Ele sempre saía de casa às 7:43. O caminho até o colégio Ridgemont High era feito em 9 minutos nos dias normais, 5 minutos, quase 6, nos dias de pressa, 14 minutos nos dias de outono em que ele andava devagar, observando as folhas amareladas dos carvalhos da rua Piggleton. Tudo era assim, cronometrado em sua vida. Minutos não arredondados e esquinas de horas. Tudo aquilo um dia ia passar, e um dia ele seria, talvez assim, sem muita pretensão... um rockstar.
Antes, porém, precisava vencer a rotina de seus dias de colegial. Ainda acreditava em sonhos apesar de sua realidade ser completamente previsível. Muitas vezes não era completamente ruim ser um garoto de 16 anos. Apesar de todas as dúvidas, questionamentos e indignações em relação ao curso do rio da vida, ele sabia que podia se considerar feliz. Feliz por ser inteligente, por ter a certeza de sua aceitação em uma boa universidade, por ter um bom coração e uma família adorável e absurdamente normal. Seu cotidiano era maçante às vezes, principalmente durante algumas aulas do segundo ano do ensino médio. Mas um cotidiano estável era melhor do que qualquer mudança brusca, isso sua natureza de taurino lhe dava certeza.
Precisamente às 7:49 ele passaria pela esquina do Barney's Snacks, onde passava grande parte de suas noites. Um minuto depois, cruzaria com o Sr. Bartlett saindo de casa rumo ao escritório de advocacia no centro. Nas terças e quintas, cumprimentava a sra. Lewkins, uma senhora idosa e muito simpática que gostava de varrer o passeio em frente sua florida casa de manhã. E, finalmente, as 7:52 viraria a esquina da rua Piggleton com a rua Graham, levando 13 segundos até alcançar a escadaria principal da escola secundária. Seriam também quase dois minutos até entrar na sala de aula. Não, hoje é uma quinta-feira, o primeiro horário é no laboratório de química no terceiro andar. 43 segundos a mais.
Mas especialmente naquele 22 de setembro de 2006, ele se demorou um pouco mais no espelho. O bastante para que o ponteiro do grande relógio analógico da sala de jantar avançasse uma posição na casa dos minutos. O bastante para que toda a lógica de sua previsibilidade fosse por água abaixo. Mas especialmente naquele 22 de setembro, ele não se importou. Poucas horas para o início do inverno... Poucas horas para o início de algo que ele imaginava que fosse mudar pra sempre sua vida. Só ainda não sabia direito o que era.
O Julian Scanthon do espelho era três ou quatro centímetros mais alto do que o que olhara, no ano anterior, no mesmo espelho redondo que cobria a parede do corredor que dava acesso aos quartos da típica casa de subúrbio na rua Townsend. Os cabelos um pouco mais revoltos, apesar dos esforços que ele fazia para mantê-los alinhados. As roupas obedecendo ao padrão: nenhum. O all-star vermelho que já lhe apertava os pés ainda o acompanhava nesses dias. Os olhos acinzentados sob sobrancelhas finas e quase inexpressivas, o nariz comprido e reto e os fios curtos de barba cobrindo parte de sua face. Tudo em uma dissonância agradável e familiar. Todo o caos de sua existência era ordem aos seus olhos. Era dali, do próprio espelho, que tirava as notas de suas canções. Composições modestas feitas ao piano ou nas cordas de náilon do violão.
- Eu quero ser um rockstar.
Nem precisava pronunciar a frase. Ela estava por todas as partes desde o momento em que acordava até o momento em que mergulhava em sonhos dos quais raramente se lembrava. E quando se lembrava, tinha certeza de que o Julian dos sonhos também queria ser um rockstar. Habitar palcos, cantar canções, alcançar notas agudas e inspirar multidões. Era o mundo que ele queria. Sabia que seu timbre não era tão marcante quanto os dos grandes astros, e que não tinha uma natureza tão ousada. Nem tinha no histórico grandes experiências ou grandes feitos e também não era o melhor entre todos os instrumentistas que conhecia. Precisava ainda de cifras para tocar suas músicas preferidas e não executava solos difíceis. Nunca havia sido também o aluno mais aplicado nas aulas de teoria musical. Também não era tão bonito a ponto de chamar atenção e nem tinha um rosto exótico a ponto de ser lembrado. Pela vida de muitas pessoas passara despercebido, embora ainda se lembrasse do nome de quase todas elas. Não tinha quase nada que fosse possível para os outros identificá-lo como um rockstar. Mas tinha a vontade. E a coragem. E, acima de tudo, o sonho.
2 comentários:
tem coisa que fazem parte da minha rotina ter sonhos acordada imaginar que cada dia combiuna com uma música e que vale dramatizar um pouco e transformar em história depois...Agora faço tudo isso e adoro ler as suas histórias que por mais diferentes de mim se pareçam sempre tem uma semelhança pela vida de muitas pessoas passa-se despercebido por mais que nos lembremos sempre do nome de quase todas elas... é assim...
sonhar os sonhos impossíveis, sempre.
ótimo conto... =)
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