29 de jun. de 2008

018: Perfeição

"Quando eu lhe dizia: me apaixono todo dia e é sempre a pessoa errada...
você sorriu e disse: eu gosto de você também..."

De vez em quando a gente fecha os olhos pra viajar pra outras dimensões. São frações mínimas de segundo, em que tudo é um pouco diferente. Quando acontece, a gente aperta ainda mais as pontas dos dedos nas casas e cordas do braço do violão, quase que prendendo a circulação. A gente toca um pouco mais forte e canta um pouco mais alto. Podem até dizer que somos amadores, que não tocamos direito, que nossa voz não alcança os mais agudos e que não nascemos mesmo para isso. Mas não podem tirar de nós a emoção e a fúria de um instante como esse.

A gente aperta o dedo só pra tentar agarrar o momento, porque sabemos que não se pode esperar mais do que isso da perfeição. A gente pensa nos poetas, que pensaram nisso tudo bem antes de nós. A gente quase deixa escapar uma lágrima, antes de voltar a ocupar os espaços físicos de nossos corpos.

Não que a realidade seja tão ruim assim. "Não é a vida como está e sim as coisas como são". Já foi pior, nos lembramos. Já houve tempo em que o sentido das coisas era vazio, e o próprio vazio era tão presente que era só o que restava. "Se fosse só sentir saudades... mas tem sempre algo mais...". Tem sempre algo errado, ou um pouquinho desajustado. Nas pessoas, nas relações e nas coisas, na vida, no universo e em tudo mais. Tem sempre uma coisinha que a gente tem que esconder, pelo bem geral. "Mentir é fácil demais...". Só que, em momentos como esse, "não quero lembrar que eu minto também". Quero que mentiras sejam só verdades que ainda não aconteceram. "Mas tudo bem, tudo bem..."


Todo mundo é um pouco sonhador, às vezes. Não há quem não queira que as coisas melhorem, e não há pecado nisso. "Sonhos vem, sonhos vão e o resto é imperfeito". E mesmo assim, insistimos em dormir. Insistimos em "acreditar por um instante em tudo o que existe". Insistimos em amar, talvez. OU insistimos em achar que amamos. "Eu sei, é tudo sem sentido". Mas já que "o mundo anda tão complicado", pouca opção nos resta.


Já somos grandes o bastante pra saber que não é a realidade que se adapta às nossas vidas e sim ao contrário. Lidar com os obstáculos é sempre nossa batalha. "Quem roubou nossa coragem?" Já somos grandes o bastante pra entender que "esse é o nosso mundo". Já aprendemos a duras penas a guardar as palavras, ou dizê-las na hora certa. Já aprendemos "como é que se diz eu te amo" e compreendemos que nem sempre podemos dizer. Já sabemos que "o infinito é realmente um dos deuses mais lindos". Entendemos há muito que uma canção e um devaneio só são belos porque acabam. Só são eternos porque duram pouco. E só são sublimes porque estão bem além da realidade.

Mas não devemos chorar por amores vazios ou por notas desafinadas. "Somos tão jovens". São lições que se aprende na vida. São lições para a vida toda. São estrofes banais de uma canção de amor, são gestos, prosa e poesia, são sexo, amor e traição, são pedra, flor e espinho. "Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei com a estrada errada que eu segui, com a minha própria lei. Tenho o que ficou e tenho sorte até demais..."

E é nesses momentos, durante a duração de um acorde, uma fração de compasso, é que entendemos, afinal, que está tudo certo, tudo em seu devido lugar. Cada resposta negativa, cada ranger de dentes, cada abraço recusado, tudo certo, tudo pleno. "A dor vem do desejo de não sentirmos dor". Era pra ser assim, sempre foi. "E vem chegando a primavera... nosso futuro recomeça... venha que o que vem é PERFEIÇÃO."




"... mas quais são as palavras que nunca são ditas?"

2 comentários:

sblogonoff café disse...

Eu amo seus textos viceralmente, mais do que qualquer conto que leio de escritores renomados por aí, ultimamente.
Eu admiro o que você faz com meus instantes na hora do almoço.Pela perfeição que você traz aos meus momentos aqui. Me alimento em te ler e vibro por cada linha, por cada pensamento, por cada frase debaixo das frases.
E eu senti todo o seu texto, toda essa bricolagem profunda que você fez com as músicas e com os sentimentos.

Parabéns!

Unknown disse...

Existe um música do Legião para cada momento da vida. Eu costumava dizer que o Renato Russo é uma das pessoas que mais me entendem no mundo.
Todo o sentimento cabe dentro das frases, e, como você disse, só é perfeito porque acaba. E recomeça cada vez que a gente canta. Mas nunca é igual. Tem sempre uma emoção diferente, e você soube expressá-las muito bem...

Não preciso nem dizer que amei o texto, né?