24 de jul. de 2009

050: Conto Vinte - 24-07-09

Prateleira

Vanessa não era muito bonita não. Quer dizer, era daquelas que são até bonitas, dependendo do ângulo que se olhava. Talvez os olhos grandes dela combinassem com o seu cabelo, nos dias mais felizes, ela gostava de pensar assim. Seu corpo também não era dos mais atraentes. Era um pouquinho acima do peso e se recusava a deixar de lado os prazeres químicos de um bom brownie de nozes.

Vanessa atualizava o twitter umas cinco vezes por dia, até alguém - mesmo que um desconhecido - replicasse uma de suas mensagens - mesmo que seja com uma risadinha descontextualizada em forma de "ahuauh". Ela também trocava as fotos do orkut com uma frequencia acima do normal. Só às vezes os enquadramentos perfeitos que fazia com a câmera do celular eram comentados, geralmente pelos seus amigos mais antigos.


Vanessa tinha um blog e já estava há um mês sem escrever. Ela geralmente colocava a culpa nos trabalhos da faculdade, mas agora que estava de férias, não havia muita explicação. Nem era bloqueio criativo, era desilusão mesmo.

Vanessa tinha muitos amigos, poucos em quem confiava, uns dois para quem contava segredos, nenhum que lhe compreendesse a solidão. Ela achava que era porque só ela chorava ouvindo música antiga...


Vanessa sabia cantar muito bem, mas nas rodas de violão com os amigos sempre desafinava sem querer e morria por dentro quando não conseguia segurar uma nota. Ela sabia cozinhar e até costurar. Seu suflê de amendoim era das melhores coisas que já tinha provado na vida. Ela também tinha um livro de contos quase todo escrito, mas estava esperando alguém elogiar um deles pra poder pensar em publicar.


Vanessa já tinha lido de tudo na vida: Platão, García Marquez, Danielle Steel, Sidney Sheldon, Dostoievsky, Milan Kundera, J. K Rowling, C.S.S Lewis, Stephenie Meyer, Meg Cabot, Virginia Woolf, Ernest Hemingway, J.D. Salinger, Jack Kerouac. Tudo o que não sabia, procurava saber, era uma esponja de informação e cultura. Ela estava lendo o sexto Harry Potter pela quarta vez nos intervalos do Ensaio sobre a Cegueira.


Vanessa nunca tinha saído do estado desde os 13 anos, mas sabia de cor a história do Ulysses e sonhava com a Irlanda. Já tinha na ponta da língua o que visitar na Grécia, em Cancún, no Egito, na Austrália, nas Ilhas Fiji, no Havaí, na Escócia, na Eslováquia, na Rússia, na Namíbia, na Itália e na Eritréia. Ela até sabia que existia um país que cham Eritréia. Ela tinha aprendido francês com Godard, italiano com Fellini, alemão com o Daniel Brühl, inglês com a Felicity e espanhol com a Usurpadora.


Ela gostava dos filmes da Nora Ephron mas também se derretia por um Antonioni qualquer. Ela ainda gostava de ouvir os LPs da Xuxa que herdara da irmã mais velha, e ouvia nos intervalos entre Backstreet Boys, Jorge Drexler e Michael Bublé. Ela tocava piano, flauta, violão, percussão e harpa. Tinha o cd original do Fleet Foxes do lado do dvd pirada das Pussycat Dolls.


Vanessa criava histórias de fantasia, romance, aventura, suspense, comédia. Contava todas elas para o travesseiro, que aplaudia sincero. Ela gostava de andar na chuva, mas também gostava de reclamar quando pisava com seu all-star roxo escuro na poça. Ela brincava com a sobrinha como se fosse o Gene Kelly, e sonhava em vestir o vestido da Audrey Hepburn. No fundo sabia que ia acabar sendo uma Jeanne Moreau nessa vida de meu Deus. Quem dera ser uma Mairbel Verdù procurando a boca do céu em um carro sem rumo por esse Brasilzão afora.


Vanessa gostava de metáforas. Ela sabia ler as entrelinhas e estrelinhas. Ela brincava de descobrir cenas cotidianas em nuvens. Não praticava esportes, mas caminhava dois quilômetros por dia para ir para o estágio. Sabia um pouco de cada coisa e tinha opiniões sobre a maioria das coisas da vida. Mas realmente não estava muito consciente sobre as guerrilhas no Oriente Médio ou a situação da Palestina. Porém, ela não se envergonhava de saber da vida amorosa da Angelina Jolie ou dos Jonas Brothers.


Vanessa assistia novelas. Vanessa fazia canções. Vanessa rimava versos. Vanessa desenhava amores desencontrados. Vanessa andava de bicicleta. Vanessa sabia exatamente como agir para alguém amá-la. Vanessa queria viajar, casar, ter filho, cachorro, casa de praia, crescer, aprender, viver, respirar, trabalhar, pintar, bordar, solfejar, ensinar, aprender, criar. Vanessa não queria ser bonita. Vanessa só queria que alguém percebesse que ela era até legal.


Por que diabos ninguém conseguia enxergar (que ela era bem mais do que) isso?

Raindrops keep fallin' on my head
And just like the guy whose feet are too big for his bed
Nothin' seems to fit
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'

So I just did me some talkin' to the sun
And I said I didn't like the way he got things done
Sleepin' on the job
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'

But there's one thing I know
The blues they send to meet me won't defeat me
It won't be long till happiness steps up to greet me

Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me
'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me

It won't be long till happiness steps up to greet me

Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me
'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me




5 comentários:

sblogonoff café disse...

Bom, (rs) tem uma música da Vovò Mafalda, naquele LP, lembra?! Eu sei que você lembra sim! Pois é...
Pode ser isso.
Mas Vanessa tem muitos sonhos e muita cultura, mas não tem confiança no próprio taco. Vanessa do seu texto parece insegura e é uma esponja pra compensar a timidez e a necessidade de aprovação que ela tem. Ela está sempre esperando alguém pra dizer o quanto ela é boa. Sempre esperando não desafinar.
Sempre com medo do não!
De repente, um pouco de ousadia...
Bom, quem sou eu pra dar conselhos?!!!

Beijo!

Anônimo disse...

Acho que quasde todos se parecem com ela, por motivos diferentes deixamos de ver nossas maiores qualidades e impedimos os outos de vê-las com medo de nãos ermos aprovados...vai entender.

Sheyla disse...

Em algum momento de nossas vidas, somos um pouco Vanessa. Vanessa é humana. Abs.

Origami disse...

Sinto como se fosse amigo de longa data da Vanessa.

Origami disse...
Este comentário foi removido pelo autor.