Vinte segundos
Ele terminou de tomar banho rápido. Mais rápido que o normal. Geralmente deixava a água correr, enquanto imaginava que era cantor e que estava fazendo um show na chuva. Típico. Mas naquele sábado foi rápido. Quando terminou de se vestir e de pentear facilmente o cabelo curto e liso, se olhou no espelho. Estava com a melhor roupa, estava pela primeira vez em meses confiante em si mesmo.
- Você ta bonito, Rafael – sua mãe sempre dizia isso quando o via se arrumar para sair. Mas dessa vez, parecia que não estava só falando aquilo que só as mães dizem.
- Eu sei – ele olhou para ela e sorriu.
Enquanto se preparava para sair, deu mais uma olhada no espelho de corpo do quarto. Talvez tenha ficado lá só uns 20 segundos. Mas era como se tivessem sido horas.
Ele pensou no que estava prestes a fazer. Ia ser naquela noite que ia pedir Roberta em casamento. Esperara tanto pelo momento em que ia pedir em casamento a mulher dos seus sonhos. Rafael se lembrou de todas as vezes desde que tinha 13 anos que olhou para aquele espelho antes de sair. Tantas confissões, tantas esperanças depositadas. “Hoje eu vou tomar coragem e beijar a Luiza”, era uma das frases que ecoava em sua memória, perdida no tempo quase dez anos atrás mas ainda presa na superfície daquele espelho.
Rafael olhou bem e o que viu foi aquele menino de 13, 15, 18 anos. Viu todas as fases da sua vida. Todos os seus encontros, para a maioria dos quais se arrumou diante daquele espelho. Foi lá que escolheu a camisa com que iria para a festa de 15 anos da Mariana, que aprendeu a dar o nó na gravata no dia da sua formatura, que se arrumou antes de sair de casa para ir estudar na capital.
Rafael já tinha se formado, após cinco anos de árduas noites sem dormir por conta da faculdade. Já tinha um emprego fixo, um salário generoso. Já tinha conseguido comprar um carro zero, conseguido terminar a reforma da casa de sua mãe e ajudava até nas despesas da educação de sua irmã mais nova. Já era um homem. A única coisa que não estava certa naquele espelho, e talvez a mais importante de todas as coisas, era que não havia se tornado o homem que sempre esperara ser.
É como se a imagem no espelho não fosse uma seqüência direta da imagem do garoto de 13 anos apaixonado pela Luiza ou pela Cíntia, ou do adolescente de 15 anos em crise de identidade, ou no rapaz de 18 anos que via no reflexo como tinha ficado o seu cabelo raspado depois do trote de quando passou no vestibular.
E estava agora se arrumando no espelho do seu quarto pela última vez. Na outra semana ia se mudar para um apartamento grande, espaçoso, com uma prateleira enorme para os livros, discos e dvds que ainda iria comprar. Era o orgulho da mãe, da irmã e provavelmente do pai, onde quer que ele estivesse. Sempre tinha sido o garoto exemplar. Nem sempre o primeiro da classe, mas não menos do que o quinto. Tinha lido mais livros que todos os seus amigos e o mais louvável, nem se gabava disso.
Rafael já era velho o bastante para entender por que Cidadão Kane era o filme mais aclamado de todos os tempos e por que os Beatles era a melhor banda do mundo. E agora, seguindo a lógica, ia pedir Roberta em casamento. Roberta, pele branca, olhos verdes, jornalista conceituada, nem tão rica a ponto de ele se sentir intimidado, nem tão pobre a ponto de ele se sentir superior. Alta, decidida, forte, dona de opiniões peculiares. Ouvia Tchaikowsky, seu livro preferido era Crime e Castigo e tinha uma paixão por filmes do Frank Capra. Era ela que Rafael ia escolher para ser sua esposa pra frente. Mãe dos filhos que ele sonhou em ter desde sempre.
Mas será que era Roberta que aquele Rafinha de 13 anos que andava de skate e queria um piercing na língua ia escolher? Será que ela era a mulher perfeita dos sonhos do Rafa de 15 anos? Será que essa Roberta habitou a imaginação fértil do universitário Fael?
- Bobagem – Rafael pensou.
Mas o pensamento não se deixou afugentar por isso. Rafael sabia de cor as coisas que discordava de Roberta. Ela odiava musicais, preferia uma tarde nas ruínas gregas a um piquenique no Central Park em Nova York. Ela só usava batons escuros, nunca usava saia, sempre dava um jeito de o assunto dos dois cair numa discussão sobre Nietzsche. Isso cansava Rafael. Roberta odiava Harry Potter, não via graça nenhuma no Senhor dos Anéis, achava que adultos devem agir como adultos. Uma vez eles até brigaram quando ele decidiu comprar sopa de letrinhas no supermercado. Mas ninguém é perfeito, era o que Rafael pensava. “Não se pode ter tudo, é o que Charlie Brown diria”, Rafael se repetia.
Olhando para o espelho, naquele instante infinito a aliança lhe apertou o dedo. A aliança, que ainda estava dentro da caixinha, pressionou sua alma.
- Normal, todo mundo tem essa crise antes de casar – Rafael tentou se enganar mais uma vez.
A epifania veio na hora. Como é que poderia se casar com alguém como Roberta? Como é que poderia se casar com alguém que acha absurdo chorar assistindo Titanic? E se ele tivesse uma vontade súbita de faltar do trabalho e alugar O Rei Leão pra assistir numa tarde chuvosa? O que ela diria? Claro que ia fazer aquela cara de reprovação.
Roberta tinha sido filha única. Rafael tinha três irmãos. Dois mais velhos, de quem herdou costumes, gostos, roupas, mochilas, modos, jogos. E a mais nova, com quem aprendeu que os desenhos de hoje em dia ainda têm salvação e que eles não pararam de fabricar coisas do nível de Pica-Pau ou de Tom e Jerry das antigas. Rafael achava perfeitamente normal gostar de um filme do Orson Welles tanto quanto de uma comédia romântica da Nora Ephrom, por exemplo. Sintonia de Amor era um dos seus preferidos. Rafael gostava de pipoca, algodão doce, gostava de jogar Sonic com os sobrinhos pequenos. Gostava de Ivete Sangalo e de Ella Fitzgerald ao mesmo tempo e não via problemas nisso. Roberta dizia que ele precisava crescer e foi pra tentar crescer que ele decidiu pedi-la em casamento. Mas naquele momento, naquele segundo em que olhava para o espelho borrifando o perfume caro que ela o havia dado, ele percebeu que o problema nunca tinha sido com ele.
É claro, Rafael não vivia nesse mundo nostálgico e infantil, nesse paraíso dos pôneis o dia todo. Ele era sério, profissional competente, consciente de seus 25 anos de vida. Tinha saudades, mas não queria voltar a viver como um menino de 13 anos. Só que agora tinha acabado de perceber que nunca tinha se perdoado por crescer, como um garoto chamado Kevin Arnold lhe havia ensinado em um seriado que assistia quando era criança.
Rafael estava crescido. E ver-se com um metro e oitenta não foi sua surpresa. O problema não eram os bíceps grandes, os primeiros fios brancos sobre a orelha, ou as entradas. O problema não era o fato de ter se tornado um homem. Era o fato de ter se tornado AQUELE homem. Que daqui a pouco estaria noivo DAQUELA mulher.
Quando tinha 11 anos, Rafael se apaixonara pela primeira vez. Ou pelo menos, era a primeira vez que chorara por uma garota. E fora justo pela Marcela, a garota riquinha do colégio, que estava de namoro com o Guilherme, o garoto que jogava futebol. Foi talvez por causa dessa desilusão que Rafael começou a acreditar nos filmes americanos sobre garotos em busca da popularidade. Aos 13, em uma escola diferente, apareceu a Luiza. Tornou-se a melhor amiga, até se tornarem próximos demais para que Rafael desistisse de investir nela, para não estragar a amizade. Aos 15, conheceu a inteligente Cíntia. Aos 16 teve a sua primeira namorada, Bianca. Porém, não sabia muito bem como lidar com ela, que por incrível que pareça, gostava dele bem mais intensamente do que ele dela. Aos 17, voltou a gostar da Cíntia, até perceber que ela não era assim tão inteligente e especial. Na faculdade, conheceu Carolina, que tinha sido, até então, o amor (platônico) da sua vida. Ah, Carolina… Rafael nunca a tinha beijado. Há duas semanas, recebera o convite de casamento de Carolina.
Era essa a sua vida amorosa. Curta. Quase inteiramente não-correspondida. E agora, cansado de nunca ter dado certo, Rafael decidira se casar com Roberta. Com a mulher que não entendia direito o seu apresso pelo disco velho do Balão Mágico, mas que sabia conversar de igual para igual sobre Truman Capote, o objeto de sua pesquisa de conclusão de curso na faculdade. Era realmente isso que ele queria para o resto de sua vida?
Só porque nunca tinha sido feliz, será que agora era o momento de arriscar, jogar tudo para o alto?
Rafael achava que estava ficando velho. Tinha completado 25 anos e queria ter filhos logo, para acompanhar ainda jovem o crescimento deles. Queria ver seus netos, queria mostrá-los à sua mãe, que também já não era muito nova e não tinha uma saúde perfeita. Queria viajar, enriquecer mais, ter tudo. Convidar uns dois casais de amigos para tomar uns drinques em seu iate – quando comprasse um, claro.
Da última vez que ele havia falado com Luiza, percebera que ela tinha se tornado uma completa patricinha, ainda morava com os pais e era vendedora em uma loja. Cíntia estava há uns dois anos num namoro com um garoto chamado Rox que, diziam as más línguas, a espancava de vez em quando. Bianca era agora uma mãe solteira e tinha uma lanchonete em uma cidade próxima. Carolina estava de casamento marcado. Só de Marcela ele nunca mais tinha ouvido falar. E achava até bom, porque certamente teria um destino tão banal quanto a outra que apanhava do namorado. Gostava de lembrar dela como o primeiro amor, como aquele primeiro amor das músicas, principalmente da música dos Beatles. In my life, I love you more. Todas pareciam ter tomado o seu rumo na vida. Rumos diferentes do seu. Rafael já tinha chorado demais de nostalgia durante a vida, mas a lágrima que ele viu cair em seu roso enquanto ainda olhava no espelho significava um pouco mais do que isso.
Justo Roberta. Justo ela. Era mandona e implicante. Feminista, dominante. Até o sexo com ela era uma coisa complicada. Rafael esfregou os olhos e tentou se concentrar de novo nas qualidades da futura-futura-mulher.
- Ela é uma boa companheira, sabe fazer uma torta de atum como ninguém, gosta de ficção científica (menos Star Wars, porque se tornou algo comercial e infantilóide – oh, não… ela usa a palavra intantilóide‼ - Rafael, seu idiota, era pra pensar em coisas positivas sobre a Roberta‼). Ela está sempre arrumada, como se cada encontro, cada ocasião cotidiana fosse um grande acontecimento de gala. Ela não é do tipo que gasta dinheiro à toa, adora viajar, gosta dos Beatles (isso é importante, lembre-se disso, Rafael‼). Quando estamos sozinhos, ela sabe EXATAMENTE o que fazer. É envolvente, linda… É claro, eu sei de tudo isso! Foi por isso que me apaixonei por ela.
Segunda epifania. Por que era tão estranho dizer aquilo? “Me apaixonei…” Rafael continuou olhando para o espelho, como se conversasse agora com sua imagem, tentando encontrar o motivo do estranhamento. Já tinha dito a ela o quanto a amava. Tanto nos momentos de lucidez quanto nos momentos de êxtase. Já tinha pensado mais de uma vez e já tinha chegado à conclusão que isso era certo. Ele a amava. Mas agora já não sabia mais de nada.
- Onde será que anda a Marcela, hem?
- Quem, Rafa? Ta falando comigo? – a mãe perguntou, da cozinha.
- Não, mãe. To cantando.
- Será que ela ainda é bonita – dessa vez Rafael só pensou. Lembrou-se, e não era a primeira vez, da Marcela e de como ela possivelmente nunca soube e ainda mais provavelmente nunca saberá da importância que teve em sua vida, assumindo o cobiçado posto de primeiro amor. Houve outras, maiores, melhores, diferentes, mas nunca outro primeiro amor. Uma vez Rafael vira um filme lindo que falava exatamente disso.
Do quarto da sua irmã, Rafael conseguiu distinguir um pedaço da música “Champagne Supernova”. Era uma de suas preferidas. How many special people change? How many lives were living strange? Era a música que tocava no dia em que dançou com Carolina pela primeira vez em uma festa da faculdade. Definitivamente, porém, não estava sentindo aquilo tudo por causa de Carolina. Sabia que ela sempre seria uma memória, mas não pensava na possibilidade de ainda ficar com ela. Não era esse o motivo de suas divagações. Não era o fato de Carolina ser a mulher ideal. Era o fato de Roberta não o ser também.
Lá se foram os 20 segundos. Rafael ajeitou mais uma vez o blazer sobre a camisa social. Não usava gravata, mas precisava estar alinhado. Era um restaurante chique, afinal. Ele, que sempre tinha sonhado em pedir alguém em casamento em um ambiente informal, descontraído, de surpresa, em um helicóptero no ar, pulando de bungee jumping, mergulhando em Fernando de Noronha, qualquer coisa. Logo ele. Pediria Roberta em casamento em um restaurante. E nem mesmo o truquezinho de amarrar do dedo dela com um barbante e depois deixar o anel deslizar pelo barbante até encaixar no dedo ele tinha preparado. Ia ser assim, normal. Pedindo e pronto. Nem ia ter violino tocando “Love story”. Nem ia ter aliança dentro do docinho na sobremesa. Ia ser assim. Nem ia ajoelhar, Roberta odiaria se ele ajoelhasse.
Rafael abraçou a mãe, pegou as chaves do carro, afastou de uma vez por todas aqueles pensamentos. Foi até mais fácil se distrair enquanto dirigia, pegando a avenida principal no caminho para a casa dela. Ele sintonizou o rádio. Ótimo, uma música nada romântica, nada nostálgica, que não o faria pensar em prós e contras de novo. Uma música desconhecida. Um rock, ou sabe-se lá como chamam uma música dessas… Tantos rótulos, ele pensou. E foi pensando nisso que entrou no bairro de Roberta. Ela com certeza ia estar linda, ainda mais do que o de costume. Ia usar talvez aqueles brincos que ele havia comprado para ela numa viagem para os Estados Unidos um ano atrás. E um vestido novo. Salto alto… Ele adorava salto alto. Adorava Roberta de salto alto. Tentou materializar na sua frente a figura esguia e esteticamente perfeita de Roberta vindo em sua direção com um sorriso de “eu sei o que você está tramando”. Aquele sorriso lindo. Rafael quase pôde vê-la enquanto dirigia pelas ruas, antes de virar a esquina da casa de Roberta.
Por ora, havia esquecido tudo o que pensara durante os vinte segundos em que olhara para o espelho menos de meia hora atrás. Mas Rafael sabia, bem lá no fundo, que o estrago já estava feito.
There are places I’ll remember all my life
Though some have changed
Some forever, not for better
Some have gone and some remain
All these places have their moments
With lovers and friends, I still can recall
Some are dead and some are living
In my life I’ve loved them more
But of all these friends and lovers
There is no one compared with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new
Though I know I’ll never lose affection
for people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life, I love you more
In my life... I love you more
3 comentários:
se ela não aceitar o Rei Leão eu não vou ao casamento. ¬¬
e Rafael, fantástico que é, não devia se casar com uma moça que não entende os desenhos, as crianças e as sutilezas... devia viver pra si, enquanto espera alguem que entenda. Porque a vida traz... ela traz. Um belo dia, é 16 de fevereiro e você conhece tudo que foi a vida inteira e quer continuar sendo, ainda que só vá ficar concreto quase um ano depois.
e, meu bem, depois de reler o Simulacro... algo a dizer além do que já disse?
Cara, incrível, conheço alguém muito parecido com esse Rafael. E até as partes que eu não conhecia do Rafael se parecem com as partes que não conheço dessa pessoa!
A Arte e a Vida andam juntas, né?!
Estou de acordo com o primeiro comentário de mais uma incógnita de sua vida!!rsrs!! Se ela não aceitar o Rei Leão, eu até vou ao casamento, mas vou do mesmo jeito que todos foram ao meu!
Blog incrível! amei o texto!
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