15 anos completados há uns dois meses, contando os dias para os 16. Era como o menino gostaria de responder, se um dia alguém lhe perguntasse a idade. Era um charme usar aquelas palavras, em alguns meses não poderia mais usá-las. Não que realmente esperasse ser notado por alguém. Gostava de ser assim, despercebido, pra observar mais de perto a vida dos outros.Não era o prazer de bisbilhotar que lhe agradava, mas o lirismo que emanava das histórias que presenciava, ou apenas ouvia dizer. Era recontá-las, sempre buscando novas palavras que lia em Clarice ou nas traduções de Shakespeare de Bárbara Heliodora, para si mesmo, ou talvez baixinho, pros traseuntes atentos. Ouvidos aguçados, como o dele, captariam seu inverso da tristeza. Sua solidão não lhe doía, mas lhe dava sentido à vida. Mais do que dedicá-la a alguém, ou conviver com o peso de ser objeto do amor de alguém. Amor não deveria ser pesado, era o que pensava consigo mesmo, às vezes em voz alta. E se era pesado, o problema não era do amor, e sim de quem o sentia. Ele, o garoto, sim, era uma evolução. Estava preparado para lidar com o sentimento, mas sabia que ainda não havia conhecido alguém com quem compartilhar.
Ainda novo, numa idade idiotizada pela mídia e pelo cinema, talvez menos que na literatura. Aquela Julieta e seu Romeu, donos de outra história dolorosa, eram mais novos do que ele. Sujeitos de sorte. Mas para o garoto, a sorte tinha um sentido diferente. Assim como a inveja. O que sentia pelos indivíduos cujas vidas observava do alto do décimo andar, era uma inveja boa, incapaz de ser ameaçadora. Gostava de ver como as pessoas lidavam com sentimentos, peles, pais. Via a menina que conversava com o cachorro e escondia dos amigos as bonecas com que ainda brincava. Viu o homem se casar com uma mulher e ter núpcias com outra entre as lacunas da veneziana semi-aberta. Testemunhou a criança aprender a andar. A alegria dos outros era, para ele, alegre e triste. Eram as canções que lhe faziam chorar, escritas por outros e para outros. Eram músicas antigas, baladas românticas em inglês, boleros de Luiz Miguel, acordes italianos e portuguese. Outras vezes eram apenas os discos da Legião Urbana. Sua música preferida era Dezesseis.
Às vezes sentia que estava à parte do mundo, e por não ter nunca com quem conversar, já discutira consigo mesmo sobre sua função no mundo. As brigas internas são as piores, porque a vitória não é possível. Mas hoje, no alto de seus 15, quase 16, já sabia que fazia (sim) parte da sociedade. O garoto era alguém, importante e histórico, e sua função não poderia ser mais nobre: se não fosse ele a observar a alegria dos outros, quem é que iria? Quem é que contaria histórias e inventaria fantasias sobre os moradores do prédio da frente? Deixara de deixar de viver.
O garoto tinha uma compulsão por balas. Todas as cores, tipo, sabores. Masitgáveis, drops, chicletes. Três reais em balas, qualquer troco era destinado àquele prazer mais doce. Uma depois da outra. Às vezes ao mesmo tempo, ele nem esperava engolir uma para colocar a outra na boca. Divertia-se com os sabores que criava, na mistura de outros. Mel e café, coco e maracujá. Uma vez ganhara um pote. Ficara horas olhando para o pote, sem saber que diabos faria com aquilo. Encheu de balas. No mesmo dia, comeu todas. Durante o resto do dia, se preocupava em tirar fotos mentais das coisas, fechando bem os olhos para capturar imagens, ou participando de promoções que não ia ganhar, ou lendo sobre as novas regras da ortografia. Chorou, uma vez, ao ler uma palavra bonita. Tinha uma paixão pela vida, um apego incomum aos detalhes, que lhe dava forças para viver. Dedicava-se a se algrar pela alegria dos outros, olhando da janela.
Porque sua própria janela era uma metáfora de quem ele era. Vista de fora, apenas um quadradinho de vidro no meio do arranha-céu cinzento, imperceptível. De dentro, uma televisão multicanal, de onde se enxergava a vida. A vida simultaneamente, acontecendo. Imperceptível que achava que era no mundo, o garoto não sabia que, muitas vezes, durante a noite, sua janela era a única acesa no meio do arranha-céu. E qualquer um que passasse por aquela rua ou todas as outras que compunham a vizinhança, poderia notar, lá no alto do décimo andar, alguém ainda acordado às 4 horas da manhã...
João Roberto era o maioral
O nosso Johnny era um cara legal
Ele tinha um Opala metálico azul
Era o rei dos pegas na Asa Sul
E em todo lugar
Quando ele pegava no violão
Conquistava as meninas
E quem mais quisesse ter
Sabia tudo da Janis
Do Led Zeppelin, dos Beatles e dos Rolling Stones
Mas de uns tempos prá cá
Meio que sem querer
Alguma coisa aconteceu
Johnny andava meio quieto demais
Só que quase ninguém percebeu
Johnny estava com um sorriso estranho
Quando marcou um super pega no fim de semana
Não vai ser no CASEB
Nem no Lago Norte, nem na UnB
As máquinas prontas
Um ronco de motor
A cidade inteira se movimentou
E Johnny disse:
"- Eu vou prá curva do Diabo em Sobradinho e vocês ?"
E os motores sairam ligados a mil
Prá estrada da morte o maior pega que existiu
Só deu para ouvir, foi aquela explosão
E os pedaços do Opala azul de Johnny pelo chão
No dia seguinte, falou o diretor:
"- O aluno João Roberto não está mais entre nós
Ele só tinha dezesseis.
Que isso sirva de aviso prá vocês".
E na saída da aula, foi estranho e bonito
Todo o mundo cantando baixinho:
Strawberry Fields Forever
Strawberry Fields Forever
E até hoje, quem se lembra
Diz que não foi o caminhão
Nem a curva fatal
E nem a explosão
Johnny era fera demais
Prá vacilar assim
E o que dizem que foi tudo
Por causa de um coração partido
Um coração, um coração, um coração, um coração, um coração
Bye, bye bye Johnny
Johnny, bye, bye
Bye, bye Johnny.
4 comentários:
Com o perdão do palavrão (amparado por Luís Fernando Veríssimo), devo dizer "puta que pariu"! Ou, como diria sua irmã, "Eu odeio você, às vezes".
Tão perfeito que desisti de postar hoje. Foi minha homenagem a você e ao seu brilhantismo indiscutível.
Um beijo, Otávio!
O que devo dizer?!
Existe um pouco de mim nesse menino e existe você nele também.
Como são as janelas e a condição humana. O nosso propósito no mundo.
As histórias e a vida...
Eu odeio você às vezes!
Eu estou meio sem palavras..parada por um baque e pelas palavras abaixo que podiam tão bem ser minhas...
Chorou, uma vez, ao ler uma palavra bonita. Tinha uma paixão pela vida, um apego incomum aos detalhes, que lhe dava forças para viver.
é eu sou assim...em palavras...
acho q deveriamos unir nossas forças, juntar seu garoto e meus meninos e meninas e publicar um super livro!
^^
adorei
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