26 de jan. de 2008

003: Conto Dois – 21-11-07

Vermelho-cereja

Q

uando a última música do último cd acabou, Henrique ainda permaneceu por mais alguns minutos olhando para o teto. Os momentos que mais apreciava no dia inteiro eram também os momentos que o enchiam de remorso e culpa. Sempre tão atarefado, atolado de trabalhos, prazos e provas, afinal era fim de semestre, Henrique gostava de deixar tudo de lado às vezes por esses momentos de ócio.

Eram momentos preciosos, em que ouvia todas as músicas que gostava e pensava na vida. De uma certa maneira, não se podia dizer que ele não estava fazendo nada. Pensar já é o primeiro passo. Uma vez havia lido num livro que não se pode pensar e bater em alguém ao mesmo tempo. Eram essas idéias, engraçadas, sobre a vida que permeavam seus pensamentos enquanto se deitava no colchão, olhando para o teto. Mas eram principalmente as grandes idéias, o sentido da vida, o sentido da SUA vida que mais lhe preenchia a imaginação.
Prometera para si mesmo que, ao fim da última música, se levantaria para terminar o trabalho final de Direito Penal. Já era novembro e o natal já havia chegado, pelo menos enquanto um estímulo para as crianças irem aos shoppings e, seus pais, gastarem dinheiro. Mas para Henrique, novembro significava apenas desgaste, trabalho, estudo, esforço. E tudo isso para que? O talvez que habitava a idéia de vencer outras dez mil pessoas nos concursos públicos da vida não lhe atraía. Ser advogado, juiz, promotor, procurador, nada disso passava pela sua cabeça. De um jeito engraçado, não se sentia arrependido de ter escolhido Direito. O que mais poderia fazer?
Mas naquele momento, mais do que em outros durante os seus quatro anos anteriores de faculdade, encontrar o sentido de tudo aquilo era importante. Era importante porque não estava deitado em uma cama de verdade e sim em um colchão. Era importante porque o apartamento para o qual havia se mudado era pequeno, antigo, distante do mundo. Era importante porque quase não havia móveis pela casa. E era importante principalmente por causa de Laura.
Henrique prometera para si mesmo muitas coisas. Sempre que entrava outubro, começavam a surgir as promessas de realizações para o ano novo e de mudanças mais urgentes, a serem efetivadas antes do natal. E uma dessas promessas era não pensar mais se havia tomado uma decisão certa ou errada sobre Laura. Ele tinha 23 anos, vinha de uma família simples, sempre correra atrás de suas oportunidades, mesmo que nem sempre tenha conseguido aproveitá-las da melhor maneira. Seus pais não tiveram oportunidade de fazer curso superior e ainda hoje, mesmo depois de terem aposentado continuavam a trabalhar para custear seus estudos na capital e manter o nível de vida da família confortável o bastante para que se coma peru na ceia do final do ano. Ela tinha 24 anos, pais médicos, formados, divorciados, cada um vivendo em um apartamento de luxo no centro da cidade. Tinha lindos e intrigantes olhos verdes e um cabelo preto com curvas inesperadas. Tinha sido uma criança chata, uma adolescente mimada mas era agora uma mulher inteligente, obstinada e de personalidade forte. Era isso que o atraía. E foi o ainda mais inesperado fato de ela ter retribuído o olhar dele naquela festa dois anos antes que o encantou. Uma moça como ela olhando para alguém como ele. Foi por isso que ele propôs que morassem juntos.
Ela era arquiteta formada, com um escritório próprio e os primeiros clientes indicados pela ampla rede de contatos de seu pai. Ele ia se formar em um semestre e não sabia lidar com o fato de que não tinha vocação para o Direito. E ela abdicara de quase tudo para ir morar com ele naquele apartamento a ponto de fazê-lo ficar com remorso.

- A gente decora tudo do nosso jeito, vai ficar lindo.

A capacidade de Laura de manter o otimismo diante das mais cruéis circunstâncias era certamente um item da lista de 10 coisas que Henrique mais amava nela. Juntamente com o seu jeito de cantarolar, de venerar Bob Dylan, de preferir o George Harrison entre os Beatles e ter ótimos argumentos para defender isso. Ela sempre conseguia o que queria. Isso, desde criança. Era uma grande sortuda. Uma vez ganhara num sorteio uma viagem com acompanhante para a Disney. Henrique nunca conhecer antes alguém que tinha ganhado alguma coisa em algum sorteio de alguma marca de chocolate em pó antes. E sabia aproveitar todas as oportunidades. Conseguira um estágio durante o último semestre da faculdade num dos maiores escritórios de arquitetura da cidade e graças a isso, um portfólio premiado.
Ela era o exemplo de alguém que realmente dá certo na vida. É claro que ser de uma família rica e tradicional (mais tradicional que rica, verdade seja dita) abrira algumas portas. Mas a cada porta aberta, Laura entrava, abria janelas e fazia do ambiente claro e aconchegante. Era por isso que Henrique acreditava quando ela dizia que o apartamento ia ficar bonito. Ela era exatamente o que ele procurara toda a vida. E era incrível. Era incrível que ela o havia escolhido entre tantos rapazes mais ricos, mais bonitos, com um futuro mais promissor, rapazes que pelo menos tinham feito a faculdade certa. Henrique se sentia honrado cada vez que acordava e se lembrava que Laura fazia parte de sua vida real. Alguns dias, era como se chegasse a acreditar que seus sonhos banais eram realidade e que esse mundo, em que Laura existia, era o próprio sonho. Sentia-se honrado e, ao mesmo tempo, era invadido pelo remorso e pela culpa. Pesava-lhe o fato de que ela poderia estar sendo infinitamente mais feliz ao lado de qualquer outra pessoa.
Era um amor que incomodava, desde o princípio. Todos os amigos já diziam que eles iam acabar se casando e que eram feitos na medida um para o outro. Também, com tantas coisas em comum… Laura sabia o que Henrique pensava e, se não soubesse, era esperta o bastante para ficar em silêncio, pois sabia que nada mais do que sua presença poderia curar-lhe TUDO. Ela sabia do amor dele por seriados de televisão, sabia que ele se emocionava fácil, que chorava assistindo televisão, que tinha todos os cds do James Taylor e que estava tentando completar sua coleção do Johnny Cash. Ela sabia detalhes da primeira vez que ele havia estado no mar, da primeira vez que ele quebrara o braço, do primeiro beijo, do primeiro amor, da primeira decepção, da décima primeira decepção, da primeira vez. Não havia nada em Henrique que se sustentava como um segredo para Laura por muito tempo. E, há tempos, ela já havia também percebido que alguma coisa não estava bem com ele.

- É só o fim do semestre. Não to mais agüentando tanto trabalho.
- É só viver um dia de cada vez, fazer um trabalho de cada vez. Acaba logo.

Mas era mais do que isso. O que incomodava Henrique era que era grande a possibilidade de ele levar, para sempre, uma vida medíocre. Era tudo o que sempre evitara, tudo o que sempre detestara. A própria mediocridade lhe atazanava cem mil vezes mais do que a estupidez alheia. E agora, seis meses antes da bomba chamada vida real cair sobre sua cabeça, tinha medo de que o fantasma da vida medíocre que assombrara as noites de seu pai, e do pai dele, e do outro antes dele, viria se instalar naquele pequeno apartamento, como um terceiro morador, um intruso que abre a geladeira e segura o controle remoto.
Henrique sentia que estava prestes a se afogar numa vida média. E o pior, o mais medonho, o mais triste, era que levaria Laura consigo. A mudança para o apartamento tinha sido bem mais impactante para ela do que para ela. Mas ela nunca reclamara. Ela nunca abria a boca para reclamar de nada e não por medo de desapontá-lo. Era porque realmente acreditava que as coisas iam mudar e para que uma coisa mude para melhor é necessário que permaneça algum tempo no primeiro degrau da escada.

Laura amava Henrique. Disso ele não duvidava. E era um amor que pesava dez toneladas. Ser amado é uma responsabilidade e tanto, e disso Henrique sabia pois não era a primeira vez que estava numa situação dessas. Só que nunca esteve acostumado a estar desse lado, do lado do ser amado. Era sempre o que amava. E se decepcionava. Não que não amasse Laura de volta. Ele a amava intensamente, imensamente. Nem sabia mais se era só amor. Se houvesse um substantivo mais forte, ele usaria para definir o que sentia. Mas ele tinha medo. É isso. Porque sabia que não era bom o bastante para ela.
O que Henrique via no espelho era um jovem magrelo, aparentando não passar dos 20, míope, com a barba sempre mal-feita, um cabelo despenteado, olhos grandes demais. Não tinha nada em especial com sua aparência, apesar de não ser exatamente uma pessoa feia. Era apenas uma dessas pessoas com as quais se depara aos montes quando se anda na rua. Uma pessoa mediana. Mas Laura o achava a cara do Humphrey Bogart.

Laura sempre o observava enquanto dormia. Algumas vezes ele só fingia, para ver por quanto tempo ela ficaria analisando os traços desconexos de seu roso. E em todas as vezes ela havia sido capaz de permanecer por quase uma hora inteira parada ali, transmitindo para ele o som mais alto que se pode ouvir: o som do amor não-dito. Até mesmo as brigas e discussões eventuais dos dois eram, para Henrique, certas. Estava tudo sempre em seu lugar. Mas ele sentia que não pertencia a esse lugar, como se fosse um intruso com medo de ser descoberto.

Ela queria um cachorro. E daqui um ano, quando ele estivesse formado e empregado, aí sim se casariam. Ela, com um vestido azul, descalça, chegando de helicóptero no terraço do prédio mais alto da cidade, e ele, aguardando ao lado dos trinta ou quarenta convidados, usando suspensório e boina. Na trilha sonora, três músicas dos Beatles, cada uma apropriada para um momento da cerimônia. E depois de uns meses, teriam o primeiro filho. Dependendo de como o seu corpo ia ficar, decidiriam se teriam um segundo ou adotariam. Na verdade, adotariam um de qualquer jeito. E outro cachorro, para as crianças. E o quarto dos dois teria dois andares, com uma escada circular vermelho-cereja, da mesma cor do aro dos óculos que ele ganharia de presente de um ano de casamento.
Henrique não reclamava dos planos de Laura. Não reclamava porque achava qualquer idéia que viesse da cabeça dela perfeita. Nunca discordara sobre os cachorros, sobre o casamento, sobre os filhos, sobre a escada circular. Planejar o futuro era mesmo o forte dela. Ela sabia para onde ia querer viajar nos próximos dez anos e cada viagem planejada de acordo com uma estimativa de renda que ela programara. Na verdade, Laura não era assim tão metódica. Ela, mais do que ninguém, sabia que todos aqueles planos poderiam e deveriam ser mudados de acordo com o tempo, mas ela dizia gostar de sonhar.

- No sonho, Rick, tudo pode acontecer. Lembra aquela vez que você sonhou que tinha um guaxinim de estimação que falava e que vivia discutindo com a sua mãe? Então, no meu sonho o nosso quarto vai ter uma escada circular vermelho-cereja. E no meu sonho a gente vai casar no terraço do prédio. A gente se esforça pra realizar o sonho. Mas se não conseguir, tudo bem. Era só sonho mesmo. Eu me contento com uma escada convencional. E ela pode ser verde também, não tem problema.

Até as coisas mais sérias eram, para Laura, contornáveis. Cada problema, cada discussão, cada escolha errada, cada leite derramado. Como se não bastasse, ela era a pessoa mais politicamente correta que ele tinha conhecido. Tão… Mas por que será que ela estava tão calma? Por que será que ela era tão calma? Será que ela tinha um plano em mente? Será que ela ia saber o que fazer quando ele se formasse e assumisse para todo mundo que nunca quis ser advogado?
Como Henrique a amava… Era só nisso que ele conseguia pensar, como solução para cada pergunta não respondida da sua vida. Até mesmo as mais confusas, as mais sérias, as mais reais, as mais urgentes. Ele, que queria sempre uma solução prática pra tudo, ele que sempre fora racional. Havia sido vencido pela presença vermelho-cereja de Laura. O amor por ela era tudo o que ele tinha. Sua única certeza.

Gosto de ver você dormindo que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira, aperta o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias, a gente chega na seção das dez
Hoje eu acordo ao meio dia, amanhã é a sua vez
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado e hoje eu quero fazer tudo por você
Temos que consertar o despertador e separar todas as ferramentas
Porque a mudança grande chegou com o fogão, a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão, até que é bom
Porque a chama chegou na terça e na quinta chegou o som
Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
Até que é fácil se acostumar com o meu jeito
Agora que temos nossa casa é a chave que eu sempre esqueço…
Vamos chamar nossos amigos, a gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho, fica de bate-papo,
Temos a semana inteira pela frente, você me conta como foi seu dia
E a gente diz um pro outro: “estou com sono, vamos dormir”
Quero ouvir uma canção de amor que fale da minha situação
De quem deixou a segurança do seu mundo por amor, por amor…

3 comentários:

sblogonoff café disse...

Agonia.
Acho que é esse o sentimento das minhas horas de ócio. Me sinto como o Henrique. Às veze não sei o que estou fazendo no mundo. Me sinto como uma usurpadora do lugar de alguém que poderia apreveitar o mundo melhor que eu, aproveitar as oportunidades e o esforço de minha família bem melhor do que eu faço.
E também sinto a agonia de ter me formado e de não ter quase nenhuma aptidão... Fico inventando a cada dia que EU POSSO, que CONSIGO, que é só ter VONTADE. Acredito que a Vontade seja o nosso maior dom, e talvez seja por isso que continuo existindo e acreditando. E é por isso que eu diria para o Henrique que dores que ninguém nunca sentiu é o sentimento mais comum. A dor não é só dele, mas é dele a capacidade de ser capaz e ser feliz. É dele o dom de realizar.
E talvez esta misteriosa Laura saiba disso melhor que ele próprio.

sblogonoff café disse...

Só para não pecar na concordância: a dores que ninguém nunca sentiu SÃO os sentimentos mais comuns. Não sei se é dele, mas o Humberto Gessinger canta algo assim!

sblogonoff café disse...

E sobre as fotos (seu comentário no meu blog), concordo sim.
Já me disseram para rasgar aquelas famigeradas fotos, mas não quero.
Ficaram até bonitas!!!
E faz parte da minha história.
Enfim...

Ah, ótima a introdução da música do Legião. Perfeita para o post!

You are the best of the best!