Não sei se posso dizer ao certo o momento exato onde ele começou. Talvez nos trovões estrondosos que fizeram tremer a parede e os vidros da minha janela aberta. A persiana fechada não deixava a chuva entrar, mas o barulho atravessava até a minha alma. Quando você está sonolento, você perde a noção do real.
Tenho ainda menos certeza de quanto tempo demorou até que meus olhos se inundassem com aquela ilusão. Como todo sonho, parecia real, visto de dentro. Vendo daqui, é como aquelas pequenas bolinhas de vidro com neve que se vê nos filmes americanos de natal. Algum tempo durou enquanto estava tudo bem. É assim que geralmente os meus sonhos são: meras reproduções de dias acontecidos ou para-acontecer. Dessa vez era a festa da qual eu tinha chegado umas horas antes.
Pelo menos três pessoas estavam lá, com as mesmas roupas e a mesma atitude da festa de antes. O tempo estava nublado, num tom de cinza e amarelo que não especifica uma hora certa do dia. Provavelmente crepúsculo. A garota de azul dançava ao som de uma música que as lacunas da memória me fazem pensar que eram uma mistura de sertanejo-romântico com uma batida eletrônica. Essa garota é a minha amiga, a pessoa entre as outras que eu mais conheço, a companheira. Mas minha atenção está voltada para a garota de vermelho, que está entre as outras meninas. Estas, sem face. Exceto pela garota de roxo.
De maneira repentina, uma mulher saiu pela porta do salão para a parte externa onde ocorria a festa. Quebrou um copo. Outro. Bêbada, decerto. O jovem dos cabelos castanhos, lisos e longos conseguiu controlá-la. Apenas mais uma mulher que exagerou na vodka. Ela desaparece e o ambiente agora é um terraço de um prédio. A festa e a música continuavam.
Eu, sozinho, observava e pensava. Não lembro em quê. Coisa curiosa no sonho é que você realmente tem uma vida a parte do que está realmente acontecendo. Se você está em uma festa, não precisa estar necessariamente pensando na festa. Ainda há contas, ainda há prazos, dívidas, ainda há a insegurança e ainda há tudo mais que há. Pelo menos é assim comigo.
O tom de cinza e amarelo era um pouco mais azul escuro nesse ponto do dia, que já não era dia, era uma projeção de tempo-espaço desconhecida pelas fórmulas físicas. A mulher voltou a quebrar vidros. Agora há copos, pratos e jarros transparentes se espatifando pelo chão. Eu tentei colocar os pés no chão mas precisava tomar cuidado porque estava descalço. Por que será que eu estava descalço em uma festa?
Ela talvez tivesse uns vinte e poucos anos. Cabelos curtos, quase masculinos, como a monitora da aula do semestre passado. Mas mais atlética, vestindo roupas vermelhas de corrida. Ela também mastigava vidro, enquanto o tal rapaz alourado tentava fazê-la parar. Ele evitava encostar nela, acho que porque senão ela poderia engolir, o que seria um problema maior. Ela mastigava e cuspia vidros aos montes. Mas sangue saía nenhum.
O que o álcool não faz com uma pessoa… Talvez era nisso que eu estava pensando, enquanto ainda acreditava que estava tudo bem. O que eu me lembro é que a moça reapareceu, dessa vez com mais vidros. Jogando e arremessando. Quebrando e espatifando. Cuspindo e mastigando. Os cacos de vidro voavam por toda parte. Havia mais vidro do que a moça poderia carregar com os dois braços, mas sonho é sonho. O alvoroço começou, como se já fosse esperado pelas pessoas na festa. Todas as garotas tentavam se esquivar de alguma maneira dos cacos de vidro. Não havia por onde fugir, já que a moça bloqueava a entrada com sua presença cortante. Era um terraço de um prédio com altura indeterminada, qualquer fuga ousada não teria volta.
A moça jogava vidro por todos os cantos. No que me pareceu menos de um segundo, eu me protegi com uma capa. Uma toalha, um lençol, um pedaço de lona, nem me lembro. Talvez minha blusa de frio preta. Tentava cobrir o meu corpo contra os cacos de vidro que voavam por todos os lados, sem obedecer à lei da gravidade ou outra lei qualquer. O movimento era circular e irregular. Como no olho de um furacão. Eu me protegia e o que era engraçado é que nenhum dos cacos de vidro que já haviam me atingido parecia ter realmente me cortado. Nem aqueles sobre os quais eu já havia pisado. Um lugar ou outro do meu corpo ardia, principalmente a coxa, onde eu tinha encontrado feridas vindas sabe-se lá de onde na noite anterior. Feridas retas, da metade da coxa direita até o joelho. Variando no tamanho, ainda não completamente fechadas. Nos sonhos a gente tem passado. Que nem sempre é o passado da gente. No sonho a gente tem dia anterior, noite anterior. Pelo menos é assim comigo.
O terror estava instaurado naquele pequeno terraço. Debaixo da minha capinha eu tentei chamar a garota de roxo, para que ela também pudesse se proteger comigo. Não lembro se ela aceitou minha proposta. Mas quem eu queria realmente proteger era a outra garota de vermelho, que parecia desnorteada com as amigas sem face. Eu tentei chamá-la pra baixo da capa, acredito eu. Mas não conseguia. Por algum motivo, me fechei de novo na capa enquanto a tempestade de cacos de vidro ficava mais forte. Grito, tilintar de vidros se quebrando, tudo se somou a uma profunda agonia. Eu não via mais nada, mas sabia que a moça dos vidros havia deixado de obstruir a porta. Todos estavam fugindo, menos eu. Por causa da capa, eu não percebi a deixa para ir embora. E tinha uma certeza. Uma certeza incisiva de que a moça se aproximava de mim com uma raiva voraz. Tenho quase certeza de que tudo isso demorou cerca de um segundo. Eu lancei as mãos para a frente, tentando me proteger. Ela segurou forte meus braços e me olhou com olhos fantasmagóricos. Ela mordeu minhas mãos com sua boca cheia de vidro. Talvez eu tenha visto sangue.
Da posição em que eu estava, seria fácil arremessá-la do alto do prédio. Desespero. Vislumbrei espectro de bombeiros ou policiais ou coisa que o valha chegando ao loca. Mas o desespero.
Ela mordia e me olhava daquele jeito. Mordia e era como se sempre quisesse ter mordido as minhas mãos. Como se eu tivesse culpa de algo. Talvez culpa por não ter tido tempo de fugir. Talvez por ter querido abrigar outras pessoas na minha capa. Ela mordia, porém.
***
Eu não tenho idéia do que teria acontecido se o sonho tivesse continuado. Foi um pesadelo, acredito eu. No momento em que me vi deitado na cama, com algum frio, ouvindo o barulho da chuva atacando a cortina, me senti aconchegado pela realidade. O conforto durou cerca de dez segundos. Pensei nos significados de cada elemento daquele pesadelo estranho. O que poderia significar? Se eu perguntasse a um analista? Ou a um pai-de-santo? Pensei e lutei contra o sono. Não queria dormir pra não voltar praquele terraço…
Cada vez que eu fechava o olho, no entanto, outro sonho se ensaiava de imediato. Sonhos inócuos, como uma cena pacata do cotidiano. Mas não tinha sido assim também que começara o pesadelo? Lutei, pensei, caí na realidade de novo. Resolvi pensar no real. Na estupidez das pessoas, nos julgamentos e nos pensamentos pequenos. Decidi que poderia ter reagido melhor a certas provocações, poderia ter falado isso ou aquilo. Decidi que talvez um soco na cara do garoto estúpido não seria a melhor opção, mas bem que satisfaria o meu ego naquele instante.
Decidi que eu sou um fraco. Sem atitude. Que tenta falar o que acha que pensa só pra não dizer que não disse nada. Decidi que a realidade é difícil. O que é que se pode fazer quando você acorda de um pesadelo e a sua realidade, apesar de não ser trágica, também não é exatamente onde você queria estar?
O que é que se pode fazer quando você sabe que ela não ficaria com você?
Não tive mais sono. Vim para o computador e escrevi essa história. O que fazer com as três horas que me sobraram de noite antes de o sol aparecer?
“Quais são as cores e as coisas pra te prender?
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei”(Quase um segundo, Paralamas do Sucesso)
5 comentários:
Nossa...
Rosas partindo o ar, como vidros
Menino, pergunte a um poeta o que significa o seu sonho.
Vai parecer cafona, mas me lembrei dessa música do Zé Ramalho (que vem aqui dia 12/04!!)
Entre A Serpente E A Estrela
Zé Ramalho
HÁ UM BRILHO DE FACA
ONDE O AMOR VIER
E ninguém tem o mapa
Da alma da mulher...
NINGUÉM SAI
COM O CORAÇÃO SEM SANGRAR
Ao tentar revelar
Um ser maravilhoso
Entre a Serpente
E a Estrela...
Um grande amor do passado
Se transforma em aversão
E os dois lado a lado
Corroem o coração...
Não existe saudade (ou sentimento)
MAIS CORTANTE
DO QUE A DE UM GRANDE AMOR AUSENTE
DURA FEITO DIAMANTE
CORTA A ILUSÃO DA GENTE...
Toco a vida prá frente
Fingindo não sofrer
Mas o peito dormente
Espera um bem querer
E sei que não será surpresa
Se o futuro me trouxer
O passado de volta
No semblante de mulher
O passado de volta
No semblante de mulher...
Otávio, ter coragem não é tão fácil.
Perde-se também ao assumir tudo o que se é, o que se pensa, as posturas...
Eu sei como você se sente, pois diversas vezes me senti assim.
MAs há como seguir e superar.
É saber equilibrar a audácia com o bom senso!
Você PODE!
Mas lembra da lei de atração?
Você tem que acreditar que pode.
Você precisa saber que pode.
O sonhos dizem mto do que a gnt deseja, o vidro remete à delicadeza das coisas ele inteiro é trasparente e forte, mas por um lapso se espatifa é preciso cuidado.
essa comedora de vidro será que era parente do leo (ou o Leo) em outra vida? rs
é...muita reflexão para um corpitcho tão magrinho...Calma, querido, as coisas vão se ajeitando com o tempo. Não queira encontrar tantas respostas que nem existem.
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