Medo do escuro A
Tinha sido bem mais simples do que ele poderia imaginar. E certamente, antes que ele tivesse tirado uma nota vermelha pela primeira vez. Só anos depois ele descobriu os Beatles. Só tempos depois a diferença entre pornografia e erotismo estaria bem clara em sua mente. Só depois de crescer mais cinco ou seis centímetros é que sentiu pela primeira vez o inferno e o céu que é estar bêbado. Foi bem antes da primeira grande desilusão, antes da despedida mais marcante, antes da perda mais chorosa, antes de cometer a maioria dos erros sérios e levar a culpa. O que aconteceu naquele outubro veio antes do seu interesse por carros, antes do primeiro salário, antes da maioria dos grandes acontecimentos da vida de um adolescente.
Havia chegado na cidade dois anos antes, vindo da capital. A ocasião da separação de seus pais ainda não era algo muito claro em sua cabeça, mas significava por ora pouca coisa mais do que a raiva da mãe por tê-lo tirado de seu antigo colégio, de seus antigos amigos. A verdade era que as pequenas travessuras e rebeldias daquela época eram só um jeito de externalizar a incompreensão do acontecimento. Mas isso, Felipe só foi admitir muitos anos depois. Naquela época, o mundo dos adultos ainda era apenas o mundo dos adultos. De fato, não havia deixado tantos amigos assim e não gostava tanto assim do colégio antigo. Isso também só foi possível perceber quando Felipe teve condições de comparar, quando deixou amigos melhores e um colégio mais querido.
Havia chegado na cidade dois anos antes e não demorou muito para que fizesse os primeiros amigos. Numa cidade pequena, era possível brincar na rua até tarde da noite e não correr maiores riscos. Era possível brincar na chuva, no escuro, fazer de tudo uma diversão. Era possível atravessar o pântano atrás da destilaria para buscar os melhores bambus para construir pipas. Era um tempo em que bastava um pique-esconde para que a distância entre colegas e amigos se extinguisse.
Uma vez, ainda nos seus primeiros meses naquela cidade, recebera uma carta escrita em papel colorido de uma garota chamada Tatiana. Era uma das meninas que sentava do outro lado da sala e que usava aquelas pulseiras translúcidas que faziam um barulho legal. Tatiana nunca tinha conversado com Felipe, mas se tornou facilmente o primeiro registro de um interesse além da amizade. Trocaram cartas por vários meses, embora quando se encontrassem ou fossem obrigados a fazer trabalhos juntos fingiam que nunca haviam lido uma palavra sequer um do outro. Era um tipo de jogo gostoso e inocente. Ainda bem que Felipe não tinha a menor consciência disso.
No ano seguinte, fora a vez de Camila. Aos 12 anos, uma menina é geralmente bem mais desenvolvida do que um menino. Meninos são pequenos. Mesmo os mais altos ainda conservavam um ar de frágeis. Mesmo os mais fortes conservavam um ar de ingênuos. Meninas eram altas e sonhavam com garotos mais velhos. Mas Camila era diferente, porque parecia mesmo gostar de Felipe. Mas naquela época, para os meninos tímidos como Felipe, não era fácil lidar com isso. Na verdade, o único jeito de lidar com algo assim era manter em segredo e trocar olhares durante o recreio. O caso com Camila nunca chegara a se concretizar. Mas marcou também os 12 anos de Felipe e tinha um lugar em seu coração bem ao lado da primeira vez que zerou o jogo do Sonic no videogame.
1997 foi o ano da Marcela. A maior parte das coisas que aconteceram naquele ano foram só compreendidas tempos depois. Porque tudo parecia tão simples… Marcela era a garota mais bonita da sexta série. Seus pais eram médicos e uma vez ela tinha ido à Disney. Não eram muitas crianças na cidade que tinham tido a oportunidade de fazer uma viagem dessas. Marcela tinha olhos de uma cor engraçada e Felipe adorava tentar desenhá-los, colorindo com amarelo, verde, marrom e bege. Nunca tinha conseguido se aproximar do que eram os olhos de Marcela. E seu cabelo preto descia até o ombro. Felipe gostava de imaginar se as pontas finas faziam cócegas no ombro e no pescoço da menina quando ela usava blusas de alça. É claro que o interesse por Marcela era segredo. Nem Hugo ou Juninho poderiam saber.
Outubro chegou e passou rapidamente. Mas não acabou antes da grande festa na casa de Jorginho. Era um garoto riquinho e metido que fingia não gostar de ninguém por se achar melhor do que todos. Mas era só um garoto sem amigos, coitado. Era um garoto sem amigos que fazia festas, para o deleite de seus colegas. A festa daquele ano tinha sido ansiosamente esperada por toda a sexta série. Acontece que toda pessoa sabe muito bem a diferença entre uma festa da quinta série e uma da sexta. Pelo menos essa diferença ainda era clara em 1997, pelo menos naquela cidade do interior, pelo menos aquelas pessoas sabiam.
A festa de Jorginho foi no salão de festas de sua casa. Havia uma decoração roxa e preta, com balões e cortinas por todo o lugar. Era um dos lugares preferidos de Felipe em toda a cidade e, apesar de nunca ter ido com a cara de Jorginho, não perdia uma oportunidade de aceitar os convites do garoto para ir até sua casa. O salão de festas tinha uma grande porta ao lado, que dava para um pequeno jardim ao ar livre. Tinha um canteiro circular no meio, uma pequena área para churrasqueira e uma videira que cobria alguns metros à esquerda. À noite, era tudo maravilhosamente aterrorizante. Com aquela decoração ainda mais. As luzes fracas e roxas espalhadas pelo jardim provavam que Jorginho não podia ser um cara assim tão chato. Pelo menos não naquele dia. Proporcionar aquelas festas eram seus atos mais nobres, foi a decisão que Felipe chegara meses depois.
Eram umas sete da noite quando o último dos convidados chegou. O salão estava iluminado e as músicas que tocavam convidavam todos para dançar. Convidar alguém para dançar era uma tensão à parte, principalmente para Felipe. Ele preferiu fingir que precisava ir ao banheiro e ficou longe de tudo e de todos até ouvir o último acorde da última música dançante. E também não lhe interessava muito saber quem estava dançando com Marcela.
Quando voltou ao salão, viu que a menina procurava alguém com os olhos, na multidão. Tratou logo de entrar no campo de visão dela, torcendo para que fosse ele. Não foi uma boa surpresa perceber que não, ela provavelmente procurava por Taís, porque foi para ela que Marcela sorrira. Felipe passou meia hora olhando para a garota, esperando que ela pudesse dar algum sinal de que também estava pensando nele durante todo aquele tempo. Mas tudo parecia em vão. Preocupado com Marcela, esqueceu de se divertir.
Felipe olhou tanto para ela que poderia, mesmo hoje, descrever cada movimento dela. Podia quase tocar a imagem que ficara em sua memória por tantos anos. A imagem da garota com cabelos presos no alto da parte de trás da cabeça. Comportava-se como uma jovem mulher, usava brilho nos lábios e brincos de argola. Mas nada lhe chamava mais atenção do que as pulseiras de plástico. Eram dezenas de pulseiras estreitas, brancas, assim como o vestido que Marcela usava.
Quando a próxima música começou, Felipe andou em direção a Marcela, decidido a, dessa vez, convidá-la para dançar. Nunca havia tomado uma decisão tão séria em toda a sua vida. Seus passos eram firmes, como se fosse cobrar um pênalti em segundos. Sua cabeça estava erguida e seus olhos presos, guiados pela presença de Marcela. Se pelo menos ele tivesse andado mais rápido… se tivesse tomado aquela decisão dois segundos antes… talvez tudo teria sido diferente. Talvez não teria esbarrado em Jorginho e derramado um pouco do refrigerante dele em sua própria roupa. Talvez tivesse evitado que um outro garoto da sétima série, um daqueles da turma do Diogo, se aproximasse dela e a convidasse para dançar. Felipe teve vontade de dar um soco em cheio no nariz grande de Jorginho, continuar o seu caminho em direção a Marcela e seu novo inconveniente acompanhante e empurrá-lo para o lado, assumindo o lugar que achava que merecia. Mas, é claro, tudo o que conseguiu foi pedir desculpas a Jorginho e voltar para o seu solitário canto.
Tudo o que pensava era o motivo por que todas aquelas pessoas estavam felizes. Por que é que era tão importante estar em uma festa, junto com outras pessoas, longe dos pais? Tudo o que Felipe viu a partir desse momento o deixou incomodado de estar participando daquilo. Era um bando de pessoas de 12 e 13 anos fingindo que tinham 16. Eram apenas crianças. ELE era uma criança e sabia muito bem disso. Ele só queria estar em casa para jogar videogame. Quis desesperadamente ir embora no momento em que seu mundo virou de cabeça pra baixo de novo. Eram as malditas músicas dançantes outra vez. E aquilo, a três metros e meio de distância, entre as luzes roxas, era mesmo Diogo, da sétima série, dançando com Marcela. Quem é que tinha convidado aquele menino retardado? Quem é que tinha dito a ele que uma festa da sexta série ia ser legal? Pois Felipe não estava se sentindo legal.
Foi naquele momento que Felipe decidiu que morrer era melhor do que estar naquele lugar cheio de pessoas imbecis. Cheio de crianças que não queriam ser crianças. E a partir de então, enquanto observava Marcela dançar com Diogo, começou a imaginar qual seria a maneira mais dolorosa que alguém pode morrer. Qual ele iria escolher? Se tivesse prestado mais atenção, teria visto que Marcela não estava muito satisfeita em dançar com Diogo. Infelizmente, Felipe só foi saber disso tempos depois.
Quando os três minutos da música acabaram e os três séculos de tortura psicológica tiveram um fim para Felipe, Diogo se afastou de Marcela, que voltou para perto de Taís. Felipe tentava se acostumar de novo com seus pés no chão e voltava aos poucos para a realidade. Se sobrevivera àquilo, sobreviveria a tudo. Quando ainda estava buscando forças para voltar a andar e parar de tremer a perna, Jorginho anunciou a brincadeira de pique-esconde no escuro. A turma vibrou. O escuro era tudo o que a maioria deles estava esperando. Aos 12 anos, não ser visto é algo importante para as maiorias das pessoas que querem fazer as próprias descobertas.
Antes que pudesse se dar conta, as luzes foram apagadas e o salão mergulhado em uma escuridão total. Foram segundos de desespero para Felipe. Decidiu correr para o jardim, na esperança de conseguir enxergar novamente alguma coisa, com a ajuda da luz da lua. Não estava longe da porta e não foi difícil andar até o lado de fora do salão. A diferença na temperatura revelou que ele já estava em algum lugar entre o canteiro circular e a videira. Mas a lua estava escondida e não foi possível distinguir os espectros melhor do que quando estava dentro do salão.
Por todos os lados, ouviam-se gritos, palavras animadas de pré-adolescentes em fervor. Teria sido diferente, se Felipe tivesse sabido se divertir e aproveitar o momento. Mas tudo o que ele queria era ir embora logo. Aquele filme legal ia passar na televisão na sessão das 10 e perder o início não seria nada legal. Era uma trama de detetive. Não se perde o início de uma trama de detetive.
A solidão era algo de que Felipe já tinha ouvido falar. Mas aquela era a primeira vez que sentia. Nunca imaginara que a solidão traz medo. E ele, que nunca tinha tido medo do escuro, estava agora apavorado. Desejou tanto estar em qualquer outro lugar que quase acreditou que se fizesse muita força realmente poderia se materializar dentro de seu quarto onde poderia chorar. De onde será que vinha aquela vontade de chorar, de chorar soluçando até não sair mais lágrima nenhuma? Porque estavam demorando a acender a luz? Perto do que Felipe estava sentindo naquele momento, os três séculos de tortura de meia hora atrás eram cócegas.
Como se ainda fosse possível sentir algo pior do que aquilo, somou-se à agonia a sensação de não estar sozinho. Felipe não enxergava um dedo a frente de seus olhos e começou a ficar nervoso. De tão nervoso, decidiu não abrir a boca para não denunciar que estava ali. Certamente era só alguém tentando se esconder. Se Felipe falasse, sua voz estaria trêmula e talvez não fosse agüentar mais segurar o choro. Foram os segundos mais apavorantes de toda a sua curta vida. E a tensão aumentou quando percebeu que por mais que tentasse, não podia mais esconder que estava ali. Sua respiração ofegante parecia estar mais alta do que os gritos de dez mil pré-adolescentes animado.
Felipe nunca conseguiu ter uma memória clara de quanto tempo levou até perceber que a pessoa que estava ali com ele, no escuro, embaixo da videira, estava se aproximando. Estava próxima DEMAIS. E não parou de chegar perto até tocar os lábios nos dele. A angústia daquele momento era insustentável. Parecia pior à medida que ele era pressionado contra a parede da videira. Em um pequeno fragmento de segundos, a pior sensação que alguém pode sentir deu lugar a qualquer outra coisa. Não era mais medo, nem agonia, nem choro. Era algo diferente. Era algo bom. Era algo molhado, algo suave, algo profundo, algo sujo, algo incrível.
Talvez tenha durado cinco segundos. Talvez tenha durado duas horas.
Tão sorrateiramente quanto se aproximou, a pessoa se afastou. Por dias, Felipe acreditou que só tinha imaginado. Mas admitiu, depois, que aquele tinha sido um momento especial. Tinha sido o seu primeiro beijo.
Na segunda-feira seguinte, tudo o que a sexta série comentava era a festa de Jorginho. Os novos casais formados, as fofocas sobre quem não quis ficar com quem, assunto para preencher todos os dias seguintes daquele ano letivo. Felipe evitava de abrir a boca para falar sobre a festa nas rodinhas no recreio, como se fosse deixar escorrer pelos dedos a singularidade do que tinha experienciado através das palavras soltas no ar. Demorou até que Felipe pudesse ter certeza da dimensão do que havia acontecido. Mas uma coisa era certa: o videogame já não era tão atraente quanto antes…
Quando chegou dezembro, Marcela se mudou para outra cidade. E ele, Felipe, também saiu de lá meses depois, quando seus pais se reconciliaram. Nunca mais se viram ou se falaram. E talvez tenha sido mesmo melhor que não tenham mais se falado. Felipe sabia que se trocasse outra palavra com Marcela, não agüentaria a ansiedade de perguntar a ela algo de que queria ter certeza desde aquela festa das luzes roxas na casa de Jorginho. Para falar a verdade, não tinha medo da resposta. Não tinha medo de descobrir que o que tinha acontecido era um pouco menos especial. Para falar a verdade, ter ouvido o som das pulseiras de plástico se chacoalhando na escuridão da videira era a única certeza da vida de Felipe.
Quando você chega na classe nem sabe quanta diferença que faz
E às vezes faço que nem vejo e nem ligo e finjo ser distraída demais
Quantas vezes te desenhei mas não consigo ver o seu sorriso no fim
E sigo caminhando pelo recreio, quem sabe você tropeça em mim
Se enamora
Quem vê você chegar com tantas flores
Quem vê você passar perto das flores
Parece que elas querem te roubar
Se enamora
Quem vê você chegar com tantos sonhos
E os olhos tão ligados nesses sonhos
Tesouros de um amor que vai chegar
Quando toca o despertador de manhãzinha, me levanto e vou me arrumar
E vejo a felicidade no espelho, sorrindo, claro que vou te encontrar
Fico só pensando em você e juro que eu vou te tirar pra dançar um dia
Mas uma canção é tão pouco e nem cabe tudo o que eu quero falar
Se enamora
Quem vê você chegar com tantas flores
Quem vê você passar perto das flores
Parece que elas querem te roubar
Se enamora
Quem vê você chegar com tantos sonhos
E os olhos tão ligados nesses sonhos
Tesouros de um amor que vai chegar
Se enamora
E fica tão difícil de ir embora
E às vezes escondido a gente chora
E chora mesmo sem saber por que
Se enamora
A gente de repente se enamora
E sabe o que amor chegou na hora
E agora eu gosto muito de você
11 de fev. de 2008
004: Conto Três - 22-11-07
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3 comentários:
Otávio, adorei este também!Não sei da relação do conto com a realidade, mas é muito bem narrado. Uma abertura narrativa, um meio agoniante e um final cheio de suspense e interrogações!! Foi ótimo. Adorei ler!!!
Vamos lá, vou narrar aqui o meu primeiro beijo. Não teve o glamour do beijo do Filipe. Não... Nem foi tão bom. Na verdade foi até ruim. Foi atrás do cinema (aquele da cidade do interior que só abriu para passar Titanic - anos depois).
Era um garoto mais novo. Eu não sabia o que fazer.Agonia. Nunca fui dada a treinar com laranjas! Eu só sabia que não estava ali atrás do cinema à toa!!Rsrs! Então aconteceu. Eu me senti invadida,(e era só um beijo!) como se alguém roubasse uma verdade pela minha boca. E no fundo eu queria que outra pessoa estivesse fazendo aquilo naquele momento. Um cara mais velho que por sua vez gostava da minha melhor amiga (na época!). Mas eu já era velha demais para nunca ter beijado. Não se pode ser BV com 15 anos!
Aquele foi apenas o primeiro de outros tantos...
Mas lembro de duas coisas que me comoveram naquele dia. Sim. A primeira foi um cartão escrito por um garotinho de 8 anos.A segunda coisa, é que quando eu voltei pra casa de madrugada, esse mesmo garotinho me esperava na escada!! E tinha Fanta-laranja!
Depois daquele dia a minha vida mudou bastante. E muda sempre a cada dia, mas é verdade, não há como esquecer o primeiro beijo, mesmo que ele não tenha acontecido com o primeiro amor!
Já está na hora de um outro conto!
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