U
m engarrafamento às seis da tarde era tudo o que ele não precisava naquele dia. Todo mundo tem um dia em que tudo dá errado. O pior é quando esses dias se multiplicam e deixam as felicidades serem minoria no cotidiano. Nada contra a rotina. Seu espírito de taurino inclusive preferia as rotinas e a previsibilidade. Mas algo está errado quando a rotina não é tão confortável assim. E um engarrafamento às seis da tarde não ajudava. Apesar de tudo, não era de seu feitio reclamar das coisas. Já tinha passado da idade de buzinar e gastar seus gritos com frases ofensivas para os outros motoristas.De frente para o volante do carro novo, ainda com aquele cheiro agradável, imaginou como era boa a sua vida. Um emprego decente e um salário digno. É claro, um pouco diferente daquilo que sonhara durante a adolescência. Afinal, não há espaço para tantas estrelas no céu. Algumas brilham na terra mesmo. E ele, com sua esposa maravilhosa, atenciosa, dedicada e linda e seus dois filhos saudáveis que lhe faziam chorar no meio da noite com seus primeiros passos ou seus primeiros rabiscos em forma de letra nos cadermos, era certamente uma estrela brilhante. O apartamento recém-adquirido não era o maior nem o mais caro, mas grande o suficiente para o aconchego daquela família de quatro. Ainda tinham que dar um jeito para o cachorro, porque o condomínio não aceitaria um cão grande como Bogart andando por aí naquele prédio de revista.
Ele olhou um pouco mais ao seu redor, afrouxou a gravata. O carro ainda nem tinha mil quilômetros rodados. Seu primeiro carro zero... Não lembrava nem de longe o Monza usado que conseguira comprar há tantos anos. "Caindo aos pedaços", ele se pegou falando alto. Uma risada vista pelo retrovisor. Uma risada que representava toda a sua felicidade. Não pelo que tinha conquistado. Mas ironicamente, pelo que tinha deixado pra trás. Era um riso cheio de saudade. Um riso nostálgico. Um pouco acima, os olhos já brilhavam e a mente embaçava com lágrimas se formando. Era assim sempre que via um comercial de tv bonito, ou ouvia aquela música dos Beatles, ou se declarava para a mulher, ou passava algum tempo com os filhos. Mas aquelas lágrimas eram especiais, porque eram lágrimas de uma época que nunca mais ia voltar...
A placa era LZ 2381. O ano, 1982. Relativamente novo, mas exaustivamente usado. Batido algumas vezes, a cor era cinza fosco. Sua alegria ao dirigi-lo pela primeira vez foi a de uma criança com um brinquedo. Quase dois anos de dinheiro, trabalhando como caixa no supermercado do tio finalmente haviam servido para algo. Ele, que amava Ayrton Senna e sonhava em comprar uma Ferrari. Ele que gostava da velocidade, e já dirigia desde os 15 anos. Ele agora tinha o seu próprio carro. Chevrolet Monza. Hatchback. Um modesto motor 1.6, o bastante para ir do cursinho para a casa e levar as garotas ao cinema. Cuidava como se fosse parte de seu corpo. Lustrava, polia, lavava. Uma vez lhe haviam convidado para um racha. Amarelou, com orgulho. A simples idéia de colocar o carro a perigo era de matar. A saúde daquele Monza 82 era mil vezes mais importantes do que a sua própria.
Mas ali, naquele momento, naquele engarrafamento, ouvindo aquela música antiga do Bon Jovi no rádio do seu sedan novo, não era propriamente a saudade do Monza 82 que lhe ardia na alma. Era o que acontecera numa noite em há 21 anos atrás, ao som daquela mesma música. Tantas histórias impublicáveis pra contar, tantas cenas de amor testemunhadas por aqueles bancos de couro... e no momento, só uma lhe vinha à cabeça.
Ela se chamava Sofia. Tinha 16 anos e uma franja volumosa no cabelo dourado. Conhecera em uma festa no clube do bairro, ela era de um colégio particular, o mesmo em que estudava o irmão mais novo de seu melhor amigo. Era diferente. Usava as mesmas roupas das outras garotas, o penteado com cabelo preso em um lado da cabeça exatamente igual. Ouvia as mesmas músicas, dançava os mesmos passos, ia aos mesmos lugares e paquerava os mesmos garotos. No seu quarto, os mesmos pôsteres da Madonna na cabeça. Na sua mente, a mesma paixão pelo TOm Cruise. Mas mesmo assim ela era diferente.
- Odeio morango.
Havia sido essa a primeira frase que ele a tinha ouvido dizer. Quase não prestou atenção no que ela dizia. Desde o início da festa ele já a estava observando, sem deixar que ela percebesse. Os lábios cor-de-rosa dela mexendo para formar aquela frase era provavelmente a cena mais bonita que já tinha visto. Bonito como o lilás de seu prendedor de seu cabelo. Instigante e inebriante como cada onda de seu cabelo. Era ela. Cerca de dez segundos depois, de frente para a mesa onde estava o ponche de morango, ao lado da vasilha vazia do ponche de uva, ele conseguiu pensar em algo pra falar.
- Que ridículo. Todo mundo adora morango.
Ela poderia ter deixado passar. Uma garota como aquela já deveria estar acostumada a ouvir garotos idiotas como ele falarem coisas idiotas na presença dela. Ela poderia simplesmente ter fechado a cara e ter ido dançar com as outras amigas esnobes.
- Eu não. Sou diferente, ela decidiu dizer.
E foi o bastante para que ele se arrastasse aos seus pés e se considerasse, para sempre, irremediavelmente, devotado à figura doce dela. E no meio de tantas semelhanças, descobriu ao longo de oito meses que ela era diferente. De tudo. Diferentemente linda. Sofia não era a mulher mais linda que passara por sua vida (apesar de que naquela época, provavelmente era sim), e nem seu namoro mais longo. Não havia sido o seu primeiro beijo. Várias outras (uma por ano desde que ele tinha 10) já haviam sido importantes demais em sua vida para que ele pudesse considerar Sofia o seu primeiro amor. Mas toda vez, em sua vida adulta, em que lhe perguntavam sobre primeiro amor, era nela que ele pensava.
Aquela noite de 1987 havia sido precedida por um dia diferente. Após uma briga, ele e Sofia haviam retornado. Logo que chegara em casa, ouviu a notícia: havia passado no vestibular. Teria, obrigatoriamente, que deixar aquela cidade em um mês. E não era o futuro que lhe dava medo, era deixar pra trás aquela história ainda curta, de oito meses, mas que significava pra ele quase mais do que seu Monza 82. Contar a novidade para Sofia seria a pior tarefa de sua vida. Bem mais simples do que ter passado no vestibular mais concorrido do país...
E era disso que ele estava se lembrando durante o engarrafamento. Das lágrimas nos olhos de Sofia, tentando estimulá-lo, tentando ficar feliz por ele. Enumerando inconscientemente todas as razões pelas quais aquele seria um grande passo na vida dele. Dava pra ver que ela estava triste. E ele, quebrado, machucado por dentro. Só quem ama muito, e de uma maneira ilimitada, consegue entender o que era estar naquele carro, ouvindo aquela música, com aquela pessoa, dizendo aquelas coisas... E mesmo depois de crescer, ele preferia não contar aquela história. AS pessoas nunca poderiam compreender o que havia significado aquele adeus.
Era um adeus a uma época de festas, era um adeus à adolescência, à inocência, um adeus à cidadezinha. Nunca mais seria só o filhinho adolescente, nunca mais o garoto dependente. Era um adeus a Sofia. Era um adeus ao Monza 82.
E foi assim, com o último acorde do Bon Jovi, que a memória se desvanesceu. E o carro, no engarrafamento, andou alguns metros. Mais cedo ou mais tarde, todos nós temos que caminhar pra frente.
As I sit in this smokey room
The night about to end
I pass my time with strangers
But this bottle´s my only friend
Remember when we used to park
On Hudson Street out in the dark
Remember when we lost the keys
And you lost more than that in my backseat
Remember when we used to talk
About busting out - we'd break their hearts
Together - forever
Never say goodbye, never say goodbye
You and me and my old friends
Hoping it would never end
(Never)say goodbye, never say goodbye
Holdin' on - we got to try
Holdin' on to never say goodbye
Remember days of skipping school
Racing cars and being cool
With a six pack and the radio
We didn't need no place to go
Remember at the prom that night
You and me, we had a fight
But the band they played our favorite song
And I held you in my arms so strong
We danced so close
We danced so slow
And I swore I'd never let you go
Together - forever
I guess you'd say we used to talk
About busting out
We'd break their hearts
Together - forever
4 comentários:
É a música, a nostalgia...me consola pensar que ainda não passamos dessa fase, que o momento é nosso pra tranformar e o tempo é o agora, pq um dia as coisas passam...
Sabe que outro dia mesmo eu me senti como o seu personagem... nostagia pura. cheguei até a escrever uma carta. foi bom escrever, mesmo sabendo que nunca vou mandar. é que a vida só anda pra frente, né... e isso é bom, eu acho...
Eu acho que odeio você.
Já tô com a garganta em chamas!
entrei aqui já com muito sono. qdo vi o tamanho do texto, decidi não ler. mas, por muito curiosa que sou, comecei as primeiras frases, só pra ter uma idéia. não consegui parar mais.
excelente texto. tudo perfeito. não dá vontade de parar.
será que ele ainda vê a Sofia de novo?
quem sabe teremos cenas dos próximos capítulos?
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