corredor. Calor no corpo, pressa, trabalhos e corações. Idéia para um texto, preocupação com o trabalho do dia seguinte, preciso lavar meu cabelo urgente... xampu acabou. E para ele aquele mo(vi)mento era o bastante para que não pensasse em mais nada. Ele ali, sentado num banco comendo o pão-de-queijo com suco de laranja de todos os dias, e o gosto ficou um pouco melhor.

Ela passou e passou. No dia seguinte, esbarraram-se na porta da sala de aula. Ela na dela. Ele na dele. Seus olhares nem se tocaram. Palavras nem trocaram. Sorrisos não improvisaram. Estava tudo do mesmo jeito de sempre. E qual é a chance de as coisas mudarem?

Iguais, os dois, alguém diria. Mas ele sabia que eram opostos. Ele nunca tinha viajado para os Estados Unidos, só usava roupas de marca quando ganhadas, passava mais tempo ensaiando acordes no violão compondo melodias inacabadas do que estudando. Ele, ele andava de barba mal feita, roupas grandes demais, cabelo desarrumado. Ele comia mais do que o seu estômago podia aguentar, morria por chocolates. Ele ficava bêbado sozinho em casa, ouvindo rock dos anos 70. E ele conhecia bem as pessoas com quem ela andava. Ele não era uma delas. Nada a ver, ele dizia pra si mesmo.

Mas às vezes... nada significa alguma coisa.

E naquela hora, cada um em seu mundo, ouviam a mesma música em seus fones de ouvido. Ela na dela. Ele na dele.

They say, Ruby you're like a dream
Not always what you seem
And though my heart may break when I awake
Let it be so, I only know
Ruby, it's you

They say, Ruby you're like a song
You just don't know right from wrong
And in your eyes I see heartaches for me
Right from the start, who stole my heart?
Ruby, it's you

I hear your voice and I must come to you (must come to you)
I have no choice, so what else can I do ? (what else can I do?)

They say, Ruby you're like a flame
Into my life you came
And though I should beware, still I just don't care
You thrill me so, I only know
Ruby, it's you

(I hear your voice and I must come to you)
(I have no choice, what else can I do ?-what can I do?)

They say, Ruby you're like a flame
Into my life you came
And though I should beware, still I don't care
You thrill me so, I only know
Ruby, it's you



8 comentários:

Sheyla disse...

Otavio,
Eduardo e Monica dizem muito pra mim. All star, já está, assim, no meu cantinho:
Durante um ano ouvia essa música todos os dias. Quem trabalhava comigo não entendia o repeteco. Eu, menos ainda. Daí que no primeiro encontro, cada olhar, conversa, e seus pés calçavam all star azul.
Sinais, sempre!
...
Poderia escrever mais a respeito do que li no seu blog, mas fico por aqui. Quando quiser, visite-me:
www.sheylaramos.blogspot.com

Abraços.

drymartini disse...

olá!
=]

Patrícia Ferraz disse...

Ahh, eu tenho tb um post que se baseia em Eduardo e Mônica. Mas é muito Eduardo e Mônica. Ele é gigante e nunca consegui terminar. Talvez, um dia eu poste...

Adorei o texto.

sblogonoff café disse...

Tatá...
A ousadia torna possível a relação e a concretização do afeto, a materialização do abraço e das palavras sussuradas...
Mas esse frio da barriga de tudo o que é platônico é até mais poético do que os defeitos que se descobre no outro depois da aproximação.

Vê, eles são perfeitos. Ela na dela. Ele na dele.

Mas serão felizes?!!

Eu dava um jeito de fazer ele ficar sabendo!!!

Saudades, moço!
Ontem deu saudade de ficar na varanda lá de casa cantando músicas que ninguém conhece, como os Menudos (abafa o caso!) e "olha eu não sou daqui.... sem golpistas pra lutar!!!

sblogonoff café disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sblogonoff café disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

eu já tinha adorado o texto há uns dias, mas num tinha conseguido postar o comentário.Enfim concordo com sua irmã talvez uma aproximação descamasse um pouco da perfeição do caso... heheheh
As coisas podem ser transformadas, e gente se machuca mas levantae tem que. Porque a vida vale a pena, não por um mas por vários instantes!

Elga Arantes disse...

Conheci esse seu blog hoje.
Uma delícia de ler.

Um abraço,

Elga